Quando ainda era pré adolescente trabalhei num bar de periferia.
Era do tipo copo sujo ou puxa faca, dependendo da região.
Nem sei se isso é legal hoje em dia,
na tenra idade não se pode fazer mais nada!
Lá aprendi muita coisa pelo método pedagógico do reverso contraditório.
O boteco tinha mesas de sinuca, carteado e fregueses graduados
nas diversas variáveis incontroláveis da malandragem mais apurada.
Uma bandidagem acostumada a passear por todos os artigos do código penal.
Do lado havia uma casa da luz vermelha, fina flor do baixo meretriz.
No puteiro, uma janela grande e antiga de madeira maciça,
funcionava como uma espécie de outdoor do prostíbulo.
Nela estava escrito, (ipsis litteris) a base de giz de cera, na cor lilás:
"puta nova, formosa e asseadinha, quase virjem, chegada a pouco de fora,
venha conhecer, conferir e provar, traja os amijos."
Eu achava muito estranho aquela troca do "g" pelo "j",
mas o acanhamento não me habilitava a corretor gramatical da zona.
Provavelmente a confusão tinha origem no idioma hibrido
adotado pela cafetina paraguaia, dona e marqueteira do bordel.
Ainda assim, todos os dias, chegando e saindo do trabalho,
eu conferia para ver se a grafia tinha mudado, e nada.
Trabalhei uns dois anos naquela bodega
convivendo com toda sorte de marginalidade,
inclusive com o assassinato do vernáculo pátrio.
Quando sai da putaria, sim putaria,
porque o boteco também o era por força atrativa.
Bem quando de lá sai, a frase continuava na janela,
não só com o defeito de escrita,
mas também e principalmente com a propaganda enganosa.
Sim, porque mesmo esforçando
no aceite da pouco ortodoxa hipótese
de ser a mulher dama de fato uma semi-virgem
perpétua por herança genética.
Mesmo sendo grande o consumo do objeto colocado a venda,
poderia a "moça" ter o chamado hímen complacente,
a literatura o admite sem exclusão, ainda que utilizado
com grande rotatividade e afinco no pródigo negócio.
Porém não obstante admitir a missiva acima,
o mesmo não se poderia dizer sobre a moça ser recém chegada ao cabaré,
com essa inverdade não dava para ser complacente.

Textos de Adélito Barroso Faria está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://adelitobf.blogspot.com.br/.
quinta-feira, 19 de abril de 2018
Haviam pedras no meio do caminho
Por muito tempo andei descalço.
Uma vez ou outra dava topadas.
Em algumas, perdia a cabeça do dedo com unha e tudo.
Minha mãe, tia, vó e mais grandinho eu,
Uma vez ou outra dava topadas.
Em algumas, perdia a cabeça do dedo com unha e tudo.
Minha mãe, tia, vó e mais grandinho eu,
revezávamos fazendo uma capanguinha com retalho de
costura,
vestia a carapuça no dedo lesionado
e amarrava o que seria as alças do bornal no
tornozelo.
A carapuça curativa ficava ali por semanas
A carapuça curativa ficava ali por semanas
até desgarrar naturalmente, o que, quando ocorria,
geralmente a cabeça do dedo já estava
reintegrada.
Desta época, algumas coisas me intrigam até os dias atuais:
Primeiro o por que as topadas davam preferência ao dedo machucado,
Desta época, algumas coisas me intrigam até os dias atuais:
Primeiro o por que as topadas davam preferência ao dedo machucado,
nunca entendi essa insistente reincidência.
Segundo, por que quando passei a usar calçados,
Segundo, por que quando passei a usar calçados,
nunca mais fui visitado pelas tais topadas?
Terceiro e mais absurdo, por que tenho saudades destas
coisas?
Hoje ainda experimento tropeços, topadas
não mais.
domingo, 15 de abril de 2018
Carne fraca
Jovem era o padre, viçosa a noviça.
Dois religiosos e um voto em xeque.
luta aguerrida entre hormônios.
Teste de fogo para a frigidez da castidade.
Toda abstinência nega a ordem natural.
No confessionário, uma comum confissão:
- Padre a ti não tenho mal querência.
