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domingo, 8 de abril de 2018

Diferentes e tão iguais


Era tarde de domingo e os médicos são acostumados a trabalhar em dia Santo.
Acho que pelo hábito o legista escolheu o domingo para exumação do rei, envenenado a cerca de cinco anos, pelo eunuco, um pobre negro castrado a canivete por vossa majestade em pessoa.
O negro serviu um quarto de litro de cicuta a sua alteza, o resto ele mesmo tomou no gargalo, morreram juntos, o negro foi enterrado uma semana antes, o rei só depois das reais honras fúnebres. 
A exumação também era de ambos, pois só a comparação da ossada dos dois, revelaria inequivocamente a coincidência da causa mortes. 
Os ossos do rei eram tão brancos como neve, exposto ao sol, até dava gastura às vistas, eram brancos não porque era rei, assim o eram, porque têm essa cor todos os ossos. 
Também os ossos do negro eunuco eram brancos como neve, expostos ao sol, igualmente dava gastura às vistas, eram brancos não porque era negro, eram assim, por que assim são os ossos. 
Os homens se faziam diferentes em face de ossos tão iguais, diante dos ossos do rei, os súditos abaixaram a cabeça em sinal de respeito à sua graça, aos do negro, tapavam o nariz e viravam de costas em repúdio.
O que ninguém sabia, e não era objeto de estudo do legista é que o coveiro, um inveterado alcoólatra, havia trocado as etiquetas das ossadas, de modo que o negro eunuco se tornou rei por um dia e recebeu todas as honras de realeza, dos súditos e da nobreza até de outros clãs, enquanto sua majestade, embora morto, “viveu” o desprezo no seu próprio reinado.
Apenas as formigas tratavam com isonomia aquelas ossadas, sem distinção ou preferência, vilipendiavam a ambas, devorando o tutano para estabelecer moradia no oco daquelas criaturas não menos ocas quando vivias.

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