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terça-feira, 3 de abril de 2018

Utilidade pública

No dia vinte e quatro, próximo passado, jogava futebol com amigos, quando sofri um trauma no olho direito, o mesmo que passou por uma cirurgia no segundo semestre do ano passado. 
Sai do futebol direto para uma clínica especializada, lá fui atendido, examinado, orientado e posteriormente liberado pela oftalmologista. 
Na segunda retornei a clínica com fortes dores de parto normal naquele olho, como se estivesse parindo a própria córnea. Fui novamente atendido e examinado, na oportunidade a médica constatou severa infecção no olho, receitou alguns medicamentos e repouso, liberou-me com retorno marcado para a quinta-feira seguinte. 
No dia marcado, lá estava de volta, segundo a doutora  o quadro infeccioso estava 50% melhor, então recomendou a continuação dos medicamentos por mais quinze dias. Perguntada sobre o fim do repouso e a consequente possibilidade de retomar as atividades físicas, liberou-me para a partir de segunda-feira, voltar às atividades físicas, porém, de forma moderada e consciente e na mediada em que os dias fossem passando, poderia ir intensificando o esforço desde que não surgissem desconfortos importantes no órgão afetado. 
Toda vez que sou submetido a um repouso, todo o organismo parece entrar em greve pelo período da cessação das atividades, então os órgãos se comportam preguiçosamente, com destaque especial para o intestino, que assume a síndrome do carcereiro desidioso, em que mesmo tendo a chave e alvará de soltura, insiste em não liberar o preso. 
Foi então que nesta segunda, (02/04), com grande demanda reprimida, iniciei o aquecimento para, moderadamente, conforme orientação médica, retomar as atividades físicas.
A idéia era iniciar primeiro com alongamentos, depois, uma corridinha de 10 KM, para uma vez aquecido, puxar ferrinho, finalizar com abdominais e de novo, alongamentos. Assim, me alonguei um pouco, desci e comecei a corrida, o primeiro trajeto, 2,5 KM, corrida de rua de casa até o Parque do Sabiá, onde correria, 5 Km, finalizando com os 2,5 KM de volta a casa. 
Percorrido o primeiro braço, cheguei ao parque e em ligeira parada fiz dez barras, no que desci do aparelho e peguei a pista, o carcereiro passou as chaves pelas grades, fazendo aquele chato e característico barulho. 
Sem dar muita bola continuei a corrida, quando passei pela jaula do leão, o carcereiro fez a leitura do alvará de soltura, fingi normalidade e continuei no meu ritmo, contudo, por uma questão de prudência passei a olhar para o lado a procura de um buraco na cerca, mas já viu né, é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que um buraco em cerca de zoológico. 
Passei então a mirar as árvores de quaresmeiras do outro lado da pista, todavia, me valer delas como escudo traria um problemão e eu precisava fazer uma ligeira e pouco ortodoxa escolha. Se usasse de proteção uma daquelas espaçadas árvores ornamentais, que dista cerca de trinta metros uma das outras ficaria coberto e abrigado dos olhares daqueles que andavam ou corriam na pista, porém totalmente exposto para os que circulavam à marginal da BR 050, ali pra frente do Makro Atacadista. 
Àquelas alturas, eu suava, corria e apavorado, procurava um local mais discreto que pudesse omiziar e com isso minimizar o vexame que estava por vir, já que não havia mais barreira capaz de segurar o preso de fuga eminente. 
Vivendo aquele caos e absurdamente desesperado, ciente de que aquilo "daria merda" mirei uma árvore mais grossa a uns cinquenta metros à frente e decidi dali não passar, não seria humanamente possível fazê-lo e seguir em frente sem cumprir a decisão do habeas-corpus, a situação se mostrava totalmente fora de controle.
Quando me aproximava da árvore já sabendo que a trincheira me protegeria apenas de uma face dos dois públicos, estava decidido, me protegeria das vistas dos colegas de pista e com sorte a turma da marginal não me lincharia. 
Quando parecia não ter mais saída me contorcendo de cólica, vi a aproximadamente cem metros a frente dois sanitários químicos, então juntei os joelhos e com eles colados rastejei-me até o paraíso, cheguei e como um esquadrão de forças táticas especiais, emburaquei e deixei acontecer a felicidade que parecia plena, a prioridade número um, que era fazer o dois se realizava, vivi ali naquele momento uma verdadeira explosão de contentamento.
Quando pude conferir mais amiúde o arrebento, agora liberto é que constatei a grandeza do intestino, que ali se fazia  representado por uns 50 cm ou até mais. Ai é que vem a pirâmide de necessidades de Maslow, em que satisfeita uma necessidade, o interesse volta para a próxima e nesta hierarquia, quando ali cheguei nem me passou pela cabeça a conferência da inexistência de papel higiênico no ambiente, aquilo era absolutamente acidental, mas agora aquela passou a ser a necessidade mais premente, a número um. 
Conferi cada detalhe daquela guarita onde o guerreiro procurava a munição mais adequada para a limpeza, um pedacinho de papel que fosse, mais nada, nem novo e nem com pouco uso, então fiquei ali desolado bolando um plano. Abri uma gretinha na porta para ver se por perto, havia um pedaço de jornal, um sabuco velho, folha, capim ou algo do estilo, e nada. 
Foi então que sacrifiquei a companheira mais grudada em mim, retirei a bermuda e cueca juntas, usei a cueca para a assepsia local e pesaroso pelo fato dela ser muito jovem a descartei no cesto. De novo vesti a bermuda e mais aliviado completei o percurso, digo mais aliviado porque a ferramenta antes contida, justamente pela justeza da cueca, agora mais livre para também exercitar, alternava chicotadas, ora numa perna ora noutra. 

PS: Tem outra ocorrência, noutro contexto, mas na mesma linhagem na Leroy Merlin, em que... deixa pra lá, depois conto esta também. 

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