Recentemente comentei por aqui do quão exagerados são os europeus no que se refere ao consumo de cigarros, hoje coloco um pouco mais de lenha nessa fogueira, porquanto não bastasse o excesso de tabaco, também têm o costume, talvez pelo rigor do inverno de colocarem carpete em quase toda edificação, fato este que agrava substancialmente o problema, na medida em que ocorre maior absorção do cheiro, de modo que o ambiente carpetado fica ainda mais impregnado daquele odor.
Claro que a hostilidade tabagista atacou-me a alergia e então uma das primeiras ações no Brasil foi procurar ajuda especializada. Passei uma mensagem de whatsapp a um amigo médico com o qual, cheguei a trabalhar por um bom tempo. Depois das preliminares de velhos amigos, marcamos uma consulta para cuidar da alergia. Cheguei à clinica no horário avençado, mal estacionei o automóvel, a secretaria anunciou que o doutor já estava a minha espera. Confuso com a ausência dos protocolos iniciais, argui sobre os procedimentos prévios de praxe na recepção do tipo: preenchimento de fichas, senhas, espera etc. A secretaria acenou de que o médico recomendou a condução imediatamente após à chegada, de inicio fiquei com a "pulga atrás das orelhas" e comecei a conspirar a despeito da própria saúde, revisitei o telefone para ver se tinha dramatizado muito no contato telefônico a ponto do amigo doutor ter entendido que era uma situação de urgência ou emergência médica, claro que não se tratava de "nenhuma sangria desatada" para um atendimento prioritário imediato daquele jeito.
Ao entrar no consultório, o meu amigo me recebeu com um sorriso tão doce, afetuoso e fraterno que mais parecia um próctologista justificando a necessidade de nos apontar o dedo ameaçador em riste. Mas naquele momento me veio à recordação de quando trabalharmos juntos e relembrei que essa presteza, cuidado e gentileza eram características marcantes dele, sabe aquelas pessoas boas, sujeito puro, que a gente até torce para que de vez em quanto tenha uma atitude de menor candura, para que possamos ficar mais a vontade com a nossa própria consciência e nos perdoar por aquele dia em que a pressa nos fez desviar da velhinha, só para não ter que ajudá-la à atravessar a rua, ou quando disfarçamos na fila do banco para não sermos vistos por um conhecido porque não queremos conversar naquela hora? Mas que nada, quanto mais conversávamos mais me via distante da desejável evolução espiritual.
Sabendo da agenda apertada do amigo tratei de entrar logo no tema que me levara ali, durante a anamnese, falei dos meus dias como fumante passivo contumaz, do clima frio, dos carpetes etc. Terminado o atendimento já com a receita de medicamentos na mão, o querido amigo me perguntou sobre a pousada em Milho Verde e sobre o acolhimento médico na região, falei que o local é de poucos recursos, que tem um posto de saúde e que os atendimentos são pelo SUS e em que pese não serem totalmente satisfatórios não eram de todo ruins, pois contávamos com a presença de um clinico uma vez por semana.
O meu isolamento e consequente distanciamento de cuidados médicos mais regulares, fez com que o amigo iniciasse um assédio a fim de cooptar-me para realizar um check-up, ponderei de que não seria necessário e que no momento estava preferindo a ignorância sobre o meu estado de saúde, muito embora tivesse ciência da fundamental importância de um eventual diagnóstico prematuro. Dito isto, o meu amigo me colocou a par de vários casos em que a pessoa esteve no seu consultório apenas como acompanhantes e que depois de convencidos a fazer um check-up, descobriram sérios problemas, que se não fosse achados, representariam risco de morte eminente, foram salvos por conta de um diagnóstico prematuro. Depois dessa sutileza, claro que sai dali com diversos pedidos de exames capazes de detectar toda sorte de “ingrisias” ou “zica” que o sujeito possa ter.
