Era ainda muito moço e me graduei
na corporação. Atirava muito bem e nem foi aperfeiçoamento proveniente de
instruções, acho que nasci assim, bom atirador. Devo ter herdado do meu pai,
que era perfeito na pontaria.
Por essa habilidade natural, me
tornei instrutor de tiro e desenrolava o ofício bem, de forma satisfatória e
prudentemente, como se deve ser mesmo no manejo de ferramentas tão
letais.
Assim ganhei o respeito de todos, gostava
de ensinar e o fazia com prazer, discrição e humildade. A metodologia utilizada
era a genuína força do exemplo, jamais cobrei de um aluno a realização de uma
tarefa sem antes havê-la feito pessoalmente em demonstração.
Em razão do bom desempenho fui
convocado para fazer um curso de atirador de elite na capital.
O curso foi ótimo, quatro meses
estudando e praticando só nesse tema me extasiaram, ali vi o quão limitado era
o meu conhecimento, numa matéria em que era um respeitado instrutor.
Não só desmontei, montei e atirei
exaustivamente com todos os modelos de armas, bem como as vi, em funcionamento
nas entranhas viscerais, nos seus mínimos detalhes, pois para cada modelo havia
uma com a carcaça em material transparente, justamente para que pudéssemos
visualmente constatar a necessidade, função e eficácia de cada peça que compunham
a respectiva arma.
Treinávamos pesado, passando por
uma pista que simulava a realidade operacional, com diversos pontos de
intervenção, tais como: atirar a cerca de cinquenta metros em um balão
específico e pré-determinado, em meio a dezenas de outros balões com um tubo de
ar os colocando em movimentos aleatórios e imprevisíveis para todos os lados,
direções e profundidades, ora o seu balão alvo aparecia à frente, ora atrás,
perpendicular e parcialmente aos lados, o disparo tinha que ser preciso e no
exato momento em que o projétil não atingisse outros balões, às vezes era
preciso esperar até quarenta minutos ali, imóveis e posicionados com o balão na
massa de mira para que quando este mostrasse sem que outros estivessem no
percurso do projétil, o disparo fosse efetuado.
A partir desse curso, a instrução
entrou noutro patamar de eficiência, passamos a dar treinamento de tiro também
à noite com pouca visibilidade, com os alunos extenuados por exercícios físicos
precedentes, sem dormirem, debaixo de chuva, com o alvo segurando refém como
escudo, todos em movimento, dentre outros graus de dificuldades, nunca antes
experimentados nas instruções.
Formei-me com louvor, recebi
certificado e o emblema que agregou aos apetrechos da farda e muito orgulhoso
voltei para as atividades, dentre elas, a de instrutor de tiro.
O instrutor usava o mesmo corpo,
mas a pessoa era outra, a discrição, sobriedade e humildade tinha cedido espaço
para a soberba, então em míope autocrítica, "expunha-me a mim mesmo"
pela falta de subsídios nas instruções dantes.
E assim, todos os anos eu percorria
diversas cidades do Estado, levando a minha proficiência e "show", no
que era muito bem recepcionado, referendado e aplaudido por todos, dado a
excelência e notoriedade alcançadas pelo jovem instrutor.
Então, certa vez, numa quinta feira
pela manhã, na cidade de Ituiutaba, no pontal do Triângulo Mineiro, durante
aula teórica que precedia a prática, um dos profissionais ali presentes
questionou-me a respeito de um disparo de um revólver que havia caído ao solo
dias atrás.
Do alto do saldo de quem tem
domínio da passarela, vomitando infantil arrogância, lhe disse que isso não
seria possível, pois o retentor do cão
só o liberaria para percutir a espoleta da munição e com isso permitir o
disparo, no exato momento do acionamento da tecla do gatilho pela ação do dedo
do atirador.
O profissional reafirmou e ainda
disse que o fato havia ocorrido com ele e que estava com a arma do citado
evento ali, então me apoderei do
revólver, o municiei e solenemente dei uma pancada com o cão no piso para
mostrar a impossibilidade técnica daquela ocorrência narrada.
Para minha surpresa o disparo
ocorreu, e foi com o rabo entremeio as pernas que sem entender o porquê daquilo
é que desmontei aquela arma e constatei que o tal retentor do cão estava
quebrado.
Esse chá de realidade me devolveu a
sobriedade e discrição importantes no exercício profissional. Pedi desculpas e
nunca mais exerci a docência nessa área do conhecimento. Hoje não acredito em
tudo que me dizem por aí, mas me dou ao direito de também não desacreditar em
nada..

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