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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Beldades também deslisam

Escritores têm altos e baixos, são bons quando equilibram mais tempo em cima do trapézio. 
Os que ficam na primeira metade, geralmente não despertam atenção, assim poucos são lidos.
Via de regra, toda obra literária tem pequenos e curtos passos de genialidade e um largo percurso de leitura comum.
A maior parte da caminhada é para o leitor fidelizar com o estilo, aprimorar na leitura e manter a expectativa de alguns pontos geniais ao longo da grande costura.
Por outro lado, há no tecido da escrita, remendos que só servem para tapar buracos e preencher o tempo dos leitores, mais pouco lhes acrescem.
Tenho lido uma consagrada poetiza, gosto da forma como ela escreve, acho-a inspiradora, todavia noto que há mais operação tapa buraco do que asfalto liso em sua obra.
Ela já subiu o degrau da fama, e com muito louvor passou pelo estreito funil do brilho literário, é reconhecida pelo talento e grandeza poética.
Essa grande e notável escritora, cuja obra faz moradia na galeria dos mais lidos e que ao meu sentir também deixa escapar buracos na pista, me encoraja a também buscar um lugar ao pódio.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

De volta ao começo

Hoje retornei ao local donde nasci.
Não só lá estive, mas fiz uma auto regressão.
Subi na mesma mangueira e colhi manga espada pra pai.
Lá de cima me vi e aos meus irmãos tal qual éramos.
Meu pai que lá estava, na visão do passado era diferente.
De minha mãe, eu só via o tronco e os movimentos dos braços mexendo angu, a janela da cozinha cortava-lhe a cabeça e as pernas.
A minha avó e a tia Santa, já se foram, que Deus as tenha, estavam lá na casa delas que ficava entre a mangueira e a nossa.
Vó dava ovo cozido com cebolinha no bico dos filhotes de peru.
Tia Santa limpava café in natura, com uma peneira os arremessava para cima e os assoprava no ar para sair as cascas, vez em quanto dava uma tragada e descansava o cachimbo na soleira da janela.
Padrinho Amantino pegava uma “cheirada de pó” ao estilo dele com o Natércio seu filho, à beira do fogão de lenha.
Tia Geralda que conosco morava, estendia roupas na cerca de arame farpado e ao mesmo tempo trocava olhares de cobiça com Nô, com quem se casou tempos depois.
A Tia também nos acudia na hora do coro. Quando a surra era eminente, ela nos empurrava comida goela abaixo pois sabia que não se batia em menino com barriga cheia, reza se a lenda que dava congestão.
O Nô era muito engraçado, trabalhava no garimpo com pai e flertava com tia Geralda, que, perto da bica estendia roupas enquanto Nô tomava café na cozinha, então ele soltou uma bufa flatulenta tão estrondosa que tia de susto se feriu no arame.
Quelé, um crioulo criado de tia, varria as brasas do forno de quitandas com uma vassoura improvisada de galhos de candeia.
Crioulo, que nem era negro, mais era um nosso irmão de criação, estava com um cabresto na mão, talvez fosse campear, talvez não.
A mula Roxa seguia arriada e amarrada no terceiro poste, entre a porteira e a casa principal.
No curral tinha umas onze cabeças de gado, só reconheci a Mimosa, uma vaca holandesa e o boi Gir.

