Licença Creative Commons
Textos de Adélito Barroso Faria está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://adelitobf.blogspot.com.br/.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Há tempo pra tudo

Há tempo prá tudo mas nós estamos sem  tempo para acompanhar o movimento do tempo. Em consequência estamos perdendo a capacidade de perceber as transformações e até milagres operados pelo tempo no seu tempo.
O meu choro é tão raro quanto o canto do uirapuru, mas hoje mexe e vira lá tô eu num soluço entalado e sofrido por minhas muitas razões, por razões que não são minhas, também pelo desarrazoado de quem quer mandar as favas a razão. 
O peito doe, a cabeça também, o coração doe mais ainda, sangra, arde e queima para compensar a geada que vem de todos os lados. 
Nada disto parece lógico nem para mim nem para ninguém, mas a vida é assim mesmo, tanto sofremos como fazemos sofrer, então deve haver um propósito por traz dessas angústias vivenciadas por todos. Mas com o tempo as coisas mudam e faz mudar a gente e quando a gente muda, tudo muda.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Mediador.

O vizinho inicia, da sua casa, a fundação
Obra nova é tomada de muita movimentação
A cada hora chega toda sorte de itens de construção
Barulho de máquina a todo vapor  na escavação
Tem ronco de motor, da betoneira ao caminhão
Há também prenuncio de sisuda confusão
Uma cerca tortuosa tira do sério quem vive na retidão
Um cano de esgoto que desce na contramão
Vem sorrateiro e camuflado por debaixo do chão
Invadindo território fora do seu quinhão
Trazendo surpresas alheias que ninguém quer não
O vizinho quer arroiar o cano para refluir na entupição
Vai devolver a merda para o vaso do espertalhão
Se fosse mais investigativo do tipo espião
No cano faria uma colonoscopia de invasão
Assim registraria o espulgo na saída do botão
Quem sabe pudesse ver na origem um irmão
E a contenda resolver num aperto de mão
Cada um abre a sua fossa cavando na dureza do chão
Fica tudo resolvido na amizade sem juiz nem tabelião
Sem advogados, sem honorários e nem jurisdição
A lide não se formou em que pese a contestação
Aquilo que daria em morte, não fosse a minha intervenção 
Morreu no nascedouro sem se quer chegar a impugnação
A pendenga se resolveu num grande mutirão
Um churrasco na laje quando do final da fundição
Outro churrasco mais tarde no dia da inauguração
Uma amizade se formou em meio a contradição
E cada um armazena a barro nos limites do seu torrão.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Num dia de domingo

Não me pergunte pra onde vão os pensamentos.
Em tudo na vida há diversas e variadas censuras.
Liberdade genuína, só nos resta a do pensamento.
Para manter esse status, soltem as ideias mas contenham o verbo.
Não há limites à visão movida pelo pensamento.
Já o olhar cotidiano sofre a miopia das convenções sociais.
Por isso, cada vez mais menos estou na concretude diária.
A minha essência imaterial se aninha ao pensamento e se solidifica nele.


quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Dormindo no Deck

Tenho dormido no deck.
Passo mais acordado do que dormindo.
Dorme não dorme, a lua bonita empalha.
Ora encanta, ora aborrece, as vezes atrapalha.
Cedo ela mal se despede e o sol se impõe, olhando direto na íris da gente.
O dia inteiro andei pelas sombras e ele ali, a espiar pelas frestas.
Ao fim da tarde, já se recolhendo topou comigo de frente e mais uma vez bateu o farol alto na cara.
Outro dia, novo dia, velhas pelejas.
Eu aqui repetindo o mesmo berço e outra vez a lua gravitando ali ao alcance das vistas e ao toque das mãos.
Só que hoje ela não está só, ganhou reforço de vaga-lumes.
Também eu não estou só, as muriçocas de mim desfrutam.
Hoje assim saciando essas devassas é que não durmo mesmo...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Check-Up

