UM DEDO DE PROSA é a reconstituição de uma minha passagem pela comunidade do Ausente quando lá estive com um amigo, um dos espíritos mais iluminados que conheci, Sr. Geraldo.
Sr. Geraldo trabalhou na construção da Pousada desde a fundação, nos tornamos amigos. Ele fez o que sempre fazia, de repente sumiu, foi atender a um chamado, ele era assim, extremamente prestativo, não costumava deixar ninguém esperando, nem nós reles comuns, imagina então um chamado de Deus, ele partiu prematura e imediatamente, nem de mim se despediu, mas quando eu for convocado também sairei "à francesa."
‘Vamo’ chegar ‘prum’ dedo de prosa e um cafezinho 'margoso', disse aquele alto senhor, fisicamente fino, fino como também o era na conduta comportamental. Pessoa simples e humilde, de largo sorriso, largo e revelador, pois quando abria a boca exibia a grande falha por falta dos dentes da frente, a sua dentição começava com as duas grandes presas, brancas como pingos de leite, cada uma de um lado. Se em um busto colorido na praça principal, àquele sorriso fácil lembraria as traves verticais do gol de futebol de botão.
_ Outra hora amigo, hoje estou apertado de costura, tenho que fazer as correrias do dia a dia e não me tem sobrado tempo para nada.
Não seja por isso, emendou aquele bondoso senhor, posso ajudar se assim for do vosso agrado.
_ Agradeço ao amigo, mas certamente o senhor também tem as suas correrias, coisas da vida moderna em que o dia nos parece cada vez menor para o tanto de obrigação que pela frente temos. Nesta apertada vida da gente, são muitas coisas a desembaraçar, mesmo sendo defeso, matamos um leão por dia.
Tem razão o amigo, é deveras, o dia tá mesmo minguado, mas hoje ‘tô’ de boa, quase à toa, só besteirinhas corriqueiras de casa mesmo pra despachar, nada de sangria desatada que não possa dilatar e esperar um pouco. "É como diz o outro", só tratar dos animais, chegar terra no feijão, passar a 'foche' nuns pés de mamonas, pô o umbigo de banana pra 'frevê', pegar água na fonte, buscar um feixe de lenha que esse aqui tá acabando, trazer um prato de fubá do moinho, coisa rápida um pé lá outro cá, esparramar o café pra secar no terreiro, bater e soprar umas vagens, cortar as ramas de mandioca e enterrar a 'manaíba', dar um pulinho no comercio pra levar abóboras e mandiocas, fazer compras e trazer os mantimentos da semana, remendar os pedaços de cerca de arame farpado e campear uma besta arisca, que não põe os pés no terreiro de casa já vai pra mais de mês.
Matutando aqui com os meus botões a respeito dessa passagem, a lição tirada é que essa gente tida como boba do interior é muito sábia, pratica a solidariedade, fidalguia e generosidade por princípio, é produtiva sem afobação por costume, acredita e confia com fervorosa fé, como mantra, solidariza e se move em beneficio de outrem por convicção, fideliza com seus princípios sem recriminar quem pensa diferente. Esse povo do mato carrega consigo a magia da presença divina, dinâmica e ativa na essência do seu ser, ou seja, está habilitado ao titulo de se conduzir como imagem e semelhança do Criador...
Que Deus o tenha Seu Geraldo
Adélito/Dez/2017

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