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sábado, 29 de dezembro de 2018

Há tempo pra tudo

Há tempo prá tudo mas nós estamos sem  tempo para acompanhar o movimento do tempo. Em consequência estamos perdendo a capacidade de perceber as transformações e até milagres operados pelo tempo no seu tempo.
O meu choro é tão raro quanto o canto do uirapuru, mas hoje mexe e vira lá tô eu num soluço entalado e sofrido por minhas muitas razões, por razões que não são minhas, também pelo desarrazoado de quem quer mandar as favas a razão. 
O peito doe, a cabeça também, o coração doe mais ainda, sangra, arde e queima para compensar a geada que vem de todos os lados. 
Nada disto parece lógico nem para mim nem para ninguém, mas a vida é assim mesmo, tanto sofremos como fazemos sofrer, então deve haver um propósito por traz dessas angústias vivenciadas por todos. Mas com o tempo as coisas mudam e faz mudar a gente e quando a gente muda, tudo muda.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Mediador.

O vizinho inicia, da sua casa, a fundação
Obra nova é tomada de muita movimentação
A cada hora chega toda sorte de itens de construção
Barulho de máquina a todo vapor  na escavação
Tem ronco de motor, da betoneira ao caminhão
Há também prenuncio de sisuda confusão
Uma cerca tortuosa tira do sério quem vive na retidão
Um cano de esgoto que desce na contramão
Vem sorrateiro e camuflado por debaixo do chão
Invadindo território fora do seu quinhão
Trazendo surpresas alheias que ninguém quer não
O vizinho quer arroiar o cano para refluir na entupição
Vai devolver a merda para o vaso do espertalhão
Se fosse mais investigativo do tipo espião
No cano faria uma colonoscopia de invasão
Assim registraria o espulgo na saída do botão
Quem sabe pudesse ver na origem um irmão
E a contenda resolver num aperto de mão
Cada um abre a sua fossa cavando na dureza do chão
Fica tudo resolvido na amizade sem juiz nem tabelião
Sem advogados, sem honorários e nem jurisdição
A lide não se formou em que pese a contestação
Aquilo que daria em morte, não fosse a minha intervenção 
Morreu no nascedouro sem se quer chegar a impugnação
A pendenga se resolveu num grande mutirão
Um churrasco na laje quando do final da fundição
Outro churrasco mais tarde no dia da inauguração
Uma amizade se formou em meio a contradição
E cada um armazena a barro nos limites do seu torrão.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Num dia de domingo

Não me pergunte pra onde vão os pensamentos.
Em tudo na vida há diversas e variadas censuras.
Liberdade genuína, só nos resta a do pensamento.
Para manter esse status, soltem as ideias mas contenham o verbo.
Não há limites à visão movida pelo pensamento.
Já o olhar cotidiano sofre a miopia das convenções sociais.
Por isso, cada vez mais menos estou na concretude diária.
A minha essência imaterial se aninha ao pensamento e se solidifica nele.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Dormindo no Deck

Tenho dormido no deck.
Passo mais acordado do que dormindo.
Dorme não dorme, a lua bonita empalha.
Ora encanta, ora aborrece, as vezes atrapalha.
Cedo ela mal se despede e o sol se impõe, olhando direto na íris da gente.
O dia inteiro andei pelas sombras e ele ali, a espiar pelas frestas.
Ao fim da tarde, já se recolhendo topou comigo de frente e mais uma vez bateu o farol alto na cara.
Outro dia, novo dia, velhas pelejas.
Eu aqui repetindo o mesmo berço e outra vez a lua gravitando ali ao alcance das vistas e ao toque das mãos.
Só que hoje ela não está só, ganhou reforço de vaga-lumes.
Também eu não estou só, as muriçocas de mim desfrutam.
Hoje assim saciando essas devassas é que não durmo mesmo...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Check-Up