- Isso é virtude, não pecado.
- E se por ti vier a ter bem querer?
- É generosidade e bondade sua.
- E o que devo fazer em penitência?
- Nada, só tens que assim continuar.
- Padre se não se se importar,
por segurança, um terço vou rezar,
e o bafo do mormaço afastar.
Dois religiosos e um voto em xeque.
luta aguerrida entre hormônios.
Teste de fogo para a frigidez da castidade.
Toda abstinência nega a ordem natural.
No confessionário, uma comum confissão:
- Padre a ti não tenho mal querência.
- Isso é virtude, não pecado.
- E se por ti vier a ter bem querer?
- É generosidade e bondade sua.
- E o que devo fazer em penitência?
- Nada, só tens que assim continuar.
- Padre se não se se importar,
por segurança, um terço vou rezar,
e o bafo do mormaço afastar.
sábado, 14 de abril de 2018
Reminiscências Profissionais
Era ainda muito moço e me graduei
na corporação. Atirava muito bem e nem foi aperfeiçoamento proveniente de
instruções, acho que nasci assim, bom atirador. Devo ter herdado do meu pai,
que era perfeito na pontaria.
Por essa habilidade natural, me
tornei instrutor de tiro e desenrolava o ofício bem, de forma satisfatória e
prudentemente, como se deve ser mesmo no manejo de ferramentas tão
letais.
Assim ganhei o respeito de todos, gostava
de ensinar e o fazia com prazer, discrição e humildade. A metodologia utilizada
era a genuína força do exemplo, jamais cobrei de um aluno a realização de uma
tarefa sem antes havê-la feito pessoalmente em demonstração.
Em razão do bom desempenho fui
convocado para fazer um curso de atirador de elite na capital.
O curso foi ótimo, quatro meses
estudando e praticando só nesse tema me extasiaram, ali vi o quão limitado era
o meu conhecimento, numa matéria em que era um respeitado instrutor.
Não só desmontei, montei e atirei
exaustivamente com todos os modelos de armas, bem como as vi, em funcionamento
nas entranhas viscerais, nos seus mínimos detalhes, pois para cada modelo havia
uma com a carcaça em material transparente, justamente para que pudéssemos
visualmente constatar a necessidade, função e eficácia de cada peça que compunham
a respectiva arma.
Treinávamos pesado, passando por
uma pista que simulava a realidade operacional, com diversos pontos de
intervenção, tais como: atirar a cerca de cinquenta metros em um balão
específico e pré-determinado, em meio a dezenas de outros balões com um tubo de
ar os colocando em movimentos aleatórios e imprevisíveis para todos os lados,
direções e profundidades, ora o seu balão alvo aparecia à frente, ora atrás,
perpendicular e parcialmente aos lados, o disparo tinha que ser preciso e no
exato momento em que o projétil não atingisse outros balões, às vezes era
preciso esperar até quarenta minutos ali, imóveis e posicionados com o balão na
massa de mira para que quando este mostrasse sem que outros estivessem no
percurso do projétil, o disparo fosse efetuado.
A partir desse curso, a instrução
entrou noutro patamar de eficiência, passamos a dar treinamento de tiro também
à noite com pouca visibilidade, com os alunos extenuados por exercícios físicos
precedentes, sem dormirem, debaixo de chuva, com o alvo segurando refém como
escudo, todos em movimento, dentre outros graus de dificuldades, nunca antes
experimentados nas instruções.
Formei-me com louvor, recebi
certificado e o emblema que agregou aos apetrechos da farda e muito orgulhoso
voltei para as atividades, dentre elas, a de instrutor de tiro.
O instrutor usava o mesmo corpo,
mas a pessoa era outra, a discrição, sobriedade e humildade tinha cedido espaço
para a soberba, então em míope autocrítica, "expunha-me a mim mesmo"
pela falta de subsídios nas instruções dantes.
E assim, todos os anos eu percorria
diversas cidades do Estado, levando a minha proficiência e "show", no
que era muito bem recepcionado, referendado e aplaudido por todos, dado a
excelência e notoriedade alcançadas pelo jovem instrutor.
