O local em que o abraço acontece é a tela virgem que se oferece à obra, que,
por sua vez, lhe retribui a fidalguia com a magnitude da unicidade de um quadro
cobiçado.
No passado, eu gostava muito dos abraços na estação ferroviária,
cheirava a churrasco e fuligem do carvão de maria...
Um abraço em meio a ferrovia, de fundo a legendária “engenhoca a vapor”,
nela, o clássico maquinista, um ser adiposamente revestido, com o seu quepe
cinza tradicional e sujo, metade do corpo fora da janela. Uma pintura dessa atiça
a imaginação.
Na sequência pulei para os abraços de rodoviária, nem tanto pelo cheiro
do diesel dos ônibus ou da fumaça do óleo vencido dos pastéis na cozinha da
melada parede do bar, mas, sobretudo pela extravagância dos trajes e a briga de
cores dos looks, na justa medida dos dois números pra menos ou no esparramado
relaxamento dos dois números a mais, nunca na medida certa.
Um abraço apertado no meio da multidão, no entorno, guichês
perfilados, ônibus enfileirados, cambistas da loteria oficial que se junta a
jogadores clandestinos do ilícito jogo das tampinhas, estes, com os seus olhos
esbugalhados a vigiar a polícia, quando os vigiados deveriam ser eles, não
aqueles. Isso sim é quadro para frequentar as melhores galerias ao redor do
mundo.
Depois migrei para o abraço de aeroporto, o bom perfume aéreo misturado
ao cheiro do querosene de aviação dava o tempero e excitação adicionais,
típicos das obras de belas artes.
Um abraço em meio à garoa do inverno, de fundo no pátio, aviões
taxiando, ao lado da torre de controle camuflada na fumaça da estação, luzes
vermelhas piscando, sem contudo anunciar o obsceno. Isso é obra que liberta o
espírito e beija a alma da gente.
Mais recentemente estendi o olhar aos abraços do porto, me pareceram
mais consistentes de afeto, são abraços cujo pano de fundo é o mar e navios transatlânticos
de cruzeiros marítimos, o que por si só já justifica o quadro. Por outro lado,
há ali um mix do cheiro forte da maresia, peixe podre e esgoto a céu aberto.
O abraço desse quadro é altamente enigmático e fará muito sucesso, uma
vez que registra o antagonismo de uma paisagem exuberante de fundo e ao invés
das tradicionais gaivotas, o revés dos abutres no sobrevoou da orla. Os
protagonistas, em preto e branco abraçados, de rostos também abraçados por máscaras
que os mantém hábeis ao abraço, contudo, como os urubus, impedidos da progressão
preliminar para chegar ao beijo.
Hoje pouco importo com a tela, passei a valorizar o abraço por si só, é
ele autossuficiente e a sua essência está nos braços entrelaçados e no coração
dos doadores...
O abraço, mais do que o beijo é obra cara e abençoada, na dose certa cura
e ou ameniza todos os males, quando duas pessoas se abraçam destramelam uma
janela no Céu, donde desce um facho de energia fluídica, divina e transmutável,
que é absolvida pelos que se abraçam, os harmonizando, equilibrando,
fortalecendo e os habilitando a propagar no seu ambiente de convívio o bem
estar aos irmãos de caminhada. É nesse ponto que deixamos de ser uma tela em
branco, sem expressão e nos tornamos o próprio pincel nas mãos Santas do
Criador.

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