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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

De volta ao começo

Hoje retornei ao local donde nasci.
Não só lá estive, mas fiz uma auto regressão.
Subi na mesma mangueira e colhi manga espada pra pai.
Lá de cima me vi e aos meus irmãos tal qual éramos.
Meu pai que lá estava, na visão do passado era diferente.
De minha mãe, eu só via o tronco e os movimentos dos braços mexendo angu, a janela da cozinha cortava-lhe a cabeça e as pernas.
A minha avó e a tia Santa, já se foram, que Deus as tenha, estavam lá na casa delas que ficava entre a mangueira e a nossa.
Vó dava ovo cozido com cebolinha no bico dos filhotes de peru.
Tia Santa limpava café in natura, com uma peneira os arremessava para cima e os assoprava no ar para sair as cascas, vez em quanto dava uma tragada e descansava o cachimbo na soleira da janela.
Padrinho Amantino pegava uma “cheirada de pó” ao estilo dele com o Natércio seu filho, à beira do fogão de lenha.
Tia Geralda que conosco morava, estendia roupas na cerca de arame farpado e ao mesmo tempo trocava olhares de cobiça com Nô, com quem se casou tempos depois.
A Tia também nos acudia na hora do coro. Quando a surra era eminente, ela nos empurrava comida goela abaixo pois sabia que não se batia em menino com barriga cheia, reza se a lenda que dava congestão.
O Nô era muito engraçado, trabalhava no garimpo com pai e flertava com tia Geralda, que, perto da bica estendia roupas enquanto Nô tomava café na cozinha, então ele soltou uma bufa flatulenta tão estrondosa que tia de susto se feriu no arame.
Quelé, um crioulo criado de tia, varria as brasas do forno de quitandas com uma vassoura improvisada de galhos de candeia.
Crioulo, que nem era negro, mais era um nosso irmão de criação, estava com um cabresto na mão, talvez fosse campear, talvez não.
A mula Roxa seguia arriada e amarrada no terceiro poste, entre a porteira e a casa principal.
No curral tinha umas onze cabeças de gado, só reconheci a Mimosa, uma vaca holandesa e o boi Gir.

Galinhas ciscavam por todo lado e uma estava perigosamente perto do mundéu de matar passarinho do meu irmão.
Senti falta dos cachorros, acho que estavam com o Sancler, pescando na barra das Lajes, porque também dei falta dele.
De repente um trovão me fez voltar da viagem ao passado, desci, recolhi as mangas e voltei à sede.
Sai para dar uma volta com a Celina, minha esposa, que, assim como Conceição, companheira de pai, estavam na expedição.
Ao chegar na trilhazinha que vai para o córrego dos patos a Celina achou o sapatinho com o qual fiz a primeira comunhão.
Lembrei-me dele, do meu pouco tamanho, da muita inocência, vi os reparos que nele fiz, contudo, depois dos remendos ele passou a machucar o calcanhar meu e de Aquiles.
No presépio de natal eu colocava aquele pequeno sapato, porém grande para o minguado presente que Papai Noel me destinava, invariavelmente uma lasca de queijo.
Todos os anos eu lutava para ficar acordado até a chegada de Noel, justamente para reivindicar um presente mais juvenil, porém nunca conseguia, quando acordava lá estava o pedaço de queijo dentro do sapatinho sujo.
Creio que ainda o usava quando sai dali em definitivo, sai menino, mas menino com direito a criancices daquele jeito nunca mais consegui ser, só hoje.

Reencontrei os coqueiros de vida longa, os mesmos em que nas noites de lua cheia, em suas sombras buscava abrigo ao brincar de pique esconde.
Da casinha de bezerros e o curral em que aprendi a tirar leite só restou o velho e estercado limoeiro, nem o coxo de peroba sobreviveu ao tempo.
No alto daquela mangueira estão muitos segredos de criança, as vezes era preciso ficar lá por horas a fio até pai esquecer alguma peraltice nossa.

No dia em que coloquei fogo no pasto e queimou a cerca também, fiquei lá no alto uma eternidade, cheguei a dormir numa forquilha, nada disto adiantou, o coro com precata de sola de pneu comeu solto no lombo com força, foi merecido reconheço.
Fui ao lajeado, lembrei-me ainda da cachoeira das andorinhas, de saudosa memória, queria ter ido lá, contudo pai impaciente e ansioso já queria voltar e chegar lá desta vez não foi possível.



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