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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A VIRADA


 Fim de ano e é aquele frenesi, muitas e extravagantes festas rolando para todo lado.
Comemorações pipocam como milho de micro-ondas, em meio a caras pintadas sorridentes que buscam simetria selfiniana.
Viva a festa e a alegria generalizada,  a convenção assim se impõe, “cara da riqueza” num farto pasto cheio de bestialidades.
Na casa feliz, a tristeza mora de favor, espreita sutilezas por detrás das cortinas e a noite desce ao porão donde chicoteia esculturas de Michelangelo.
Este ano, o meu sorriso de molares não restaurados, deixou de receber o convite para a festa da virada.
Procurei e não vi nem o sorriso forçado e menos ainda o autorretrato refletido no grande espelho do salão principal.
Havia bebidas e alimentos para todos, menos ‘veganices’, a hóstia consagrada e o vinho canônico para saciar minha inanição.
Por outro lado, em minha chuteira tem um prego fora da ordem, ele ataca o calcanhar, não meu, de Aquiles, e o manco é incapaz das alegrias, não faz gol.
Na recepção havia uma fonte luminosa, talheres de prata, xícaras de porcelana foleadas, no chão, uma casca de banana, não a vi, me disseram, gosto de emoção, por isso, da banana nunca evito a casca.
Moscas desrespeitam aquela gente sorridente e fogem das bocas abertas assim como no filme “a espera de um milagre”. Por um milagre, eu cá é que não vou esperar...
Ano carente de chuva, termoelétricas ligadas, bandeira do Inter na segundona e apagão. Em vão, para não ser pisoteado, tento me levantar no meio da multidão, de pé, ratos e baratas correm sem sucesso para também evitar pés inimigos.
O primeiro e o segundo rojão sobem, sobem e sobem, somem fora da órbita, não explodem e se recusam de “dar luz,” parecem também não estar para festas.
Ainda sem me recompor, a contagem regressiva se inicia 10...9...8...7...6...5...4...3...2...1...0...
O árbitro levanta o braço do vencedor e o vencido perde a gloria, a luta, o troféu, mas sobretudo, deixa o sonho da conquista...
Em meio as roupas brancas manchadas de vinho tinto, o estouro rouco do champanhe. É festança em homenagem à morte do velho.
VIVA O NOVO...
VIVA O NOVO...

Viva o ano que se inicia.

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