Recentemente comentei por aqui do quão exagerados são os europeus no que se refere ao consumo de cigarros, hoje coloco um pouco mais de lenha nessa fogueira, porquanto não bastasse o excesso de tabaco, também têm o costume, talvez pelo rigor do inverno de colocarem carpete em quase toda edificação, fato este que agrava substancialmente o problema, na medida em que ocorre maior absorção do cheiro, de modo que o ambiente carpetado fica ainda mais impregnado daquele odor. 
Claro que a hostilidade tabagista atacou-me a alergia e então uma das primeiras ações no Brasil foi procurar ajuda especializada. Passei uma mensagem de whatsapp a um amigo médico com o qual, cheguei a trabalhar por um bom tempo. Depois das preliminares de velhos amigos, marcamos uma consulta para cuidar da alergia. Cheguei à clinica no horário avençado, mal estacionei o automóvel, a secretaria anunciou que o doutor já estava a minha espera. Confuso com a ausência dos protocolos iniciais, argui sobre os procedimentos prévios de praxe na recepção do tipo: preenchimento de fichas, senhas, espera etc. A secretaria acenou de que o médico recomendou a condução imediatamente após à chegada, de inicio fiquei com a "pulga atrás das orelhas" e comecei a conspirar a despeito da própria saúde, revisitei o telefone para ver se tinha dramatizado muito no contato telefônico a ponto do amigo doutor ter entendido que era uma situação de urgência ou emergência médica, claro que não se tratava de "nenhuma sangria desatada" para um atendimento prioritário imediato daquele jeito. 
Ao entrar no consultório, o meu amigo me recebeu com um sorriso tão doce, afetuoso e fraterno que mais parecia um próctologista justificando a necessidade de nos apontar o dedo ameaçador  em riste. Mas naquele momento me veio à recordação de quando trabalharmos juntos e relembrei que essa presteza, cuidado e gentileza eram características marcantes dele, sabe aquelas pessoas boas, sujeito puro, que a gente até torce para que de vez em quanto tenha uma atitude de menor candura, para que possamos ficar mais a vontade com a nossa própria consciência e nos perdoar por aquele dia em que a pressa nos fez desviar da velhinha, só para não ter que ajudá-la à atravessar a rua, ou quando disfarçamos na fila do banco para não sermos vistos por um conhecido porque não queremos conversar naquela hora? Mas que nada, quanto mais conversávamos mais me via distante da desejável evolução espiritual. 
Sabendo da agenda apertada do amigo tratei de entrar logo no tema que me levara ali, durante a anamnese, falei dos meus dias como fumante passivo contumaz, do clima frio, dos carpetes etc. Terminado o atendimento já com a receita de medicamentos na mão, o querido amigo me perguntou sobre a pousada em Milho Verde e sobre o acolhimento médico na região, falei que o local é de poucos recursos, que tem um posto de saúde e que os atendimentos são pelo SUS e em que pese não serem totalmente satisfatórios não eram de todo ruins, pois contávamos com a presença de um clinico uma vez por semana. 
O meu isolamento e consequente distanciamento de cuidados médicos mais regulares, fez com que o amigo iniciasse um assédio a fim de cooptar-me para realizar um check-up, ponderei de que não seria necessário e que no momento estava preferindo a ignorância sobre o meu estado de saúde, muito embora tivesse ciência da fundamental importância de um eventual diagnóstico prematuro. Dito isto, o meu amigo me colocou a par de vários casos em que a pessoa esteve no seu consultório apenas como acompanhantes e que depois de convencidos a fazer um check-up, descobriram sérios problemas, que se não fosse achados, representariam risco de morte eminente, foram salvos por conta de um diagnóstico prematuro. Depois dessa sutileza, claro que sai dali com diversos pedidos de exames capazes de detectar toda sorte de “ingrisias” ou “zica” que o sujeito possa ter. 