Recentemente comentei por aqui do quão exagerados são os europeus no que se refere ao consumo de cigarros, hoje coloco um pouco mais de lenha nessa fogueira, porquanto não bastasse o excesso de tabaco, também têm o costume, talvez pelo rigor do inverno de colocarem carpete em quase toda edificação, fato este que agrava substancialmente o problema, na medida em que ocorre maior absorção do cheiro, de modo que o ambiente carpetado fica ainda mais impregnado daquele odor. 
Claro que a hostilidade tabagista atacou-me a alergia e então uma das primeiras ações no Brasil foi procurar ajuda especializada. Passei uma mensagem de whatsapp a um amigo médico com o qual, cheguei a trabalhar por um bom tempo. Depois das preliminares de velhos amigos, marcamos uma consulta para cuidar da alergia. Cheguei à clinica no horário avençado, mal estacionei o automóvel, a secretaria anunciou que o doutor já estava a minha espera. Confuso com a ausência dos protocolos iniciais, argui sobre os procedimentos prévios de praxe na recepção do tipo: preenchimento de fichas, senhas, espera etc. A secretaria acenou de que o médico recomendou a condução imediatamente após à chegada, de inicio fiquei com a "pulga atrás das orelhas" e comecei a conspirar a despeito da própria saúde, revisitei o telefone para ver se tinha dramatizado muito no contato telefônico a ponto do amigo doutor ter entendido que era uma situação de urgência ou emergência médica, claro que não se tratava de "nenhuma sangria desatada" para um atendimento prioritário imediato daquele jeito. 
Ao entrar no consultório, o meu amigo me recebeu com um sorriso tão doce, afetuoso e fraterno que mais parecia um próctologista justificando a necessidade de nos apontar o dedo ameaçador  em riste. Mas naquele momento me veio à recordação de quando trabalharmos juntos e relembrei que essa presteza, cuidado e gentileza eram características marcantes dele, sabe aquelas pessoas boas, sujeito puro, que a gente até torce para que de vez em quanto tenha uma atitude de menor candura, para que possamos ficar mais a vontade com a nossa própria consciência e nos perdoar por aquele dia em que a pressa nos fez desviar da velhinha, só para não ter que ajudá-la à atravessar a rua, ou quando disfarçamos na fila do banco para não sermos vistos por um conhecido porque não queremos conversar naquela hora? Mas que nada, quanto mais conversávamos mais me via distante da desejável evolução espiritual. 
Sabendo da agenda apertada do amigo tratei de entrar logo no tema que me levara ali, durante a anamnese, falei dos meus dias como fumante passivo contumaz, do clima frio, dos carpetes etc. Terminado o atendimento já com a receita de medicamentos na mão, o querido amigo me perguntou sobre a pousada em Milho Verde e sobre o acolhimento médico na região, falei que o local é de poucos recursos, que tem um posto de saúde e que os atendimentos são pelo SUS e em que pese não serem totalmente satisfatórios não eram de todo ruins, pois contávamos com a presença de um clinico uma vez por semana. 
O meu isolamento e consequente distanciamento de cuidados médicos mais regulares, fez com que o amigo iniciasse um assédio a fim de cooptar-me para realizar um check-up, ponderei de que não seria necessário e que no momento estava preferindo a ignorância sobre o meu estado de saúde, muito embora tivesse ciência da fundamental importância de um eventual diagnóstico prematuro. Dito isto, o meu amigo me colocou a par de vários casos em que a pessoa esteve no seu consultório apenas como acompanhantes e que depois de convencidos a fazer um check-up, descobriram sérios problemas, que se não fosse achados, representariam risco de morte eminente, foram salvos por conta de um diagnóstico prematuro. Depois dessa sutileza, claro que sai dali com diversos pedidos de exames capazes de detectar toda sorte de “ingrisias” ou “zica” que o sujeito possa ter. 
Despedi-me do amigo encantado, havia deixado escapar da memória do quão gentil, competente, fino e convincente era o meu velho amigo. Para ganhar tempo fui direto ao laboratório, onde agendei a coleta de sangue para o dia seguinte me certifiquei das orientações e apoderei dos recipientes para acomodação do material sujeito às investigações patológicas. Pela manhã, ainda em casa realizei facilmente a coleta liquida, já a sólida, mais disciplinada e coerente com os seus horários biológicos habituais, deu um trabalhão danado para sair da toca, contudo mesmo diante da grande resistência inicial e má vontade em se revelar, finalmente apresentou-se, com particular acanhamento para o passeio fora do seu habitat natural. 
O kit para coleta mereceu particular atenção, um involucro lacrado com um copo e um tubo cilíndrico com tampa amarela de pressão, para armazenar a urina e no outro pacote, um prato, um lenço de papel, uma colherzinha e um copo com tampa de pressão na cor marrom, ou seja, tampas personalizadas na cor do visitante, um mimo só. Também tinha orientações consoantes aos procedimentos e ao manuseio de cada assessório daquele. 
Chegando ao laboratório que até o dia anterior não o conhecia, devidamente municiado com os ingredientes para exames, retirei a senha e me pus a aguardar, enquanto esperava passei a observar tudo no local, como sempre faço nos novos ambientes em que frequento. Confesso que fiquei impressionado com a grandeza e glamour do local, tudo muito limpo, uma decoração valorizando os vegetais, muito mármore, tudo do bom e do melhor e de muito bom gosto, nem parecia um estabelecimento para "vampirizar" o sangue da gente, havia até uma cascata dentro da sala com peixes coloridos. Também tinha certificações indicando que aquela era uma empresa ecologicamente projetada, que aproveitava os recursos naturais como luminosidade, energia, ventilação e até a água da chuva era capitada para aproveitamento sustentável, tinham uma usina de reciclagem e muitos prêmios e certificados de qualidade e vocação na preservação da natureza. 
Sou bastante engajado nas questões preservacionistas, cheguei a trabalhar no fomento de medidas protetivas ao meio ambiente, acho tão crucial respeitar o nosso meio, até porque estamos nele integrados, imbricados, umbilicalmente ligados, somos massa física no meio sensível e sopro divino no intangível, portanto o ambiente preservado deve também garantir a limpeza espiritual, me filio particularmente a essa premissa. O gozado é que sazonalmente sempre haverá turbulências, imagine que, eu ali naquele lugar, pensando na energia divina vital, no quão sagrado é o sangue e todo composto vivo, no perfeito funcionamento cósmico e na bela relação interativa entre todos os elementos naturais, animal, vegetal, mineral e na energia divina dando movimento e grandeza a tudo isso, eis que de repente a tentação aparece e usando uma micro nano saia, toma assento bem à frente. Toda aquela estrutura harmônica entra em colapso, a inquietação dos funcionários e de homens e mulheres que ali aguardavam atendimento era patente. 
Fui tirado daquela viagem por uma delicada moca de branco que, para variar pronunciava o meu nome de forma equivocada, levantei-me, a acompanhei, lhe ofertei o braço, ela o garroteou, mandou que fechasse as mãos e enfiou a agulha de grosso calibre, encheu uns quatro potinhos de sangue e me encaminhou à copa para o tradicional cafezinho. Lá chegando uma boa senhora de uns 55 anos perguntou-me se queria o café com adoçante ou açúcar, lhe disse, nem um nem outro só café puro mesmo, ela elogiou a minha escolha, me serviu o café acompanhado de um pratinho com pães de queijo, comi o primeiro, estava delicioso, confesso que peco muito pela gula quando o assunto é pão de queijo, vixi, gosto demais, no terceiro já estava mais a vontade para as minhas observações sempre presentes, foi ai que notei ser aquele pratinho do mesmo que recebi no dia anterior para colher o material para exame de fezes. Não teve como não associa-lo a tal usina, recolhendo, customizando e eventualmente reciclando aqueles pratinhos que poderiam perfeitamente em um dia recepcionar biscoito para análise e noutro acomodar pães de queijo... Será...? 
Fico aqui pensando se me tiram o sangue, consigo sobreviver a isso bem, mas não queiram me tirar à dignidade se não o sangue eu bebo...

sábado, 8 de dezembro de 2018

Esfinge D'álma

Poesia é como se você tivesse uma peneira fina para classificar as palavras, de tal sorte a não permitir a passagem de futilidades, grosserias e afins do gênero. Todavia, ao “poetizar,” por mais cauteloso e diligente que você seja com as palavras, ao final percebe que no tecido central da peneira há sempre um imenso rasgo, por onde escapa muitos termos “desclassificados”, sem a postura e elegância que convêm à letra e ao arranjo poético.  
Mesmo assim, no derradeiro exercício de autoridade corregedora, você olha para a composição e o conjunto literário parece advogar na defesa dos termos menos nobres, e aquela interseção na defesa das pálidas expressões, de carente robustez e miúdo alcance poético nos comove e as deixamos continuar a viagem ali mesmo, fazendo parte do contexto, no papel de figurantes cuja presença, se justifica aos críticos de que sobrevêm sob o manto e tutela protetiva da liberdade poética. Isto é: “se já tá dentro deixa.” 
Todo poeta é um garimpeiro do cotidiano que extrai do dia a dia a pedra bruta, mas o achado da matéria prima não constitui ainda uma poesia. A alquimia poética só acontece quando o poeta revira a caixa dos seus arquivos de variados sentimentos e vai lapidando, temperando, forjando, dando formato e formosura ao texto. É nesse exercício artesão de cutelaria que surge a ferramenta imbricada de sentimentos, afiada na pedra filosofal, cuja têmpera final retrata a própria esfinge d’alma do autor.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Estrangeiro gozador


