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sábado, 14 de abril de 2018

Reminiscências Profissionais

Era ainda muito moço e me graduei na corporação. Atirava muito bem e nem foi aperfeiçoamento proveniente de instruções, acho que nasci assim, bom atirador. Devo ter herdado do meu pai, que era perfeito na pontaria. 
Por essa habilidade natural, me tornei instrutor de tiro e desenrolava o ofício bem, de forma satisfatória e prudentemente, como se deve ser mesmo no manejo de ferramentas tão letais. 
Assim ganhei o respeito de todos, gostava de ensinar e o fazia com prazer, discrição e humildade. A metodologia utilizada era a genuína força do exemplo, jamais cobrei de um aluno a realização de uma tarefa sem antes havê-la feito pessoalmente em demonstração. 
Em razão do bom desempenho fui convocado para fazer um curso de atirador de elite na capital. 
O curso foi ótimo, quatro meses estudando e praticando só nesse tema me extasiaram, ali vi o quão limitado era o meu conhecimento, numa matéria em que era um respeitado instrutor. 
Não só desmontei, montei e atirei exaustivamente com todos os modelos de armas, bem como as vi, em funcionamento nas entranhas viscerais, nos seus mínimos detalhes, pois para cada modelo havia uma com a carcaça em material transparente, justamente para que pudéssemos visualmente constatar a necessidade, função e eficácia de cada peça que compunham a respectiva arma.
Treinávamos pesado, passando por uma pista que simulava a realidade operacional, com diversos pontos de intervenção, tais como: atirar a cerca de cinquenta metros em um balão específico e pré-determinado, em meio a dezenas de outros balões com um tubo de ar os colocando em movimentos aleatórios e imprevisíveis para todos os lados, direções e profundidades, ora o seu balão alvo aparecia à frente, ora atrás, perpendicular e parcialmente aos lados, o disparo tinha que ser preciso e no exato momento em que o projétil não atingisse outros balões, às vezes era preciso esperar até quarenta minutos ali, imóveis e posicionados com o balão na massa de mira para que quando este mostrasse sem que outros estivessem no percurso do projétil, o disparo fosse efetuado. 
A partir desse curso, a instrução entrou noutro patamar de eficiência, passamos a dar treinamento de tiro também à noite com pouca visibilidade, com os alunos extenuados por exercícios físicos precedentes, sem dormirem, debaixo de chuva, com o alvo segurando refém como escudo, todos em movimento, dentre outros graus de dificuldades, nunca antes experimentados nas instruções.
Formei-me com louvor, recebi certificado e o emblema que agregou aos apetrechos da farda e muito orgulhoso voltei para as atividades, dentre elas, a de instrutor de tiro. 
O instrutor usava o mesmo corpo, mas a pessoa era outra, a discrição, sobriedade e humildade tinha cedido espaço para a soberba, então em míope autocrítica, "expunha-me a mim mesmo" pela falta de subsídios nas instruções dantes. 
E assim, todos os anos eu percorria diversas cidades do Estado, levando a minha proficiência e "show", no que era muito bem recepcionado, referendado e aplaudido por todos, dado a excelência e notoriedade alcançadas pelo jovem instrutor. 
Então, certa vez, numa quinta feira pela manhã, na cidade de Ituiutaba, no pontal do Triângulo Mineiro, durante aula teórica que precedia a prática, um dos profissionais ali presentes questionou-me a respeito de um disparo de um revólver que havia caído ao solo dias atrás. 
Do alto do saldo de quem tem domínio da passarela, vomitando infantil arrogância, lhe disse que isso não seria possível,  pois o retentor do cão só o liberaria para percutir a espoleta da munição e com isso permitir o disparo, no exato momento do acionamento da tecla do gatilho pela ação do dedo do atirador. 
O profissional reafirmou e ainda disse que o fato havia ocorrido com ele e que estava com a arma do citado evento  ali, então me apoderei do revólver, o municiei e solenemente dei uma pancada com o cão no piso para mostrar a impossibilidade técnica daquela ocorrência narrada. 
Para minha surpresa o disparo ocorreu, e foi com o rabo entremeio as pernas que sem entender o porquê daquilo é que desmontei aquela arma e constatei que o tal retentor do cão estava quebrado. 
Esse chá de realidade me devolveu a sobriedade e discrição importantes no exercício profissional. Pedi desculpas e nunca mais exerci a docência nessa área do conhecimento. Hoje não acredito em tudo que me dizem por aí, mas me dou ao direito de também não desacreditar em nada..

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