Então, certa vez, numa quinta feira
pela manhã, na cidade de Ituiutaba, no pontal do Triângulo Mineiro, durante
aula teórica que precedia a prática, um dos profissionais ali presentes
questionou-me a respeito de um disparo de um revólver que havia caído ao solo
dias atrás.
Do alto do saldo de quem tem
domínio da passarela, vomitando infantil arrogância, lhe disse que isso não
seria possível, pois o retentor do cão
só o liberaria para percutir a espoleta da munição e com isso permitir o
disparo, no exato momento do acionamento da tecla do gatilho pela ação do dedo
do atirador.
O profissional reafirmou e ainda
disse que o fato havia ocorrido com ele e que estava com a arma do citado
evento ali, então me apoderei do
revólver, o municiei e solenemente dei uma pancada com o cão no piso para
mostrar a impossibilidade técnica daquela ocorrência narrada.
Para minha surpresa o disparo
ocorreu, e foi com o rabo entremeio as pernas que sem entender o porquê daquilo
é que desmontei aquela arma e constatei que o tal retentor do cão estava
quebrado.
Esse chá de realidade me devolveu a
sobriedade e discrição importantes no exercício profissional. Pedi desculpas e
nunca mais exerci a docência nessa área do conhecimento. Hoje não acredito em
tudo que me dizem por aí, mas me dou ao direito de também não desacreditar em
nada..
quarta-feira, 11 de abril de 2018
No período jurássico.
Quando ainda existiam aquelas maquinas de datilografia antigas, a gente escrevia com total segurança, há poucos meses vi uma daquelas ainda em atividade, em uma repartição pública numa cidadezinha do interior de Minas.
Enquanto aguardava o atendimento, escutava aquele barulho das letras batendo no papel, o famoso “cata milho,” ao mesmo tempo também matutava a respeito da longevidade daquela maquininha. Foi ai que me ocorreu à afirmação inicial do quão confiável e seguro era a operação de escrita numa relíquia daquela.
Era muito bom escrever com elas, dava uma sensação de importância e por extensão de um poder extraordinário, a gente tinha segurança incrível ao usá-las, com elas dava para topar qualquer parada, até competíamos entre colegas para ver quem primeiro escrevia otorrinolaringologista.
Depois vieram as elétricas e complicou um pouco, enquanto as antigas eram fielmente obedientes aos comandos do datilógrafo, isto é, era preciso bater na tecla com convicção, força e fé para o mecanismo levar a letra gráfica até o papel, de modo que, era possível apoiar e até deitar o peso das mãos sobre o teclado sem o dispare acidental das teclas. Já nas elétricas isso não veio possível, o que, acabava por gerar muitos erros de escrita por ação involuntária decorrente do contato não querido no teclado, contudo, nada que o barrinho branco não resolvesse.
Na sequência surgiram os PCs com teclado periférico, mais adiante os laptops com teclados agregados, ambos com teclas mais sensíveis em que o digitador quase precisava prender a respiração, pois as letras são tão doces que basta pensar numa para que ela pule do teclado para a tela do computador.
Agora esparramaram por ai como epidemia, celulares, notebooks, ipeds, tablets e tantos outros do gênero, com as telas touch screen, em que não há teclas, no formato, umas vizinhas das outras, com individualidade e musculatura física palpável, nem em 3D são, algumas quase invisíveis a olho nu. Então para escrever sem passar vergonha, tem que ser quase um atirador de elite, cuja mira e pontaria, apurada aferida o habilite a acertar cada letrinha individualmente, sendo estas infinitas vezes menores que as pontas dos próprios dedos que as garimpam na tela.
Para piorar os aparelhos atuais trabalham com a ditadura da inteligência artificial, em que você escreve uma coisa e ele lhe impõe outra totalmente fora do contexto, sem falar os toques acidentais que sempre leva o digitador a tergiversar para rumos distantes do pretendido, com intervenções da maquina, muitas das vezes e quase sempre, desastrosas e até constrangedoras, do tipo: “meus parabéns pela parceria gay”, quando a grafia pretendida seria: “muito bem pela prataria, gostei”.
domingo, 8 de abril de 2018
Diferentes e tão iguais
Era tarde de domingo e os médicos são acostumados a
trabalhar em dia Santo.