Galinhas ciscavam por todo lado e uma estava perigosamente perto do mundéu de matar passarinho do meu irmão.
Senti falta dos cachorros, acho que estavam com o Sancler, pescando na barra das Lajes, porque também dei falta dele.
De repente um trovão me fez voltar da viagem ao passado, desci, recolhi as mangas e voltei à sede.
Sai para dar uma volta com a Celina, minha esposa, que, assim como Conceição, companheira de pai, estavam na expedição.
Ao chegar na trilhazinha que vai para o córrego dos patos a Celina achou o sapatinho com o qual fiz a primeira comunhão.
Lembrei-me dele, do meu pouco tamanho, da muita inocência, vi os reparos que nele fiz, contudo, depois dos remendos ele passou a machucar o calcanhar meu e de Aquiles.
No presépio de natal eu colocava aquele pequeno sapato, porém grande para o minguado presente que Papai Noel me destinava, invariavelmente uma lasca de queijo.
Todos os anos eu lutava para ficar acordado até a chegada de Noel, justamente para reivindicar um presente mais juvenil, porém nunca conseguia, quando acordava lá estava o pedaço de queijo dentro do sapatinho sujo.
Creio que ainda o usava quando sai dali em definitivo, sai menino, mas menino com direito a criancices daquele jeito nunca mais consegui ser, só hoje.

Reencontrei os coqueiros de vida longa, os mesmos em que nas noites de lua cheia, em suas sombras buscava abrigo ao brincar de pique esconde.
Da casinha de bezerros e o curral em que aprendi a tirar leite só restou o velho e estercado limoeiro, nem o coxo de peroba sobreviveu ao tempo.
No alto daquela mangueira estão muitos segredos de criança, as vezes era preciso ficar lá por horas a fio até pai esquecer alguma peraltice nossa.

No dia em que coloquei fogo no pasto e queimou a cerca também, fiquei lá no alto uma eternidade, cheguei a dormir numa forquilha, nada disto adiantou, o coro com precata de sola de pneu comeu solto no lombo com força, foi merecido reconheço.
Fui ao lajeado, lembrei-me ainda da cachoeira das andorinhas, de saudosa memória, queria ter ido lá, contudo pai impaciente e ansioso já queria voltar e chegar lá desta vez não foi possível.



domingo, 18 de fevereiro de 2018

Tudo Muda?

As coisas não mudam significativamente todo dia a qualquer hora.
Não porque avançamos ou recuamos o relógio coletivamente.
As coisas mudam quando você muda, ainda assim, nem tudo muda.
Já numa perspectiva mais relativizada, tudo muda o tempo todo no mundo.
É na cadência e ritmo dos movimentos da terra que todos nós mudamos.
A translação e rotação só não mudam o coração, este tem o seu próprio porto de embarque e desembarque.
Nem sempre você mora onde fisicamente está, o espirito é que lhe impõe o endereço universal.
Embalados pelo giro da bola azul celeste, vamos de um ponto a outro sem sairmos do lugar. 
No mesmo e preciso canto de conforto e comodidade se vive mornamente as desilusões.
Em certa medida somos todos nômades viajantes, vagando por ai.
Nessa travessia, o horário de verão é incapaz do nosso curso desviar.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Vida de Gado

Colocando a mesa do café da manhã pela vidraça eu vejo.
A movimentação do gado sendo desleitado ao fundo.
A bezerrada berrando e protestando o leite que lhes é retirado.
Aqui no café ele chega depois de haver passado pelos atravessadores.
Processado virou queijo mineiro e muitos outros derivados.
Os indianos é que têm razão, o bovino é mesmo obra do divino.
Abençoado também é o lugar em que o gado pasta sem medo da faca.
Só que uma vitrine de picanha que vai parar na brasa, atenta.
Homo Sapiens, ser mais estranho, suas crenças, valores, ignorância e sabedoria.
Aqui o boi é sangrado na frente dos seus pares, lá sobe ao altar sagrado.




sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Vento que leva é vento que traz

