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quinta-feira, 19 de abril de 2018

Trabalho Infantil.

Quando ainda era pré adolescente trabalhei num bar de periferia. 
Era do tipo copo sujo ou puxa faca, dependendo da região.
Nem sei se isso é legal hoje em dia,
na tenra idade não se pode fazer mais nada!
Lá aprendi muita coisa pelo método pedagógico do reverso contraditório.
O boteco tinha mesas de sinuca, carteado e fregueses graduados
nas diversas variáveis incontroláveis da malandragem mais apurada.
Uma bandidagem acostumada a passear por todos os artigos do código penal.
Do lado havia uma casa da luz vermelha, fina flor do baixo meretriz.
No puteiro, uma janela grande e antiga de madeira maciça,
funcionava como uma espécie de outdoor do prostíbulo.
Nela estava escrito, (ipsis litteris)  a base de giz de cera, na cor lilás:
"puta nova, formosa e asseadinha, quase virjem, chegada a pouco de fora,
venha conhecer, conferir e provar, traja os amijos."
Eu achava muito estranho aquela troca do "g" pelo "j",
mas o acanhamento não me habilitava a corretor gramatical da zona.

Provavelmente a confusão tinha origem no idioma hibrido 
adotado pela cafetina paraguaia, dona e marqueteira do bordel.
Ainda assim, todos os dias, chegando e saindo do trabalho,
eu conferia para ver se a grafia tinha mudado, e nada.
Trabalhei uns dois anos naquela bodega 
convivendo com toda sorte de marginalidade,
inclusive com o assassinato do vernáculo pátrio.
Quando sai da putaria, sim putaria,
porque o boteco também o era por força atrativa.
Bem quando de lá sai, a frase continuava na janela, 

não só com o defeito de escrita,
mas também e principalmente com a propaganda enganosa.

Sim, porque mesmo esforçando
no aceite da pouco ortodoxa hipótese 
de ser a mulher dama de fato uma semi-virgem 
perpétua por herança genética.
Mesmo sendo grande o consumo do objeto colocado a venda, 
poderia a "moça" ter o chamado  hímen complacente,  
a literatura o admite sem exclusão, ainda que utilizado 
com grande rotatividade e afinco no pródigo negócio.
Porém não obstante admitir a missiva acima, 
mesmo não se poderia dizer sobre a moça ser recém chegada ao cabaré, 
com essa inverdade não dava para ser complacente.

Haviam pedras no meio do caminho

Por muito tempo andei descalço.
Uma vez ou outra dava topadas.
Em algumas, perdia a cabeça do dedo com unha e tudo.
Minha mãe, tia, vó e mais grandinho eu, 
revezávamos fazendo uma capanguinha com retalho de costura, 
vestia a carapuça no dedo lesionado 
e amarrava o que seria as alças do bornal no tornozelo.
A carapuça curativa ficava ali por semanas 
até desgarrar naturalmente, o que, quando ocorria,
geralmente a cabeça do dedo já estava reintegrada.
Desta época, algumas coisas me intrigam até os dias atuais:
Primeiro o por que as topadas davam preferência ao dedo machucado, 
nunca entendi essa insistente reincidência.
Segundo, por que quando passei a usar calçados, 
nunca mais fui visitado pelas tais topadas? 
Terceiro e mais absurdo, por que tenho saudades destas coisas?
Hoje ainda experimento tropeços, topadas não mais.

domingo, 15 de abril de 2018

Carne fraca

Jovem era o padre, viçosa a noviça.
Dois religiosos e um voto em xeque.
luta aguerrida entre hormônios.
Teste de fogo para a frigidez da castidade.
Toda abstinência nega a ordem natural.
No confessionário, uma comum confissão:
- Padre a ti não tenho mal querência.
- Isso é virtude, não pecado.
- E se por ti vier a ter bem querer?
- É generosidade e bondade sua.
- E o que devo fazer em penitência?
- Nada, só tens que assim continuar.
- Padre se não se se importar,
por segurança, um terço vou rezar,
e o bafo do mormaço afastar.

