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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

BRAÇOS QUE SE ABRAÇAM

O local em que o abraço acontece é a tela virgem que se oferece à obra, que, por sua vez, lhe retribui a fidalguia com a magnitude da unicidade de um quadro cobiçado.
No passado, eu gostava muito dos abraços na estação ferroviária, cheirava a churrasco e fuligem do carvão de maria...
Um abraço em meio a ferrovia, de fundo a legendária “engenhoca a vapor”, nela, o clássico maquinista, um ser adiposamente revestido, com o seu quepe cinza tradicional e sujo, metade do corpo fora da janela. Uma pintura dessa atiça a imaginação.
Na sequência pulei para os abraços de rodoviária, nem tanto pelo cheiro do diesel dos ônibus ou da fumaça do óleo vencido dos pastéis na cozinha da melada parede do bar, mas, sobretudo pela extravagância dos trajes e a briga de cores dos looks, na justa medida dos dois números pra menos ou no esparramado relaxamento dos dois números a mais, nunca na medida certa.
Um abraço apertado no meio da multidão, no entorno, guichês perfilados, ônibus enfileirados, cambistas da loteria oficial que se junta a jogadores clandestinos do ilícito jogo das tampinhas, estes, com os seus olhos esbugalhados a vigiar a polícia, quando os vigiados deveriam ser eles, não aqueles. Isso sim é quadro para frequentar as melhores galerias ao redor do mundo.
Depois migrei para o abraço de aeroporto, o bom perfume aéreo misturado ao cheiro do querosene de aviação dava o tempero e excitação adicionais, típicos das obras de belas artes.
Um abraço em meio à garoa do inverno, de fundo no pátio, aviões taxiando, ao lado da torre de controle camuflada na fumaça da estação, luzes vermelhas piscando, sem contudo anunciar o obsceno. Isso é obra que liberta o espírito e beija a alma da gente.
Mais recentemente estendi o olhar aos abraços do porto, me pareceram mais consistentes de afeto, são abraços cujo pano de fundo é o mar e navios transatlânticos de cruzeiros marítimos, o que por si só já justifica o quadro. Por outro lado, há ali um mix do cheiro forte da maresia, peixe podre e esgoto a céu aberto.
O abraço desse quadro é altamente enigmático e fará muito sucesso, uma vez que registra o antagonismo de uma paisagem exuberante de fundo e ao invés das tradicionais gaivotas, o revés dos abutres no sobrevoou da orla. Os protagonistas, em preto e branco abraçados, de rostos também abraçados por máscaras que os mantém hábeis ao abraço, contudo, como os urubus, impedidos da progressão preliminar para chegar ao beijo.
Hoje pouco importo com a tela, passei a valorizar o abraço por si só, é ele autossuficiente e a sua essência está nos braços entrelaçados e no coração dos doadores...
O abraço, mais do que o beijo é obra cara e abençoada, na dose certa cura e ou ameniza todos os males, quando duas pessoas se abraçam destramelam uma janela no Céu, donde desce um facho de energia fluídica, divina e transmutável, que é absolvida pelos que se abraçam, os harmonizando, equilibrando,  fortalecendo e os habilitando a propagar no seu ambiente de convívio o bem estar aos irmãos de caminhada. É nesse ponto que deixamos de ser uma tela em branco, sem expressão e nos tornamos o próprio pincel  nas mãos Santas do Criador.

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