Há muitas coisas acontecendo ao redor do mundo, coisas parecidas e tão diferentes ocorrem todo tempo o tempo todo espalhadas por ai no universo humano.
Gosto das boas coisas praticadas na Europa, são muitas as condutas Europeias benévolas, entretanto desvios de conduta parecem gravitar sobre toda aldeia habitada, onde há gente, há de tudo um pouco, aqui vi roda de bicicleta sem corpo trancada no poste, vi quadro trancado sem as rodas, imagino quem sabe um dia o quadro de uma encontre as rodas da outra e desse casamento nasça um novo corpo Frankenstein com pelo menos tronco e membros.
Vi também muita sujeira pelas ruas, descuido este que até me favoreceu, pois tenho um excêntrico amigo colecionador de maços de cigarros vazios e em consideração a este amigo, que a rigor nem fuma, estou contribuindo com a limpeza europeia, catando lixo nas ruas para o dito amigo da onça, pois, em que pese a tarefa constrangedora este me é muito caro.
Para não fugir ao tema, estou me tornando um "tabacofóbio", aqui tudo cheira a cigarro, como fuma esta gente, lugar ideal para um colecionador do estilo! Tanto a cá como acolá não se pode fumar em locais fechado, mas estranhamente todos os quartos de hotéis por aqui "fede" a cigarro, não é pouco do tipo “frescurinha” é coisa forte de dar náuseas.
Tem muito mais que aos poucos e noutras oportunidades vou revelando, mas para encerrar vai ai a pérola do dia. Deslocando-me de Paris para Marselha, admirado com as mais lindas paisagens daquele país e os seus intermináveis cata-ventos gigantescos, uma das suas matrizes energéticas. Não sei se já desenvolveram ou se buscaram fora na América do Sul tecnologia para estocarem o vento, mas sei que aquelas estruturas espalhadas e girando pelos campos são bem aprazíveis ao olhar, quase que terapêuticas.
Pois bem, em uma das paradas vi uma de nossas malas deslizando na mão de um sujeito não menos mala, pelo pátio da rodoviária de uma cidadezinha do interior da França, tentei alertar ao motorista de que estava sendo furtado, mas o meu francês não tem nível para dizer: " par bonté mon seigneur, je suis victime d'un vol qualifié, ils ont pris mon sac dans le bus et il transporte dans la grosse main". Como a comunicação com o motorista não fluía e a mala só distanciava, sinalizei para ele me aguardar, isso é universal e então sai em desabalada carreira ao encalço do incauto que levava a minha. Em menos de minuto o abordei ao melhor estilo brasileiro, segurei firme a mala e dei-lhe um tranco, me fiz incisivo e convincente porque imaginei: se o motorista que se esforçava para me entender nada entendeu, como o cara que não queria mesmo me entender entenderia? Dai ficou aquele puxa, até que abri a mala e a primeira peça que a mim se apresentou foi uma calcinha, então resolvi no melhor dialeto nosso mesmo, peguei a dita e cheguei bem encostadinha ao rosto do gringo e bradei: por acaso você usa isso, nem serve em você, seu bosta de merda, zszszzsszsszsz (impronunciáveis) e foi assim, com essa fidalga leveza que me fiz entender e pude voltar com a mala que também nem minha era...

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Um dia no Pronto Atendimento

Diamantina é uma lindeza de cidade incrustada na serra do espinhaço, tal qual uma pedra preciosa grudada na pinha. 
Cada casarão antigo, substituiu a vivência dos nossos ancestrais nas cavernas. 
Na região, ainda é comum encontrar um ou outro ermitão vivendo em buracos de serra como mocós. 
Desde as seis da manhã estamos com pai no pronto atendimento, que, em certa medida é também uma caverna no porão da Santa Casa. 
Esse terreno serrano irregular faz nascer um porão/caverna em cada endereço urbano. 
Muitos escritórios, consultórios, ateliê, lojinhas e botecos funcionam nesses cubículos. 
À noite nos botequins de porão nos vários becos da cidade, artistas de hábitos noturnos tocam e cantam belas melodias ao vivo.
Os boêmios, e são muitos, passam a maior parte do dia no ambiente sombrio desses botequins. Duvidam da realidade sóbria das ruas, são criaturas de porão que vivem o mito da caverna. 
Na recepção do pronto socorro o movimento está intenso, viaturas dos bombeiros e SAMU se revezam na portaria. 
Há por aqui muita gente verdadeiramente necessitada de imediato acolhimento, mas também existem manhosos fazendo turismo neste nosocômio. 
Não há cadeiras disponíveis para todos na recepção e nem funcionários suficiente para o atendimento. 
Para suprir essa necessidade assumi de certa forma a triagem e virei uma especie de piloto de cadeira de rodas, cuja linha consistia em buscar no estacionamento aqueles com dificuldades locomotoras. 
Agora está mais tranquilo, então aproveito a larga espera para escrever um pouco. 
No momento vejo gente doente de verdade, de todas etnias, de vários cantos, de muitos municípios, um povo de nomes excêntricos que chega a bizarrice. 
Têm muitos enfermos simples e solidários, todavia as vezes cai de paraquedas uns "narizes empinados" que tentam dar carteirada. 
Noto a presença de pessoas mansas e de fino trato atendendo e sendo atendidas, tem também o oposto de ambos os lados. 
Um ancião muito decrepito, de fala pra dentro e cansada quis saber qual era o meu candidato, não achei adequado revelar, pois percebi que só queria retribuir o favor, porquanto foi um dos que carreguei para dentro. 
A minha permanência em espera acaba entrar no interregno de oito horas, de modo que já fechei um turno e nem sei quando isso acaba. 
Os problemas da saúde vão da alta complexidade à questões extremamente simples mas que podem ser desastrosas. 
O exemplo disso é que a rampa de acesso é bem íngreme, a cadeira de rodas tem as manetes emborrachadas para dar firmeza na empunhadura, ocorre que elas estão desgastadas relaxadas, no meu primeiro carreto quase perdi o paciente, por pouco não fico só com as manetes de borracha nas mãos enquanto a cadeira disparava rua abaixo com o enfermo, seria cômico se não fosse tão grave. 
Ops! Chamaram o meu pai. Fui

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Adversidade

As adversidades da vida encaro de frente.
O resultado não tem grande importância.
O enfrentamento faz crescer a dignidade.
Vencer ou perder são só circunstâncias.

Quando o assunto é estética me desconserto.
Acho melhor apreciar a beleza pelo retrovisor.
A visão invertida deforma a imagem nivelando as aparências.  
A feiura predileta vejo no espelho de casa.

E por falar em lindeza genuína falemos de animais.
A Bonita sofre as intemperes do tempo frio lá fora.
Na pata dianteira uma avançada bicheira.
Não é minha mais cuido dela assim mesmo.

O Bilú está com cataratas, surdez e artroses.
Antes não tinha nada disso, era só virilidade.
Tem mais filhos esparramados por ai que  Mr. Catra.
Agora anda devagar mesmo sem ler Almir Sater.

Todos dizem que o Pitoco é mau caráter.
Só porque faz covardia com os pequeninos.
O pobre nasceu sem uma orelha e ouvido entupido.
Eu não o considero mau, é só um cachorro surdo.

As galinhas andam soltas pelas ruas de Milho Verde.
E elas nem comem milho, pastam gramas como cavalos.
Nenhum deles, nem o dito mau caráter comem galinhas.
Por aqui os que comem amanhecem com formigas na boca.
Nós e os galos comemos galinhas, nem por isso nos matam.

O Pirata era muito namorador mas não comia galinhas.
Sumiu de repente, anoiteceu e não amanheceu sem deixar vestígios.
Ele era grande cão ator, figurou no filme "Além do Homem".
Prefiro acreditar que foi para Hollywood receber a estatueta.