Despedi-me do amigo encantado, havia deixado escapar da memória do quão gentil, competente, fino e convincente era o meu velho amigo. Para ganhar tempo fui direto ao laboratório, onde agendei a coleta de sangue para o dia seguinte me certifiquei das orientações e apoderei dos recipientes para acomodação do material sujeito às investigações patológicas. Pela manhã, ainda em casa realizei facilmente a coleta liquida, já a sólida, mais disciplinada e coerente com os seus horários biológicos habituais, deu um trabalhão danado para sair da toca, contudo mesmo diante da grande resistência inicial e má vontade em se revelar, finalmente apresentou-se, com particular acanhamento para o passeio fora do seu habitat natural. 
O kit para coleta mereceu particular atenção, um involucro lacrado com um copo e um tubo cilíndrico com tampa amarela de pressão, para armazenar a urina e no outro pacote, um prato, um lenço de papel, uma colherzinha e um copo com tampa de pressão na cor marrom, ou seja, tampas personalizadas na cor do visitante, um mimo só. Também tinha orientações consoantes aos procedimentos e ao manuseio de cada assessório daquele. 
Chegando ao laboratório que até o dia anterior não o conhecia, devidamente municiado com os ingredientes para exames, retirei a senha e me pus a aguardar, enquanto esperava passei a observar tudo no local, como sempre faço nos novos ambientes em que frequento. Confesso que fiquei impressionado com a grandeza e glamour do local, tudo muito limpo, uma decoração valorizando os vegetais, muito mármore, tudo do bom e do melhor e de muito bom gosto, nem parecia um estabelecimento para "vampirizar" o sangue da gente, havia até uma cascata dentro da sala com peixes coloridos. Também tinha certificações indicando que aquela era uma empresa ecologicamente projetada, que aproveitava os recursos naturais como luminosidade, energia, ventilação e até a água da chuva era capitada para aproveitamento sustentável, tinham uma usina de reciclagem e muitos prêmios e certificados de qualidade e vocação na preservação da natureza. 
Sou bastante engajado nas questões preservacionistas, cheguei a trabalhar no fomento de medidas protetivas ao meio ambiente, acho tão crucial respeitar o nosso meio, até porque estamos nele integrados, imbricados, umbilicalmente ligados, somos massa física no meio sensível e sopro divino no intangível, portanto o ambiente preservado deve também garantir a limpeza espiritual, me filio particularmente a essa premissa. O gozado é que sazonalmente sempre haverá turbulências, imagine que, eu ali naquele lugar, pensando na energia divina vital, no quão sagrado é o sangue e todo composto vivo, no perfeito funcionamento cósmico e na bela relação interativa entre todos os elementos naturais, animal, vegetal, mineral e na energia divina dando movimento e grandeza a tudo isso, eis que de repente a tentação aparece e usando uma micro nano saia, toma assento bem à frente. Toda aquela estrutura harmônica entra em colapso, a inquietação dos funcionários e de homens e mulheres que ali aguardavam atendimento era patente. 
Fui tirado daquela viagem por uma delicada moca de branco que, para variar pronunciava o meu nome de forma equivocada, levantei-me, a acompanhei, lhe ofertei o braço, ela o garroteou, mandou que fechasse as mãos e enfiou a agulha de grosso calibre, encheu uns quatro potinhos de sangue e me encaminhou à copa para o tradicional cafezinho. Lá chegando uma boa senhora de uns 55 anos perguntou-me se queria o café com adoçante ou açúcar, lhe disse, nem um nem outro só café puro mesmo, ela elogiou a minha escolha, me serviu o café acompanhado de um pratinho com pães de queijo, comi o primeiro, estava delicioso, confesso que peco muito pela gula quando o assunto é pão de queijo, vixi, gosto demais, no terceiro já estava mais a vontade para as minhas observações sempre presentes, foi ai que notei ser aquele pratinho do mesmo que recebi no dia anterior para colher o material para exame de fezes. Não teve como não associa-lo a tal usina, recolhendo, customizando e eventualmente reciclando aqueles pratinhos que poderiam perfeitamente em um dia recepcionar biscoito para análise e noutro acomodar pães de queijo... Será...? 
Fico aqui pensando se me tiram o sangue, consigo sobreviver a isso bem, mas não queiram me tirar à dignidade se não o sangue eu bebo...