No que o vento sopra, sussurra poesia nos ouvidos da gente.
É vento extravagante que vem das montanhas do lajeado.
Assim partindo da nascente para a jusante apenas avalia a situação, mais chuva não trará.
Vertendo no rio abaixo, todas as janelas e cortinas são abertas, para revelar o belo horizonte que há donde o céu e a terra se encontram.
De noite, mesmo a olho nú, um desnudo céu estrelado em terceira dimensão nos oferta um tabuleiro de diamantes.
A lua passa baixinha e apetitosa como queijo do sêrro ao sabor dos mineiros.
Noutro norte, chegando das lajes donde nasci vem mais sisudo, ruidoso e de duvidoso humor.
Navegando contra as nervosas correntes do Jequitinhonha, transpira horrores e o suor em chuva se transforma.
Nestas ocasiões, sobe o rio com pincel e tintas nos tons cinza, com as quais pinta dinâmico e surreal quadro no céu.
O vento sopra em variados sentidos e nas diversas estações, por onde passa levanta poeira e recita poesia.
Cada estação tem os seus encantamentos e predileções poéticas. 
Aqui do alto, mais perto de Deus ele vem mais decantado como vinho tinto de boa safra.
Na aviação, pilotos observam o rumo das birutas para poder pousar contra o vento.
Aqui o biruta observa as folhas dos coqueiros do rosário para decolar a favor dele.
Lá e cá, o mais importante é o plano de voo para uma travessia sem turbulência.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Vento que leva é o mesmo que traz

Hoje é dia de folga nos poemas, o que é uma pena.
A dinâmica da vida continua inalterada e em mutável movimento. 
O tempo não para e no seu ritmo a vida continua produzindo poesia. 
Um dia de folga, não quer dizer um dia sem poesia. 
Todo dia é poético, nós, as antenas é que nem sempre estamos aferidos para captação. 
Essa noite o vento soprou garoa no receptor que entrou em colapso.
Amanhã  o vento voltará, resta saber se trará ou daqui poesia levará.
Congelei o coração para entrar em processo de reparação e atualização sensorial.
Uma biópsia indicará se nele há elementos estranhos incapacitantes ã produção poética.
Às vezes o melhor a fazer é o implante, um coração artificial, frio e racional ou de primata, livre e sem as amarras da razão?


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O silêncio grita

A minha poesia de hoje é o relativo silêncio.
Calado costumo ser mais profundo e incisivo.
Sem gritos e sem palavras de ordem protesto melhor.
Quase invisível, consigo aproximar mais das pessoas.
Sem ruídos, chego mais perto e as surpreendo desarmadas.
Não é um silêncio de guerra e muito menos de indiferença.
Hoje a maquiagem é de invisibilidade social, minha e de tantos outros.
Para tocar o ponto, promover salutar incômodo e chamar mais atenção:
Uma bandeira do brasil e outra branca, sobrepostas na direita mão.
No rosto, o desconforto de um enorme e saliente nariz de palhaço.
Enquanto o título de eleitor, mal utilizado, segue preso noutra mão.
É esperança em fuga, que, assim como esperma de cão no cio, infértil escorre pelo chão de uma pátria de "patriotas" estéreos. 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pintura do Criador

Esse Milho Verde tem mesmo um "quê"   de sedução.
Esticando o olhar para qualquer lado há um belo horizonte.
A serra do espinhaço viaja centenas de quilômetros mineiros e baianos.
Aqui ela não resistiu aos encantos da vila e inovou.
Deu meia volta e se tornou metade da moldura desse quadro do criador.
Por trás da serra tem o poético pico do Itambé. 

Este deu uma esticada no pescoço e por cima das bordas recheadas do espinhaço, nos assiste com olhar petrificado.
As águas do lajeado serpenteiam por sobre a serra.
Suas cascatas entoam canção de amor. 

Na percussão, o vento tira notas da vegetação rasteira.
Feliz da vida o povo banha nas cachoeiras.
Calangos balançam a cabeça em sinal de aprovação.
Eu sirvo café com poesia para essa gente boa que nem tão bem conheço.
As harpias vigiam o espaço aéreo e faz o controle de roedores.
Nesse quadro dinâmico gente entra, é gente que sai pessoa melhor.
Aliviam angústias e tensões, os corações melhor irrigam as sementes do bem.
Aqui se pulsa e se vive sob a égide da essência natural, cada um escolhe:
Homem lobo do homem, ou imagem e semelhança de Deus!!!



segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Faces do trabalho

Para quem trabalho?
Para mim mesmo, obviamente.
Também laboro para o povo do meu ambiente.
Ocupação na medida dá sentido a vida da gente. 
Com excesso, deixa-nos demente. 
Felicidade plena alimenta o corpo e eleva a mente.
Trabalho é passagem obrigatória para lá chegarmos.
Hoje faço um recorte nos destinatários deste servil. 
Trabalho para o jatobazeiro frondoso do vizinho. 
Majestoso, ele se poda e se esfolia todos os dias.
Dispersa folhas e pontas de galhos secos sobre a pousada.
Assim é que me tornei o seu faxineiro oficial.
Todo trabalho tem a sua recompensa.
A contrapartida deste advém da ostentação.
Ele compõe um belo e maravilhoso quadro, uma obra divina.
Eu acolho pessoas ele as encanta.
De dia recebe uma enormidade de pássaros, de canários ao condor.
À noite se torna um pisca-pisca e se ilumina com os vaga-lumes.
Há sempre uma nova exposição em curso, todas de singular beleza.
Assim é que sou recompensado com luxo por cara limpeza.
Esse jatobazeiro me faz homem rico pela forma que remunera.
Ele me aponta o caminho donde encontra-se a felicidade. 

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Domingo de Carnaval.

Sei que é carnaval por quê? 
As mídias são uníssonas.
Não há outro tema em pauta.
O país vive a sua letargia. 
Muda-se o rei e outra majestade reassume. 
Ao final, o nosso colapso social de cada dia.
Aos súditos, circo e minguado pão. 
As crônicas mazelas só são estatísticas.
Com ou sem carnaval, vou vivendo. 
Da janela da pousada vejo as montanhas. 
Os altos relevos de Minas me movem. 
As montanhas são as referências que tenho. 
Se as subo sei que ainda há vida e isso me comove. 
Um belo dia cinzas minhas chegarão ao topo. 
Serei grato a quem suba e as esparrame ao vento. 
Rocha na rocha, do pó ao pó...

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Sammelier

Aprecio vinhos, mas não sou ortodoxo com as convenções enólogas.
Ao comprar, observo a uva, a região onde é cultivada e vinícola da produção. 
Estando no campo, o meu objeto de desejo é o vinho e um pedaço de queijo e pronto.
Taças e demais adereços não comparecem ao rito, carrego uma caneca de folha de zinco para tais ocasiões. 
Nesses ambientes mais rústicos, na assepsia da caneca, uso a mesma técnica do padre, limpo com um pedaço de pano, uma folha de candeia ou até mesmo na barra da camisa.
Sóbrio como um pároco e diplomático como um vampiro dou preferência aos tintos, eles são mais emblemáticos, melhor combinam com o meu sangue não azul de vassalo.
Quanto a harmonização e equilibro, o vinho combina com tudo, até com ele mesmo, menos com o bafômetro é claro e é tinto...

A felicidade pode estar onde menos se espera

Há mais de vinte anos que não tenho paciência com as literaturas de auto-ajuda, todas dizem que a felicidade está dento da gente e que o nosso maior erro é buscá-la do lado de fora.
Então fiz um mergulho interior, procurei, procurei, espalhei iscas para ver se ela aparecia, abri e fechei as válvulas do coração olhei pela escotilha do esôfago e nada. 
Vasculhei cada canto do meu ser, gritei por seu nome, tudo em vão, então, exausto assentei recostado à parede do intestino e me "ferrei no sono," ali adormecido tive um sonho maravilhoso em que a felicidade e eu, no escurinho de um ambiente romântico e aquecido, enamorados flutuávamos numa substância cremosa por um longo e sinuoso túnel, nos divertíamos muito em nosso passeio naquela estranha e invertida montanha russa. 
Acordei na "merda", sendo expulso da casa da felicidade, para o mundo externo, aonde, segundo os livros ela não pode ser encontrada...