A Têtê também não é minha.
A conheci de noite na pousada.
Era madrugada e batia na porta.
Fui atender era ela, foi amor a primeira vista.
Sempre me visita quando aqui estou.

A Magia morreu sem comer galinhas.
Ela era especial, não por ser manca.
Mas porque era boa mesmo, ela e Laila.
As duas amigas morreram nas minhas mãos.
Lembro-me delas e a tristeza abunda.

domingo, 9 de setembro de 2018

ESSE CARA SOU EU

Vivo a parte de vida que ainda me resta
Em meu corpo silente existe alma falante
Já vivi a outra parte bem maior que esta
No homem sensato há coração apaixonado.

Toda literatura me expande
As poesias me excitam
Sou um pouco do que leio
E muito do que me recitam.

Antes eu vivia a neologia dos fragmentos
Hoje vivo a condensação do interstício
No mesmo dia choro, sorrio, me calo e grito
A vida amarga me empurra no precipício
Doce vida na candura de lá me tira.

Os dias me consomem
A ignorância também
As estações orientam
A sabedoria encanta.

No abismo me fortaleço
Na guerra ensaio
Em Milho Verde reinvento
Por ai eu saio, levanto e caio.

Se me perguntarem onde estou
A resposta é o que sou
Em algum lugar promissor
Nem aqui nem lá, mas lá e cá.

sábado, 8 de setembro de 2018

Viúvo é quem Morre

Como de costume, tentou uma aproximação silenciosa em meia marcha, com mãos sensivelmente cirúrgicas manteve a manete a um quarto de aceleração, estacionou na minúscula garagem ocupando alinhamento bissetriz perpendicular de modo a não prejudicar o espaço do outro, retirou o capacete, com charme e elegância singular, abanou a cabeça dando movimento e volume aos cabelos longos. Com leveza, cansadamente subiu os cinquenta e três degraus da escadaria, mesmo com o coração fechado ao próprio propósito abriu a porta principal, esperou os maus presságios baterem em retirada carregando consigo o pesado fardo das energias mundanas, só então entrou, mesmo assim ainda percebeu o retardo de uma sombria presença o que lhe causou arrepios.
Elevou o pensamento prontamente acolhido lá no alto, dependurou às chaves no terceiro gancho de seis existentes ali no pequeno quadro à direita da porta, dirigiu-se ao escritório donde se desfez da pesada mochila, entrou no quarto do casal bem ao lado, retirou o coturno de quem outrora saira da fila do saquinho para estrear vida nova de terráqueos, deitou-se, cruzando as pernas em formato de x, bloqueando toda e qualquer forma de invasão na área restrita, elevou os braços e sobre eles apoiou a cabeça. 
Mesmo sem intenção, o olhar foi automaticamente direcionado à parede de frente, lá, com carinho observou uns chapéus dependurados desordenadamente, esboçou um angelical sorriso e se entregou em reminiscências, pois conhecia todas as historias tiradas de dentro daquelas cartolas, muitos ali não só lhe protegera das intemperes do tempo mas também e sobretudo lhe abrigava dos olhares insanos da cobiça, suspirou profundamente e por um instante pensou que havia amor e que poderia ter dado certo não fosse as prestações de contas alhures, deu de ombros e virou as costas à sua potencial fonte de nirvana.
Mais uma vez foi tomada pelo monopólio dos pensamentos mais obscenos, chegou a entrar em transe meditativa, por um instante um filme passou por sua cabeça, viu passeios, diálogos, muitas convergências e também algumas divergências, sentiu harmoniosa sintonia e até conexão divina no casamento, tentou vigorosamente manter as lembranças distantes dos desejos carnais conforme lhe convinha, mas sentiu raiva de si mesma, pois não só relembrava de tais momentos como viu o seu corpo reagir e os hormônios emergirem, desejosos por sentirem o calor e o peso de macho sobre si. 
Naquele momento reviveu o encantamento, o sabor e o cheiro da fumaça dos gênios, uma inebriante nevoa do seu homem ópio viciante, se esforçou para não tragar por inteiro, pois a penetração lhe causaria dependência psicológica e física. Na oportunidade sentiu um calor tomar conta do seu corpo, notou que a sua intimidade reagira àquela viagem de um sonho acordado, desceu as mãos na direção pubiana, percebeu que mais parecia um alagado pântano e então orgasmos múltiplos e sucessivos foram inevitáveis.
Em meio àquela confusão mental, o choque de realidade bateu à sua porta sem cerimônia ou qualquer outro tipo de sutileza. O seu amor já encurtado, desgastado e colocado em cheque convalescia, então num ato de piedade resolveu o presentear com uma espécie de derradeiro agrado, assim sendo se liberou ao toque físico e até ao contato íntimo se fosse o caso, porém na sua singularidade do seu pensamento o aceite seria uma generosidade movida pela dó, em que poderia ficar alheia ao ato em si. Desse modo e com este espírito, assim se portou, se sujeitando ao que viria a ser a última relação, estando ela apenas e tão somente de corpo presente.
Diferentemente do entusiasmo e desejos sempre presentes no campo do imaginário, o ato propriamente se deu na pauta da formalidade, ortodoxia e pragmatismo donativo, nenhum desejo lhe ocorreu, sem graça e sem prazer, nada sentiu, se não dor, desconforto e mau estar. O cheiro forte e ;acido de sangue, causou-lhe enjoo, então decidiu que aquela seria a ultima transfusão permitida. O odor venoso se estendia pela mais longa noite cujo mundo conheceu em que as rondas periódicas da morte davam o tom e balizavam a intensidade da mágoa, dor e fadiga. 
Ao despertar pela manhã foi que se deu conta de que o seu amor tinha desfalecido, morrera à sombra da madrugada com um sorriso de angustia no canto da boca. foi assim que passou o dia com um amargo gosto de cobre na boca, um aperto no coração, e a mente perturbada com aquele sorriso maroto de Moraliza como se o falecido lhe olhasse de todos os ângulos e lados. 

Aquele fatídico dia de agonia, foi dividido pelas lembranças de quão intenso fora o matrimônio no seu início e agora ali cuidando dos preparativos do velório, lembrou da noite precedente e teve remorso por não participar ativamente da última empreitada.
Passado a cerimônia fúnebre, entrou em luto de curta durabilidade, um dia e meio. Após o que, vestiu o seu mais insinuante look, pôs um sorriso no rosto previamente maquiado, tirou uma selfie e a publicou em todas as mídias sociais, com a seguinte legenda: "Vida que segue, viúvo é quem morre! Jovem viúva se procura homens que marretam forte, enxuga e guarda".
Hoje no conturbado dia a dia, usa os momentos livres que sobra para avaliar propostas no perfil e agendar eventuais testes drives...

sábado, 28 de julho de 2018

Virtude dos intérpretes

Escrevo sobre coisas que bem não compreendo.
São poemas enigmáticos, cujos códigos me confundem.
Dou vida literária à imaginação, nem sempre sóbria.
Nada indago nada afirmo, apenas exponho abstrações.
A exatidão e o comportamento padrão não me atraem.
Construo os meus versos nas rachaduras do universo.
Nem só da ordem vive o homem, muito se se realiza nas transgressões.
O mesmo descuido que nos mata, por vezes também nos salva.
Da negligência nasceu a penicilina, o vinho tinto e tantas outras variáveis acidentais que se fizeram úteis e funcionais.
Não me apraz essa forma negocial do jeitinho e das costuras remendais.
O homem se aproxima mais da divindade quando inconsútil.
Verdades absolutas mentem, o prazer pode esta também na polaridade fria ou quente e não só na zona morna do conforto.
Quão sem graça seria se os arquitetos aceitassem a máxima do ponto de equilíbrio residente apenas no meio.
No dorso forte do amor até a palavra eternamente pode fraquejar.
Escrevo da recepção, nela não há paredes, telhado ou balcão, ainda assim, recepção.
Relativizar no contexto é preciso, prostituir não...