sábado, 8 de dezembro de 2018

Esfinge D'álma

Poesia é como se você tivesse uma peneira fina para classificar as palavras, de tal sorte a não permitir a passagem de futilidades, grosserias e afins do gênero. Todavia, ao “poetizar,” por mais cauteloso e diligente que você seja com as palavras, ao final percebe que no tecido central da peneira há sempre um imenso rasgo, por onde escapa muitos termos “desclassificados”, sem a postura e elegância que convêm à letra e ao arranjo poético.  
Mesmo assim, no derradeiro exercício de autoridade corregedora, você olha para a composição e o conjunto literário parece advogar na defesa dos termos menos nobres, e aquela interseção na defesa das pálidas expressões, de carente robustez e miúdo alcance poético nos comove e as deixamos continuar a viagem ali mesmo, fazendo parte do contexto, no papel de figurantes cuja presença, se justifica aos críticos de que sobrevêm sob o manto e tutela protetiva da liberdade poética. Isto é: “se já tá dentro deixa.” 
Todo poeta é um garimpeiro do cotidiano que extrai do dia a dia a pedra bruta, mas o achado da matéria prima não constitui ainda uma poesia. A alquimia poética só acontece quando o poeta revira a caixa dos seus arquivos de variados sentimentos e vai lapidando, temperando, forjando, dando formato e formosura ao texto. É nesse exercício artesão de cutelaria que surge a ferramenta imbricada de sentimentos, afiada na pedra filosofal, cuja têmpera final retrata a própria esfinge d’alma do autor.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Estrangeiro gozador


Há muitas coisas acontecendo ao redor do mundo, coisas parecidas e tão diferentes ocorrem todo tempo o tempo todo espalhadas por ai no universo humano.
Gosto das boas coisas praticadas na Europa, são muitas as condutas Europeias benévolas, entretanto desvios de conduta parecem gravitar sobre toda aldeia habitada, onde há gente, há de tudo um pouco, aqui vi roda de bicicleta sem corpo trancada no poste, vi quadro trancado sem as rodas, imagino quem sabe um dia o quadro de uma encontre as rodas da outra e desse casamento nasça um novo corpo Frankenstein com pelo menos tronco e membros.
Vi também muita sujeira pelas ruas, descuido este que até me favoreceu, pois tenho um excêntrico amigo colecionador de maços de cigarros vazios e em consideração a este amigo, que a rigor nem fuma, estou contribuindo com a limpeza europeia, catando lixo nas ruas para o dito amigo da onça, pois, em que pese a tarefa constrangedora este me é muito caro.
Para não fugir ao tema, estou me tornando um "tabacofóbio", aqui tudo cheira a cigarro, como fuma esta gente, lugar ideal para um colecionador do estilo! Tanto a cá como acolá não se pode fumar em locais fechado, mas estranhamente todos os quartos de hotéis por aqui "fede" a cigarro, não é pouco do tipo “frescurinha” é coisa forte de dar náuseas.
Tem muito mais que aos poucos e noutras oportunidades vou revelando, mas para encerrar vai ai a pérola do dia. Deslocando-me de Paris para Marselha, admirado com as mais lindas paisagens daquele país e os seus intermináveis cata-ventos gigantescos, uma das suas matrizes energéticas. Não sei se já desenvolveram ou se buscaram fora na América do Sul tecnologia para estocarem o vento, mas sei que aquelas estruturas espalhadas e girando pelos campos são bem aprazíveis ao olhar, quase que terapêuticas.
Pois bem, em uma das paradas vi uma de nossas malas deslizando na mão de um sujeito não menos mala, pelo pátio da rodoviária de uma cidadezinha do interior da França, tentei alertar ao motorista de que estava sendo furtado, mas o meu francês não tem nível para dizer: " par bonté mon seigneur, je suis victime d'un vol qualifié, ils ont pris mon sac dans le bus et il transporte dans la grosse main". Como a comunicação com o motorista não fluía e a mala só distanciava, sinalizei para ele me aguardar, isso é universal e então sai em desabalada carreira ao encalço do incauto que levava a minha. Em menos de minuto o abordei ao melhor estilo brasileiro, segurei firme a mala e dei-lhe um tranco, me fiz incisivo e convincente porque imaginei: se o motorista que se esforçava para me entender nada entendeu, como o cara que não queria mesmo me entender entenderia? Dai ficou aquele puxa, até que abri a mala e a primeira peça que a mim se apresentou foi uma calcinha, então resolvi no melhor dialeto nosso mesmo, peguei a dita e cheguei bem encostadinha ao rosto do gringo e bradei: por acaso você usa isso, nem serve em você, seu bosta de merda, zszszzsszsszsz (impronunciáveis) e foi assim, com essa fidalga leveza que me fiz entender e pude voltar com a mala que também nem minha era...