Acho que pelo hábito o legista escolheu o domingo para
exumação do rei, envenenado a cerca de cinco anos, pelo eunuco, um pobre negro
castrado a canivete por vossa majestade em pessoa.
O negro serviu um quarto de litro de cicuta a sua
alteza, o resto ele mesmo tomou no gargalo, morreram juntos, o negro foi
enterrado uma semana antes, o rei só depois das reais honras fúnebres.
A exumação também era de ambos, pois só a comparação da
ossada dos dois, revelaria inequivocamente a coincidência da causa
mortes.
Os ossos do rei eram tão brancos como neve, exposto ao
sol, até dava gastura às vistas, eram brancos não porque era rei, assim o eram,
porque têm essa cor todos os ossos.
Também os ossos do negro eunuco eram brancos como neve,
expostos ao sol, igualmente dava gastura às vistas, eram brancos não porque era
negro, eram assim, por que assim são os ossos.
Os homens se faziam diferentes em face de ossos tão iguais,
diante dos ossos do rei, os súditos abaixaram a cabeça em sinal de respeito à
sua graça, aos do negro, tapavam o nariz e viravam de costas em repúdio.
O que ninguém sabia, e não era objeto de estudo do
legista é que o coveiro, um inveterado alcoólatra, havia trocado as etiquetas
das ossadas, de modo que o negro eunuco se tornou rei por um dia e recebeu todas
as honras de realeza, dos súditos e da nobreza até de outros clãs, enquanto sua
majestade, embora morto, “viveu” o desprezo no seu próprio reinado.
Apenas as formigas tratavam com isonomia aquelas
ossadas, sem distinção ou preferência, vilipendiavam a ambas, devorando o
tutano para estabelecer moradia no oco daquelas criaturas não menos ocas quando
vivias.
Cruz viva
O pecado está esparramado por ai,
no meio humano como fina areia na praia.
Já nascemos com o pecado original,
o nascituro ainda mergulhado no líquido amniótico
traz consigo o pecado de origem.
Assim também ocorre com o banhista
incapaz de sair do mar sem se impregnar
por granulada areia.
O pecado adere a criatura como poluição sonora
que invade o sentido auditivo.
Mesmo os que têm vedação acústica auricular
recebem as tentações ainda que em menor volume.
Cristo morreu na cruz para nos redimir do pecado,
mesmo assim continuo pecando em proporções generosas
que o mais adequado seria também
ser crucificado numa cruz viva.
Ser pregado na forquilha de um torto e retorcido tronco de pequi,
na aridez do serrado, de modo que,
na medida em que a árvore vai crescendo e expandindo
também força e tenciona os meus membros,
gerando dores compatíveis com a remissão
dos meus mais graúdos pecados.
Tenho meditado muito ultimamente
no meio humano como fina areia na praia.
Já nascemos com o pecado original,
o nascituro ainda mergulhado no líquido amniótico
traz consigo o pecado de origem.
Assim também ocorre com o banhista
incapaz de sair do mar sem se impregnar
por granulada areia.
O pecado adere a criatura como poluição sonora
que invade o sentido auditivo.
Mesmo os que têm vedação acústica auricular
recebem as tentações ainda que em menor volume.
Cristo morreu na cruz para nos redimir do pecado,
mesmo assim continuo pecando em proporções generosas
que o mais adequado seria também
ser crucificado numa cruz viva.
Ser pregado na forquilha de um torto e retorcido tronco de pequi,
na aridez do serrado, de modo que,
na medida em que a árvore vai crescendo e expandindo
também força e tenciona os meus membros,
gerando dores compatíveis com a remissão
dos meus mais graúdos pecados.
Tenho meditado muito ultimamente
para ver se aceito fazer uma "confissão premiada"
e quem sabe entrar no portal do além com pena reduzida.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
No topo
Subo a montanha meditando, escalando e falando com Deus.
Lá de cima, por onde olho vejo o encontro do céu com a terra.
O remoto é belo, longe fica a mais graciosa flor de cáctos.
Grande é a harmonia, nesses belos e ornamentais horizontes.