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Catira

Quando tiro para cozinhar, lavo, enxugo e guardo.
Não é sempre que acontece, mas quando ocorre faço bigode, cabelo e barba.
No geral, não participo de leilões, não me apraz, a tradição do quem dá mais.
Só me vendo em prisão de festa de São João, quem paga a fiança me leva.
Participo do correio elegante, rola barraca do beijo, tudo pela caridade.
Há em mim um tempero picante que leva à dependência e ao vício.
Para salvar ovelhas, enfio a mão nua e arranco pela raiz a erva daninha do campo e do caminho.
A mesma mão ultrajada que salva, pega as armas e vai a guerra.
Não sou de sacrificar a ingenuidade e nem zombar da inocência de outrem.
Por isso, um anúncio que oferta carne fresca em outdoor ou em redes sociais me ofende.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Comedia sem graça

A vida é efêmera, perene é a existência. 
A nossa forma de lidar com o tempo e espaço é muito falha e está distante da geografia e tempo de Deus que são perfeitos. 
Sendo assim, tentem entender caso eu não compareça a eventuais atividades avençadas com o propósito de ajustar aos interesses da chamada projeção social, cujo pano de fundo demonstre causa nobre, porém a geometria do palco cênico abrigue comportamentos mesquinhos condimentados com esnobe ostentação de vaidosos umbilicais acometidos da síndrome dos pavões que expõem o rabo e escondem os pés. 
Todos nós temos liberdade de arbítrio para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa, porém toda ação ou omissão nos vinculará às consequências delas derivadas. 
Cada um tem a sua agenda privativa e flexível que norteia e dá contornos as suas condutas diárias e existenciais, entretanto, o que foge a compreensão de muitos de nós é que há um outro agendamento de Deus para todos e a nossa virtude se mede pelo percentual de coincidência existente entre a agenda privada e a agenda divina quando confrontadas.

sábado, 19 de maio de 2018

Seletividade

Seres perfeitos são autossuficientes.
Pressupõe que não necessitam de outrem.
Já os imperfeitos precisam de bons norteadores.
As falhas me perseguem, por isso mesmo,
sem a presença iluminada não decanto.
Logo eu que mais preciso de acolhimento
sou abandonado, por malgrados e faltas.
O paradoxo reside em dar as costas ao mudo que nada fala
para dialogar com o consagrado orador.
Não há mérito algum no ombro ou colo seletivo,
pois não passa de fomentador do egoísmos,
é como atirar o boi mais frágil às piranhas.
Onde está a virtude em oferendas de muletas
para quem com desembaraço maratona corre?

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Se infarto eu falto, estou farto

Recentemente fui desenganado.
Todo diagnóstico traz consigo virtudes.
A diagnose nos tira da ignorância.
Quando as vendas saem, o entendimento vem.
Desse modo tomo ciência de que sou plural
e que é a soma das partes que me faz ser único.
Essa equação me obriga a aceitar
a fração cuja morte prenuncia.
A falência é elementar e até necessária,
é ela a profilaxia transformadora,
a metamorfose de todo ser mutante.
Sei que sou eterno, mas também sei
que a roda libitina não para.
e que para renascer, morrer é preciso.
Tomo o ultimo gole, matei uma garrafa,
mas há tantas outras na adega e espalhadas por ai,
também, ao redor do mundo, há uvas em decomposição, 

morrendo para nos dar vida etílica de boa safra.
Vou dormir, matar o sono
e partejar novos sonhos meus.
Nesse momento estou sendo tomado
por um pensamento promissor,
Mas ai veio a razão e me fez abortá-lo
e aquilo que parecia interessante
morreu no útero sem se realizar...

domingo, 13 de maio de 2018

Enigmas de um ser; ou será estar?

Um domingo, dia das mães, dia dos "filhos da mãe" também! 
Quero ler mas não consigo, gostaria de escrever e a concentração esquiva. 
Este livro não é de Adélito, é de Adélia. Ela o escreveu, porém teve um pingo da minha contribuição na pagina 464, essa mancha ai exposta é lagrima minha, e não há nada mais poético do que poesia borrada de lagrimas.
Um nó na garganta, um aperto no peito e uma lágrimas que saiu do coração passou pelos olhos, viajou pelo rosto, temperou os lábios, rolou ao queixo, de onde caiu e se integrou à poesia de Adélia.
Essa irrigação salobra também é poesia, só que de quem não consegue se expressar com arte. A minha arte é de arteiro, não de poeta.
Sou de intrínseca essência eremita, poucos entram no meu deserto privativo, por isso mesmo escrevo, não para fazer poema mas para mapear minha área obnubilada e quem sabe torná-la menos cinzenta e mais amistosa e acessível aos que arriscam nela penetrar. 
Em mim não há vocação para beija flor, não meto o pico por ai indiscriminadamente só para sugar a docilidade alheia e fertilizar a fina flor.
Não beijo só por beijar, não sou colecionador disso, embora pudesse beijar até uma viúva negra e dar a vida por um único e especial beijo. 
Até que para driblar a minguada inspiração, poderia continuar escrevendo, mas estou na recepção da pousada e fui alcançado pelo sol, como ele brilha para todos, vou recolher a caneta, abrir o casulo e tomar banho de sol...

sábado, 12 de maio de 2018

Insubordinação do pensamento

A vida nos é servida em fatias, a primeira sempre mais saborosa.
Sinto sede de viver na medida em que a escassez abunda.
Cada golo que saboreio é oásis na aridez do meu privativo deserto vip.
Parece que a fonte que antes jorrava vida, agora minguada goteja.
Não há sinais físicos de patologia letal é o pensamento que mais mata.
A desobediência da imaginação me fadiga,
nem parece minha e talvez não seja mesmo.
O pensamento confunde, vai do divino ao obsceno num piscar de olhos.
O mesmo sentido que acolhe e assiste um irmão no leito hospitalar,
molesta a enfermeira evasiva na saída.
A dupla face do espelho me incomoda,
entre nós não existe afinidades, ele 
expõe a caduquice física, 
mas acoberta a demência espiritual.
Não sou um toco de madeira em passiva decomposição
que ornamenta a sua sala, mas um tição que por dentro ainda queima.
Dizem que em todos nós há uma fênix,
talvez, no momento eu nem seja daqui, pode ser que haja um eu
marretando de dentro para fora a casca de um ovo para renascer... 
 

