
Tempos bons aqueles, quando ainda não conhecia a tal preocupação, subia no pé de jabuticabas e lá ficava por horas e horas a fio.
Gostava daquelas nas pontas dos galhos, pois tinham as cascas mais finas, eram mais doces e graúdas.
A confiança na madeira era impressionante, pendurava e gangorreava de um lado para o outro naqueles ramos finos, como um verdadeiro primata.
Pau de jabuticabeiras é igual aos ensinamentos do grande Jigoro Kano, enverga mais nunca quebra.
Assegurado pela tese do mestre fundador do judô, ali permanecia me equilibrando nas extremidades daqueles gravetos.
Lá de cima ouvia o grito de mãe: "o cumê tá pronto, vem logo senão dou pra cachorra". Dali de cima eu podia ver a porta da cozinha aberta, as labaredas do fogo aceso e as panelas de ferro fumegantes, encarrilhadas sobre o fogão a lenha.
Pela janela da dispensa era possível verificar a branquidão dos queijos no tabuleiro de meia cura, ao lado de uma manta de carne de sol dependurada no caibro do telhado.
No sótão forrado por esteira de taquaral, cachos de bananas nas mais variadas cores e nos diversos estágios de maturação.
Tudo isso ao alcance dos olhos e sob a miragem curiosa de uma criança que se punha a espiar de fora pra dentro por entremeio às galhadas do pé jabuticabas.
No quintal os irmãos se desafiavam para ver quem conseguiria percorrer número maior de árvores frutíferas sem tocar com os pés no chão, assim fazíamos uma verdadeira viagem aérea.
As jabuticabas eram as preferidas, do seu pé eu pulava para a mangueira e desta para a laranjeira onde sempre tomava uma injeção acidental com os espinhos pontiagudos.
Na mesma sequência ainda visitava umas cinco ou seis espécies cuja importância residia mais na diversão do acesso aéreo pelos troncos do que a oferta de frutas propriamente.
Por sorte, a maior parte das árvores quando verdes mais vergam do que quebram, porém, algumas são de elasticidade acima da média, a jabuticabeira é uma delas, mas nada que se compara a vara de marmelo, posso asseverar com conhecimento de causa.
Vara de marmelo era uma espécie clássica de cassetete supersônico dos pais, aquilo cortava o ar como um caça de guerra, achava e golpeava a minguada anatomia juvenil, era ao mesmo tempo acolhedora, pois abraçava a pequena carcaça esculpindo-lhe tatuagens de linhas retas, formando verdadeiras figuras geométricas em alto relevo no lombo arteiro.
O grande paradoxo é que a mesma flexibilidade que nos garantiam brincadeiras seguras sobre as árvores, evitando quebras e quedas, é a mesma com a qual éramos castigados quando das peraltices.

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