Poesia é como se você tivesse uma peneira fina para classificar as palavras, de tal sorte a não permitir a passagem de futilidades, grosserias e afins do gênero. Todavia, ao “poetizar,” por mais cauteloso e diligente que você seja com as palavras, ao final percebe que no tecido central da peneira há sempre um imenso rasgo, por onde escapa muitos termos “desclassificados”, sem a postura e elegância que convêm à letra e ao arranjo poético.
Mesmo assim, no derradeiro exercício de autoridade corregedora, você olha para a composição e o conjunto literário parece advogar na defesa dos termos menos nobres, e aquela interseção na defesa das pálidas expressões, de carente robustez e miúdo alcance poético nos comove e as deixamos continuar a viagem ali mesmo, fazendo parte do contexto, no papel de figurantes cuja presença, se justifica aos críticos de que sobrevêm sob o manto e tutela protetiva da liberdade poética. Isto é: “se já tá dentro deixa.”
Todo poeta é um garimpeiro do cotidiano que extrai do dia a dia a pedra bruta, mas o achado da matéria prima não constitui ainda uma poesia. A alquimia poética só acontece quando o poeta revira a caixa dos seus arquivos de variados sentimentos e vai lapidando, temperando, forjando, dando formato e formosura ao texto. É nesse exercício artesão de cutelaria que surge a ferramenta imbricada de sentimentos, afiada na pedra filosofal, cuja têmpera final retrata a própria esfinge d’alma do autor.
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