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Trabalho Infantil.

Quando ainda era pré adolescente trabalhei num bar de periferia. 
Era do tipo copo sujo ou puxa faca, dependendo da região.
Nem sei se isso é legal hoje em dia,
na tenra idade não se pode fazer mais nada!
Lá aprendi muita coisa pelo método pedagógico do reverso contraditório.
O boteco tinha mesas de sinuca, carteado e fregueses graduados
nas diversas variáveis incontroláveis da malandragem mais apurada.
Uma bandidagem acostumada a passear por todos os artigos do código penal.
Do lado havia uma casa da luz vermelha, fina flor do baixo meretriz.
No puteiro, uma janela grande e antiga de madeira maciça,
funcionava como uma espécie de outdoor do prostíbulo.
Nela estava escrito, (ipsis litteris)  a base de giz de cera, na cor lilás:
"puta nova, formosa e asseadinha, quase virjem, chegada a pouco de fora,
venha conhecer, conferir e provar, traja os amijos."
Eu achava muito estranho aquela troca do "g" pelo "j",
mas o acanhamento não me habilitava a corretor gramatical da zona.

Provavelmente a confusão tinha origem no idioma hibrido 
adotado pela cafetina paraguaia, dona e marqueteira do bordel.
Ainda assim, todos os dias, chegando e saindo do trabalho,
eu conferia para ver se a grafia tinha mudado, e nada.
Trabalhei uns dois anos naquela bodega 
convivendo com toda sorte de marginalidade,
inclusive com o assassinato do vernáculo pátrio.
Quando sai da putaria, sim putaria,
porque o boteco também o era por força atrativa.
Bem quando de lá sai, a frase continuava na janela, 

não só com o defeito de escrita,
mas também e principalmente com a propaganda enganosa.

Sim, porque mesmo esforçando
no aceite da pouco ortodoxa hipótese 
de ser a mulher dama de fato uma semi-virgem 
perpétua por herança genética.
Mesmo sendo grande o consumo do objeto colocado a venda, 
poderia a "moça" ter o chamado  hímen complacente,  
a literatura o admite sem exclusão, ainda que utilizado 
com grande rotatividade e afinco no pródigo negócio.
Porém não obstante admitir a missiva acima, 
mesmo não se poderia dizer sobre a moça ser recém chegada ao cabaré, 
com essa inverdade não dava para ser complacente.

Haviam pedras no meio do caminho

Por muito tempo andei descalço.
Uma vez ou outra dava topadas.
Em algumas, perdia a cabeça do dedo com unha e tudo.
Minha mãe, tia, vó e mais grandinho eu, 
revezávamos fazendo uma capanguinha com retalho de costura, 
vestia a carapuça no dedo lesionado 
e amarrava o que seria as alças do bornal no tornozelo.
A carapuça curativa ficava ali por semanas 
até desgarrar naturalmente, o que, quando ocorria,
geralmente a cabeça do dedo já estava reintegrada.
Desta época, algumas coisas me intrigam até os dias atuais:
Primeiro o por que as topadas davam preferência ao dedo machucado, 
nunca entendi essa insistente reincidência.
Segundo, por que quando passei a usar calçados, 
nunca mais fui visitado pelas tais topadas? 
Terceiro e mais absurdo, por que tenho saudades destas coisas?
Hoje ainda experimento tropeços, topadas não mais.

domingo, 15 de abril de 2018

Carne fraca

Jovem era o padre, viçosa a noviça.
Dois religiosos e um voto em xeque.
luta aguerrida entre hormônios.
Teste de fogo para a frigidez da castidade.
Toda abstinência nega a ordem natural.
No confessionário, uma comum confissão:
- Padre a ti não tenho mal querência.
- Isso é virtude, não pecado.
- E se por ti vier a ter bem querer?
- É generosidade e bondade sua.
- E o que devo fazer em penitência?
- Nada, só tens que assim continuar.
- Padre se não se se importar,
por segurança, um terço vou rezar,
e o bafo do mormaço afastar.

sábado, 14 de abril de 2018

Reminiscências Profissionais

Era ainda muito moço e me graduei na corporação. Atirava muito bem e nem foi aperfeiçoamento proveniente de instruções, acho que nasci assim, bom atirador. Devo ter herdado do meu pai, que era perfeito na pontaria. 
Por essa habilidade natural, me tornei instrutor de tiro e desenrolava o ofício bem, de forma satisfatória e prudentemente, como se deve ser mesmo no manejo de ferramentas tão letais. 
Assim ganhei o respeito de todos, gostava de ensinar e o fazia com prazer, discrição e humildade. A metodologia utilizada era a genuína força do exemplo, jamais cobrei de um aluno a realização de uma tarefa sem antes havê-la feito pessoalmente em demonstração. 
Em razão do bom desempenho fui convocado para fazer um curso de atirador de elite na capital. 
O curso foi ótimo, quatro meses estudando e praticando só nesse tema me extasiaram, ali vi o quão limitado era o meu conhecimento, numa matéria em que era um respeitado instrutor. 
Não só desmontei, montei e atirei exaustivamente com todos os modelos de armas, bem como as vi, em funcionamento nas entranhas viscerais, nos seus mínimos detalhes, pois para cada modelo havia uma com a carcaça em material transparente, justamente para que pudéssemos visualmente constatar a necessidade, função e eficácia de cada peça que compunham a respectiva arma.
Treinávamos pesado, passando por uma pista que simulava a realidade operacional, com diversos pontos de intervenção, tais como: atirar a cerca de cinquenta metros em um balão específico e pré-determinado, em meio a dezenas de outros balões com um tubo de ar os colocando em movimentos aleatórios e imprevisíveis para todos os lados, direções e profundidades, ora o seu balão alvo aparecia à frente, ora atrás, perpendicular e parcialmente aos lados, o disparo tinha que ser preciso e no exato momento em que o projétil não atingisse outros balões, às vezes era preciso esperar até quarenta minutos ali, imóveis e posicionados com o balão na massa de mira para que quando este mostrasse sem que outros estivessem no percurso do projétil, o disparo fosse efetuado. 
A partir desse curso, a instrução entrou noutro patamar de eficiência, passamos a dar treinamento de tiro também à noite com pouca visibilidade, com os alunos extenuados por exercícios físicos precedentes, sem dormirem, debaixo de chuva, com o alvo segurando refém como escudo, todos em movimento, dentre outros graus de dificuldades, nunca antes experimentados nas instruções.
Formei-me com louvor, recebi certificado e o emblema que agregou aos apetrechos da farda e muito orgulhoso voltei para as atividades, dentre elas, a de instrutor de tiro. 
O instrutor usava o mesmo corpo, mas a pessoa era outra, a discrição, sobriedade e humildade tinha cedido espaço para a soberba, então em míope autocrítica, "expunha-me a mim mesmo" pela falta de subsídios nas instruções dantes. 
E assim, todos os anos eu percorria diversas cidades do Estado, levando a minha proficiência e "show", no que era muito bem recepcionado, referendado e aplaudido por todos, dado a excelência e notoriedade alcançadas pelo jovem instrutor. 
Então, certa vez, numa quinta feira pela manhã, na cidade de Ituiutaba, no pontal do Triângulo Mineiro, durante aula teórica que precedia a prática, um dos profissionais ali presentes questionou-me a respeito de um disparo de um revólver que havia caído ao solo dias atrás. 
Do alto do saldo de quem tem domínio da passarela, vomitando infantil arrogância, lhe disse que isso não seria possível,  pois o retentor do cão só o liberaria para percutir a espoleta da munição e com isso permitir o disparo, no exato momento do acionamento da tecla do gatilho pela ação do dedo do atirador. 
O profissional reafirmou e ainda disse que o fato havia ocorrido com ele e que estava com a arma do citado evento  ali, então me apoderei do revólver, o municiei e solenemente dei uma pancada com o cão no piso para mostrar a impossibilidade técnica daquela ocorrência narrada. 
Para minha surpresa o disparo ocorreu, e foi com o rabo entremeio as pernas que sem entender o porquê daquilo é que desmontei aquela arma e constatei que o tal retentor do cão estava quebrado. 
Esse chá de realidade me devolveu a sobriedade e discrição importantes no exercício profissional. Pedi desculpas e nunca mais exerci a docência nessa área do conhecimento. Hoje não acredito em tudo que me dizem por aí, mas me dou ao direito de também não desacreditar em nada..