Muita falta me faz este ar puro das alturas e a lindeza também.
Enquanto o ar rarefeito garante uma vida de equilíbrio ao ser.
A rara flor, mesmo em meio aos espinhos, dá propósito ao viver.
No topo do pico, o suspiro profundo, leva a dor e limpa a mente.
Com fé oro ao criador, livrai-me Senhor de todas as tentações.
A oração decifra o enigmático ponto gravado na alma da gente.
Filho, o seu vale não é de lágrimas, seja resiliente, siga em frente.
És criatura do bem, pratique-o e de volta terá multiplicado bem.
As angústias, tensões e turbulências, vão passar, seja persistente.
Va à Mesquita junte-se a outros em louvor ao grande Criador.
Tenha fé, pois os seus sonhos e necessidades eu proverei.
Grande é a harmonia, nesses belos e ornamentais horizontes.
Muita falta me faz este ar puro das alturas e a lindeza também.
Enquanto o ar rarefeito garante uma vida de equilíbrio ao ser.
A rara flor, mesmo em meio aos espinhos, dá propósito ao viver.
No topo do pico, o suspiro profundo, leva a dor e limpa a mente.
Com fé oro ao criador, livrai-me Senhor de todas as tentações.
A oração decifra o enigmático ponto gravado na alma da gente.
Filho, o seu vale não é de lágrimas, seja resiliente, siga em frente.
És criatura do bem, pratique-o e de volta terá multiplicado bem.
As angústias, tensões e turbulências, vão passar, seja persistente.
Va à Mesquita junte-se a outros em louvor ao grande Criador.
Tenha fé, pois os seus sonhos e necessidades eu proverei.
terça-feira, 3 de abril de 2018
Utilidade pública
No dia vinte e quatro, próximo passado, jogava futebol com amigos, quando sofri um trauma no olho direito, o
mesmo que passou por uma cirurgia no segundo semestre do ano passado.
Sai do futebol direto para uma clínica especializada, lá fui
atendido, examinado, orientado e posteriormente liberado pela oftalmologista.
Na segunda retornei a clínica com fortes dores de parto normal naquele olho, como se estivesse parindo a própria córnea. Fui novamente atendido e
examinado, na oportunidade a médica constatou severa infecção no olho, receitou alguns medicamentos e repouso, liberou-me com retorno marcado para a
quinta-feira seguinte.
No dia marcado, lá estava de volta, segundo a doutora o
quadro infeccioso estava 50% melhor, então recomendou a continuação dos medicamentos por mais quinze dias. Perguntada sobre o fim do repouso e a
consequente possibilidade de retomar as atividades físicas, liberou-me para a partir de segunda-feira, voltar às atividades físicas, porém, de
forma moderada e consciente e na mediada em que os dias fossem passando, poderia ir intensificando o esforço desde que não surgissem desconfortos
importantes no órgão afetado.
Toda vez que sou submetido a um repouso, todo o
organismo parece entrar em greve pelo período da cessação das atividades, então
os órgãos se comportam preguiçosamente, com destaque especial para o intestino,
que assume a síndrome do carcereiro desidioso, em que mesmo tendo a chave e
alvará de soltura, insiste em não liberar o preso.
Foi então que nesta segunda, (02/04), com grande
demanda reprimida, iniciei o aquecimento para, moderadamente, conforme
orientação médica, retomar as atividades físicas.
A idéia era iniciar primeiro com alongamentos,
depois, uma corridinha de 10 KM, para uma vez aquecido, puxar
ferrinho, finalizar com abdominais e de novo, alongamentos. Assim, me alonguei
um pouco, desci e comecei a corrida, o primeiro trajeto, 2,5 KM, corrida de rua
de casa até o Parque do Sabiá, onde correria, 5 Km, finalizando com os 2,5
KM de volta a casa.
Percorrido o primeiro braço, cheguei ao parque e em
ligeira parada fiz dez barras, no que desci do aparelho e peguei a pista, o
carcereiro passou as chaves pelas grades, fazendo aquele chato e característico barulho.