Despedi-me do amigo encantado, havia deixado escapar da memória do quão gentil, competente, fino e convincente era o meu velho amigo. Para ganhar tempo fui direto ao laboratório, onde agendei a coleta de sangue para o dia seguinte me certifiquei das orientações e apoderei dos recipientes para acomodação do material sujeito às investigações patológicas. Pela manhã, ainda em casa realizei facilmente a coleta liquida, já a sólida, mais disciplinada e coerente com os seus horários biológicos habituais, deu um trabalhão danado para sair da toca, contudo mesmo diante da grande resistência inicial e má vontade em se revelar, finalmente apresentou-se, com particular acanhamento para o passeio fora do seu habitat natural.
O kit para coleta mereceu particular atenção, um involucro lacrado com um copo e um tubo cilíndrico com tampa amarela de pressão, para armazenar a urina e no outro pacote, um prato, um lenço de papel, uma colherzinha e um copo com tampa de pressão na cor marrom, ou seja, tampas personalizadas na cor do visitante, um mimo só. Também tinha orientações consoantes aos procedimentos e ao manuseio de cada assessório daquele.
Chegando ao laboratório que até o dia anterior não o conhecia, devidamente municiado com os ingredientes para exames, retirei a senha e me pus a aguardar, enquanto esperava passei a observar tudo no local, como sempre faço nos novos ambientes em que frequento. Confesso que fiquei impressionado com a grandeza e glamour do local, tudo muito limpo, uma decoração valorizando os vegetais, muito mármore, tudo do bom e do melhor e de muito bom gosto, nem parecia um estabelecimento para "vampirizar" o sangue da gente, havia até uma cascata dentro da sala com peixes coloridos. Também tinha certificações indicando que aquela era uma empresa ecologicamente projetada, que aproveitava os recursos naturais como luminosidade, energia, ventilação e até a água da chuva era capitada para aproveitamento sustentável, tinham uma usina de reciclagem e muitos prêmios e certificados de qualidade e vocação na preservação da natureza.
Sou bastante engajado nas questões preservacionistas, cheguei a trabalhar no fomento de medidas protetivas ao meio ambiente, acho tão crucial respeitar o nosso meio, até porque estamos nele integrados, imbricados, umbilicalmente ligados, somos massa física no meio sensível e sopro divino no intangível, portanto o ambiente preservado deve também garantir a limpeza espiritual, me filio particularmente a essa premissa. O gozado é que sazonalmente sempre haverá turbulências, imagine que, eu ali naquele lugar, pensando na energia divina vital, no quão sagrado é o sangue e todo composto vivo, no perfeito funcionamento cósmico e na bela relação interativa entre todos os elementos naturais, animal, vegetal, mineral e na energia divina dando movimento e grandeza a tudo isso, eis que de repente a tentação aparece e usando uma micro nano saia, toma assento bem à frente. Toda aquela estrutura harmônica entra em colapso, a inquietação dos funcionários e de homens e mulheres que ali aguardavam atendimento era patente.
Fui tirado daquela viagem por uma delicada moca de branco que, para variar pronunciava o meu nome de forma equivocada, levantei-me, a acompanhei, lhe ofertei o braço, ela o garroteou, mandou que fechasse as mãos e enfiou a agulha de grosso calibre, encheu uns quatro potinhos de sangue e me encaminhou à copa para o tradicional cafezinho. Lá chegando uma boa senhora de uns 55 anos perguntou-me se queria o café com adoçante ou açúcar, lhe disse, nem um nem outro só café puro mesmo, ela elogiou a minha escolha, me serviu o café acompanhado de um pratinho com pães de queijo, comi o primeiro, estava delicioso, confesso que peco muito pela gula quando o assunto é pão de queijo, vixi, gosto demais, no terceiro já estava mais a vontade para as minhas observações sempre presentes, foi ai que notei ser aquele pratinho do mesmo que recebi no dia anterior para colher o material para exame de fezes. Não teve como não associa-lo a tal usina, recolhendo, customizando e eventualmente reciclando aqueles pratinhos que poderiam perfeitamente em um dia recepcionar biscoito para análise e noutro acomodar pães de queijo... Será...?
Fico aqui pensando se me tiram o sangue, consigo sobreviver a isso bem, mas não queiram me tirar à dignidade se não o sangue eu bebo...


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