quarta-feira, 11 de abril de 2018

No período jurássico.

Quando ainda existiam aquelas maquinas de datilografia antigas, a gente escrevia com total segurança, há poucos meses vi uma daquelas ainda em atividade, em uma repartição pública numa cidadezinha do interior de Minas.

Enquanto aguardava o atendimento, escutava aquele barulho das letras batendo no papel, o famoso “cata milho,” ao mesmo tempo também matutava a respeito da longevidade daquela maquininha. Foi ai que me ocorreu à afirmação inicial do quão confiável e seguro era a operação de escrita numa relíquia daquela. 

Era muito bom escrever com elas, dava uma sensação de importância e por extensão de um poder extraordinário, a gente tinha segurança incrível ao usá-las, com elas dava para topar qualquer parada, até competíamos entre colegas para ver quem primeiro escrevia otorrinolaringologista. 

Depois vieram as elétricas e complicou um pouco, enquanto as antigas eram fielmente obedientes aos comandos do datilógrafo, isto é, era preciso bater na tecla com convicção, força e fé para o mecanismo levar a letra gráfica até o papel, de modo que, era possível apoiar e até deitar o peso das mãos sobre o teclado sem o dispare acidental das teclas. Já nas elétricas isso não veio possível, o que, acabava por gerar muitos erros de escrita por ação involuntária decorrente do contato não querido no teclado, contudo, nada que o barrinho branco não resolvesse. 

Na sequência surgiram os PCs com teclado periférico, mais adiante os laptops com teclados agregados, ambos com teclas mais sensíveis em que o digitador quase precisava prender a respiração, pois as letras são tão doces que basta pensar numa para que ela pule do teclado para a tela do computador. 

Agora esparramaram por ai como epidemia, celulares, notebooks, ipeds, tablets e tantos outros do gênero, com as telas touch screen, em que não há teclas, no formato, umas vizinhas das outras, com individualidade e musculatura física palpável, nem em 3D são, algumas quase invisíveis a olho nu. Então para escrever sem passar vergonha, tem que ser quase um atirador de elite, cuja mira e pontaria, apurada aferida o habilite a acertar cada letrinha individualmente, sendo estas infinitas vezes menores que as pontas dos próprios dedos que as garimpam na tela. 

Para piorar os aparelhos atuais trabalham com a ditadura da inteligência artificial, em que você escreve uma coisa e ele lhe impõe outra totalmente fora do contexto, sem falar os toques acidentais que sempre leva o digitador a tergiversar para rumos distantes do pretendido, com intervenções da maquina, muitas das vezes e quase sempre, desastrosas e até constrangedoras, do tipo: “meus parabéns pela parceria gay”, quando a grafia pretendida seria: “muito bem pela prataria, gostei”. 


domingo, 8 de abril de 2018

Diferentes e tão iguais


Era tarde de domingo e os médicos são acostumados a trabalhar em dia Santo.
Acho que pelo hábito o legista escolheu o domingo para exumação do rei, envenenado a cerca de cinco anos, pelo eunuco, um pobre negro castrado a canivete por vossa majestade em pessoa.
O negro serviu um quarto de litro de cicuta a sua alteza, o resto ele mesmo tomou no gargalo, morreram juntos, o negro foi enterrado uma semana antes, o rei só depois das reais honras fúnebres. 
A exumação também era de ambos, pois só a comparação da ossada dos dois, revelaria inequivocamente a coincidência da causa mortes. 
Os ossos do rei eram tão brancos como neve, exposto ao sol, até dava gastura às vistas, eram brancos não porque era rei, assim o eram, porque têm essa cor todos os ossos. 
Também os ossos do negro eunuco eram brancos como neve, expostos ao sol, igualmente dava gastura às vistas, eram brancos não porque era negro, eram assim, por que assim são os ossos. 
Os homens se faziam diferentes em face de ossos tão iguais, diante dos ossos do rei, os súditos abaixaram a cabeça em sinal de respeito à sua graça, aos do negro, tapavam o nariz e viravam de costas em repúdio.
O que ninguém sabia, e não era objeto de estudo do legista é que o coveiro, um inveterado alcoólatra, havia trocado as etiquetas das ossadas, de modo que o negro eunuco se tornou rei por um dia e recebeu todas as honras de realeza, dos súditos e da nobreza até de outros clãs, enquanto sua majestade, embora morto, “viveu” o desprezo no seu próprio reinado.
Apenas as formigas tratavam com isonomia aquelas ossadas, sem distinção ou preferência, vilipendiavam a ambas, devorando o tutano para estabelecer moradia no oco daquelas criaturas não menos ocas quando vivias.