Sem dar muita bola continuei a corrida, quando passei
pela jaula do leão, o carcereiro fez a leitura do alvará de soltura, fingi
normalidade e continuei no meu ritmo, contudo, por
uma questão de prudência passei a olhar para o lado a procura de um
buraco na cerca, mas já viu né, é mais fácil achar uma agulha no palheiro
do que um buraco em cerca de zoológico.
Passei então a mirar as árvores de quaresmeiras do outro
lado da pista, todavia, me valer delas como escudo traria um problemão e eu
precisava fazer uma ligeira e pouco ortodoxa escolha. Se usasse de proteção
uma daquelas espaçadas árvores ornamentais, que dista cerca de trinta metros
uma das outras ficaria coberto e abrigado dos olhares daqueles que andavam ou corriam na pista, porém totalmente exposto para os que circulavam à marginal da
BR 050, ali pra frente do Makro Atacadista.
Àquelas alturas, eu suava, corria e apavorado, procurava
um local mais discreto que pudesse omiziar e com isso minimizar o vexame que estava por vir, já
que não havia mais barreira capaz de segurar o preso de fuga eminente.
Vivendo aquele caos e absurdamente desesperado, ciente
de que aquilo "daria merda" mirei uma árvore mais grossa a uns
cinquenta metros à frente e decidi dali não passar, não seria
humanamente possível fazê-lo e seguir em frente sem cumprir a
decisão do habeas-corpus, a situação se mostrava totalmente fora de controle.
Quando me aproximava da árvore já sabendo que a
trincheira me protegeria apenas de uma face dos dois públicos, estava decidido,
me protegeria das vistas dos colegas de pista e com sorte a turma da marginal
não me lincharia.
Quando parecia não ter mais saída me
contorcendo de cólica, vi a aproximadamente cem metros a frente
dois sanitários químicos, então juntei os joelhos e com eles colados
rastejei-me até o paraíso, cheguei e como um esquadrão de forças táticas especiais,
emburaquei e deixei acontecer a felicidade que parecia plena, a
prioridade número um, que era fazer o dois se realizava, vivi ali naquele momento uma verdadeira explosão de contentamento.
Quando pude conferir mais amiúde o arrebento,
agora liberto é que constatei a grandeza do intestino, que ali se
fazia representado por uns 50 cm ou até mais. Ai é que vem a
pirâmide de necessidades de Maslow, em que satisfeita uma necessidade, o
interesse volta para a próxima e nesta hierarquia, quando ali cheguei nem me
passou pela cabeça a conferência da inexistência de papel higiênico no
ambiente, aquilo era absolutamente acidental, mas agora aquela passou a ser a necessidade mais premente, a número um.
Conferi cada detalhe daquela guarita onde o
guerreiro procurava a munição mais adequada para a limpeza, um pedacinho
de papel que fosse, mais nada, nem novo e nem com pouco uso, então fiquei ali desolado bolando um plano. Abri uma gretinha na
porta para ver se por perto, havia um pedaço de jornal, um sabuco velho, folha,
capim ou algo do estilo, e nada.
Foi então que sacrifiquei a companheira mais grudada em
mim, retirei a bermuda e cueca juntas, usei a cueca para a assepsia local e
pesaroso pelo fato dela ser muito jovem a descartei no cesto. De novo vesti a bermuda e mais
aliviado completei o percurso, digo mais aliviado porque a ferramenta antes
contida, justamente pela justeza da cueca, agora mais livre para também exercitar, alternava chicotadas, ora numa perna ora noutra.
PS: Tem outra ocorrência, noutro contexto, mas na mesma
linhagem na Leroy Merlin, em que... deixa pra lá, depois conto esta
também.
domingo, 1 de abril de 2018
RAIO X
Certa vez, numa destas turbulências da
vida,
ouvi de quem muito bem me quer,
que deixasse a angustia de lado,
pois deveria me orgulhar
da beleza interior da qual,
no seu entender era detentor.
ouvi de quem muito bem me quer,
que deixasse a angustia de lado,
pois deveria me orgulhar
da beleza interior da qual,
no seu entender era detentor.
