Era tarde de domingo e os médicos são acostumados a
trabalhar em dia Santo.
Acho que pelo hábito o legista escolheu o domingo para
exumação do rei, envenenado a cerca de cinco anos, pelo eunuco, um pobre negro
castrado a canivete por vossa majestade em pessoa.
O negro serviu um quarto de litro de cicuta a sua
alteza, o resto ele mesmo tomou no gargalo, morreram juntos, o negro foi
enterrado uma semana antes, o rei só depois das reais honras fúnebres.
A exumação também era de ambos, pois só a comparação da
ossada dos dois, revelaria inequivocamente a coincidência da causa
mortes.
Os ossos do rei eram tão brancos como neve, exposto ao
sol, até dava gastura às vistas, eram brancos não porque era rei, assim o eram,
porque têm essa cor todos os ossos.
Também os ossos do negro eunuco eram brancos como neve,
expostos ao sol, igualmente dava gastura às vistas, eram brancos não porque era
negro, eram assim, por que assim são os ossos.
Os homens se faziam diferentes em face de ossos tão iguais,
diante dos ossos do rei, os súditos abaixaram a cabeça em sinal de respeito à
sua graça, aos do negro, tapavam o nariz e viravam de costas em repúdio.
O que ninguém sabia, e não era objeto de estudo do
legista é que o coveiro, um inveterado alcoólatra, havia trocado as etiquetas
das ossadas, de modo que o negro eunuco se tornou rei por um dia e recebeu todas
as honras de realeza, dos súditos e da nobreza até de outros clãs, enquanto sua
majestade, embora morto, “viveu” o desprezo no seu próprio reinado.
Apenas as formigas tratavam com isonomia aquelas
ossadas, sem distinção ou preferência, vilipendiavam a ambas, devorando o
tutano para estabelecer moradia no oco daquelas criaturas não menos ocas quando
vivias.

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