Cruz viva

O pecado está esparramado por ai,
no meio humano como fina areia na praia.
Já nascemos com o pecado original,
o nascituro ainda mergulhado no líquido amniótico
traz consigo o pecado de origem.
Assim também ocorre com o banhista
incapaz de sair do mar sem se impregnar
por granulada areia.
O pecado adere a criatura como poluição sonora
que invade o sentido auditivo.
Mesmo os que têm vedação acústica auricular
recebem as tentações ainda que em menor volume.
Cristo morreu na cruz para nos redimir do pecado,
mesmo assim continuo pecando em proporções generosas
que o mais adequado seria também
ser crucificado numa cruz viva.
Ser pregado na forquilha de um torto e retorcido tronco de pequi,
na aridez do serrado, de modo que,
na medida em que a árvore vai crescendo e expandindo
também força e tenciona os meus membros,
gerando dores compatíveis com a remissão
dos meus mais graúdos pecados.
Tenho meditado muito ultimamente 
para ver se aceito fazer uma "confissão premiada"
e quem sabe entrar no portal do além com pena reduzida.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

No topo


Subo a montanha meditando, escalando e falando com Deus.
Lá de cima, por onde olho vejo o encontro do céu com a terra.
O remoto é belo, longe fica a mais graciosa flor de cáctos.
Grande é a harmonia, nesses belos e ornamentais horizontes.
Muita falta me faz este ar puro das alturas e a lindeza também.
Enquanto o ar rarefeito garante uma vida de equilíbrio ao ser.
A rara flor, mesmo em meio aos espinhos, dá propósito ao viver.
No topo do pico, o suspiro profundo, leva a dor e limpa a mente.
Com fé oro ao criador, livrai-me Senhor de todas as tentações.
A oração decifra o enigmático ponto gravado na alma da gente.
Filho, o seu vale não é de lágrimas, seja resiliente, siga em frente.
És criatura do bem, pratique-o e de volta terá multiplicado bem.
As angústias, tensões e turbulências, vão passar, seja persistente.
Va à Mesquita junte-se a outros em louvor ao grande Criador.
Tenha fé, pois os seus sonhos e necessidades eu proverei.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Utilidade pública

No dia vinte e quatro, próximo passado, jogava futebol com amigos, quando sofri um trauma no olho direito, o mesmo que passou por uma cirurgia no segundo semestre do ano passado. 
Sai do futebol direto para uma clínica especializada, lá fui atendido, examinado, orientado e posteriormente liberado pela oftalmologista. 
Na segunda retornei a clínica com fortes dores de parto normal naquele olho, como se estivesse parindo a própria córnea. Fui novamente atendido e examinado, na oportunidade a médica constatou severa infecção no olho, receitou alguns medicamentos e repouso, liberou-me com retorno marcado para a quinta-feira seguinte. 
No dia marcado, lá estava de volta, segundo a doutora  o quadro infeccioso estava 50% melhor, então recomendou a continuação dos medicamentos por mais quinze dias. Perguntada sobre o fim do repouso e a consequente possibilidade de retomar as atividades físicas, liberou-me para a partir de segunda-feira, voltar às atividades físicas, porém, de forma moderada e consciente e na mediada em que os dias fossem passando, poderia ir intensificando o esforço desde que não surgissem desconfortos importantes no órgão afetado. 
Toda vez que sou submetido a um repouso, todo o organismo parece entrar em greve pelo período da cessação das atividades, então os órgãos se comportam preguiçosamente, com destaque especial para o intestino, que assume a síndrome do carcereiro desidioso, em que mesmo tendo a chave e alvará de soltura, insiste em não liberar o preso. 
Foi então que nesta segunda, (02/04), com grande demanda reprimida, iniciei o aquecimento para, moderadamente, conforme orientação médica, retomar as atividades físicas.
A idéia era iniciar primeiro com alongamentos, depois, uma corridinha de 10 KM, para uma vez aquecido, puxar ferrinho, finalizar com abdominais e de novo, alongamentos. Assim, me alonguei um pouco, desci e comecei a corrida, o primeiro trajeto, 2,5 KM, corrida de rua de casa até o Parque do Sabiá, onde correria, 5 Km, finalizando com os 2,5 KM de volta a casa. 
Percorrido o primeiro braço, cheguei ao parque e em ligeira parada fiz dez barras, no que desci do aparelho e peguei a pista, o carcereiro passou as chaves pelas grades, fazendo aquele chato e característico barulho. 
Sem dar muita bola continuei a corrida, quando passei pela jaula do leão, o carcereiro fez a leitura do alvará de soltura, fingi normalidade e continuei no meu ritmo, contudo, por uma questão de prudência passei a olhar para o lado a procura de um buraco na cerca, mas já viu né, é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que um buraco em cerca de zoológico. 
Passei então a mirar as árvores de quaresmeiras do outro lado da pista, todavia, me valer delas como escudo traria um problemão e eu precisava fazer uma ligeira e pouco ortodoxa escolha. Se usasse de proteção uma daquelas espaçadas árvores ornamentais, que dista cerca de trinta metros uma das outras ficaria coberto e abrigado dos olhares daqueles que andavam ou corriam na pista, porém totalmente exposto para os que circulavam à marginal da BR 050, ali pra frente do Makro Atacadista. 
Àquelas alturas, eu suava, corria e apavorado, procurava um local mais discreto que pudesse omiziar e com isso minimizar o vexame que estava por vir, já que não havia mais barreira capaz de segurar o preso de fuga eminente. 
Vivendo aquele caos e absurdamente desesperado, ciente de que aquilo "daria merda" mirei uma árvore mais grossa a uns cinquenta metros à frente e decidi dali não passar, não seria humanamente possível fazê-lo e seguir em frente sem cumprir a decisão do habeas-corpus, a situação se mostrava totalmente fora de controle.
Quando me aproximava da árvore já sabendo que a trincheira me protegeria apenas de uma face dos dois públicos, estava decidido, me protegeria das vistas dos colegas de pista e com sorte a turma da marginal não me lincharia. 
Quando parecia não ter mais saída me contorcendo de cólica, vi a aproximadamente cem metros a frente dois sanitários químicos, então juntei os joelhos e com eles colados rastejei-me até o paraíso, cheguei e como um esquadrão de forças táticas especiais, emburaquei e deixei acontecer a felicidade que parecia plena, a prioridade número um, que era fazer o dois se realizava, vivi ali naquele momento uma verdadeira explosão de contentamento.
Quando pude conferir mais amiúde o arrebento, agora liberto é que constatei a grandeza do intestino, que ali se fazia  representado por uns 50 cm ou até mais. Ai é que vem a pirâmide de necessidades de Maslow, em que satisfeita uma necessidade, o interesse volta para a próxima e nesta hierarquia, quando ali cheguei nem me passou pela cabeça a conferência da inexistência de papel higiênico no ambiente, aquilo era absolutamente acidental, mas agora aquela passou a ser a necessidade mais premente, a número um. 
Conferi cada detalhe daquela guarita onde o guerreiro procurava a munição mais adequada para a limpeza, um pedacinho de papel que fosse, mais nada, nem novo e nem com pouco uso, então fiquei ali desolado bolando um plano. Abri uma gretinha na porta para ver se por perto, havia um pedaço de jornal, um sabuco velho, folha, capim ou algo do estilo, e nada. 
Foi então que sacrifiquei a companheira mais grudada em mim, retirei a bermuda e cueca juntas, usei a cueca para a assepsia local e pesaroso pelo fato dela ser muito jovem a descartei no cesto. De novo vesti a bermuda e mais aliviado completei o percurso, digo mais aliviado porque a ferramenta antes contida, justamente pela justeza da cueca, agora mais livre para também exercitar, alternava chicotadas, ora numa perna ora noutra. 

PS: Tem outra ocorrência, noutro contexto, mas na mesma linhagem na Leroy Merlin, em que... deixa pra lá, depois conto esta também.