Por uns cinco minutos fiquei
inerte,
petrificado como uma pálida estátua
usada de latrina pelos pombos
na praça dos três poderes.
petrificado como uma pálida estátua
usada de latrina pelos pombos
na praça dos três poderes.
Nestes poucos minutos
fiz uma viagem interior
para ver esse jardim do Éden
plantado na profundidade do meu ser.
fiz uma viagem interior
para ver esse jardim do Éden
plantado na profundidade do meu ser.
De início vi o ácido biliar deslizar pelo
estômago,
por onde passava destruía a massa alimentar,
que há poucos instantes atrás era
orgulho gourmet de aroma,
sabor e apresentação.
por onde passava destruía a massa alimentar,
que há poucos instantes atrás era
orgulho gourmet de aroma,
sabor e apresentação.
Para evitar aquela cena destrutiva,
estiquei o olhar para os rins,
contudo eles mais pareciam
cocô de cabras com intestino preso.
estiquei o olhar para os rins,
contudo eles mais pareciam
cocô de cabras com intestino preso.
Procurando a beleza interior
espiei também o fígado
de fibrosas barbatanas hepáticas
cansado pela peregrinação etílica,
parecia querer fujir da hidratação ardente.
espiei também o fígado
de fibrosas barbatanas hepáticas
cansado pela peregrinação etílica,
parecia querer fujir da hidratação ardente.
As válvulas do coração,
nobre moradia dos amores,
mais pareciam fio-o-fó de galinha
após o ritual do canto de postura.
nobre moradia dos amores,
mais pareciam fio-o-fó de galinha
após o ritual do canto de postura.
Quis mergulhar mais fundo ainda
e não só ver o meu eu interior superficial,
mas sim aprofundar um pouco mais,
penetrando no interior dos próprios órgãos,
iniciei pelo intestino grosso
só que ele havia trabalhado e noite toda
e estava na hora de descartar os rejeitos,
e foi assim, na teoria do caos total
em meio a forte odor,
que melancolicamente fui posto
para fora do meu eu interior.
e não só ver o meu eu interior superficial,
mas sim aprofundar um pouco mais,
penetrando no interior dos próprios órgãos,
iniciei pelo intestino grosso
só que ele havia trabalhado e noite toda
e estava na hora de descartar os rejeitos,
e foi assim, na teoria do caos total
em meio a forte odor,
que melancolicamente fui posto
para fora do meu eu interior.
Triste constatação
bastaram cinco minutos
para descobrir que estava na
“merda.”
bastaram cinco minutos
para descobrir que estava na
“merda.”
Franco é o olhar
Por vezes pareço sisudo,
pode ser que decorra da
caricatura profissional.
pode ser que decorra da
caricatura profissional.
Sou homem de posições duras,
atitudes firmes e personalidade forte.
Por muito que com volúpia agrado,
com pureza d'alma também enfado.
Evito contrariar, ainda assim contrario
ora agrado ora desagrado.
O meu amor é livre, simples, plural, fácil e farto,
amo a expressão corporal.
atitudes firmes e personalidade forte.
Por muito que com volúpia agrado,
com pureza d'alma também enfado.
Evito contrariar, ainda assim contrario
ora agrado ora desagrado.
O meu amor é livre, simples, plural, fácil e farto,
amo a expressão corporal.
Nada é mais sincero do que o olhar,
o olhar é portal sem porta
para os sentimentos explicitar.
O que as convenções da razão tentam esconder,
o olhar transcende a maquiagem e a faz borrar.
Então só acredito no discurso
que passa pelo crivo da visão,
do olho no olho, tete á tete.
A energia espiritual,
o olhar e expressão facial
são da verdade elementos nucleares.
Portanto, ainda que a declaração de amor
não saia pelo nó na garganta,
revele o seu no franco olhar.
o olhar é portal sem porta
para os sentimentos explicitar.
O que as convenções da razão tentam esconder,
o olhar transcende a maquiagem e a faz borrar.
Então só acredito no discurso
que passa pelo crivo da visão,
do olho no olho, tete á tete.
A energia espiritual,
o olhar e expressão facial
são da verdade elementos nucleares.
Portanto, ainda que a declaração de amor
não saia pelo nó na garganta,
revele o seu no franco olhar.
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