sábado, 14 de abril de 2018

Reminiscências Profissionais

Era ainda muito moço e me graduei na corporação. Atirava muito bem e nem foi aperfeiçoamento proveniente de instruções, acho que nasci assim, bom atirador. Devo ter herdado do meu pai, que era perfeito na pontaria. 
Por essa habilidade natural, me tornei instrutor de tiro e desenrolava o ofício bem, de forma satisfatória e prudentemente, como se deve ser mesmo no manejo de ferramentas tão letais. 
Assim ganhei o respeito de todos, gostava de ensinar e o fazia com prazer, discrição e humildade. A metodologia utilizada era a genuína força do exemplo, jamais cobrei de um aluno a realização de uma tarefa sem antes havê-la feito pessoalmente em demonstração. 
Em razão do bom desempenho fui convocado para fazer um curso de atirador de elite na capital. 
O curso foi ótimo, quatro meses estudando e praticando só nesse tema me extasiaram, ali vi o quão limitado era o meu conhecimento, numa matéria em que era um respeitado instrutor. 
Não só desmontei, montei e atirei exaustivamente com todos os modelos de armas, bem como as vi, em funcionamento nas entranhas viscerais, nos seus mínimos detalhes, pois para cada modelo havia uma com a carcaça em material transparente, justamente para que pudéssemos visualmente constatar a necessidade, função e eficácia de cada peça que compunham a respectiva arma.
Treinávamos pesado, passando por uma pista que simulava a realidade operacional, com diversos pontos de intervenção, tais como: atirar a cerca de cinquenta metros em um balão específico e pré-determinado, em meio a dezenas de outros balões com um tubo de ar os colocando em movimentos aleatórios e imprevisíveis para todos os lados, direções e profundidades, ora o seu balão alvo aparecia à frente, ora atrás, perpendicular e parcialmente aos lados, o disparo tinha que ser preciso e no exato momento em que o projétil não atingisse outros balões, às vezes era preciso esperar até quarenta minutos ali, imóveis e posicionados com o balão na massa de mira para que quando este mostrasse sem que outros estivessem no percurso do projétil, o disparo fosse efetuado. 
A partir desse curso, a instrução entrou noutro patamar de eficiência, passamos a dar treinamento de tiro também à noite com pouca visibilidade, com os alunos extenuados por exercícios físicos precedentes, sem dormirem, debaixo de chuva, com o alvo segurando refém como escudo, todos em movimento, dentre outros graus de dificuldades, nunca antes experimentados nas instruções.
Formei-me com louvor, recebi certificado e o emblema que agregou aos apetrechos da farda e muito orgulhoso voltei para as atividades, dentre elas, a de instrutor de tiro. 
O instrutor usava o mesmo corpo, mas a pessoa era outra, a discrição, sobriedade e humildade tinha cedido espaço para a soberba, então em míope autocrítica, "expunha-me a mim mesmo" pela falta de subsídios nas instruções dantes. 
E assim, todos os anos eu percorria diversas cidades do Estado, levando a minha proficiência e "show", no que era muito bem recepcionado, referendado e aplaudido por todos, dado a excelência e notoriedade alcançadas pelo jovem instrutor. 
Então, certa vez, numa quinta feira pela manhã, na cidade de Ituiutaba, no pontal do Triângulo Mineiro, durante aula teórica que precedia a prática, um dos profissionais ali presentes questionou-me a respeito de um disparo de um revólver que havia caído ao solo dias atrás. 
Do alto do saldo de quem tem domínio da passarela, vomitando infantil arrogância, lhe disse que isso não seria possível,  pois o retentor do cão só o liberaria para percutir a espoleta da munição e com isso permitir o disparo, no exato momento do acionamento da tecla do gatilho pela ação do dedo do atirador. 
O profissional reafirmou e ainda disse que o fato havia ocorrido com ele e que estava com a arma do citado evento  ali, então me apoderei do revólver, o municiei e solenemente dei uma pancada com o cão no piso para mostrar a impossibilidade técnica daquela ocorrência narrada. 
Para minha surpresa o disparo ocorreu, e foi com o rabo entremeio as pernas que sem entender o porquê daquilo é que desmontei aquela arma e constatei que o tal retentor do cão estava quebrado. 
Esse chá de realidade me devolveu a sobriedade e discrição importantes no exercício profissional. Pedi desculpas e nunca mais exerci a docência nessa área do conhecimento. Hoje não acredito em tudo que me dizem por aí, mas me dou ao direito de também não desacreditar em nada..

quarta-feira, 11 de abril de 2018

No período jurássico.

Quando ainda existiam aquelas maquinas de datilografia antigas, a gente escrevia com total segurança, há poucos meses vi uma daquelas ainda em atividade, em uma repartição pública numa cidadezinha do interior de Minas.

Enquanto aguardava o atendimento, escutava aquele barulho das letras batendo no papel, o famoso “cata milho,” ao mesmo tempo também matutava a respeito da longevidade daquela maquininha. Foi ai que me ocorreu à afirmação inicial do quão confiável e seguro era a operação de escrita numa relíquia daquela. 

Era muito bom escrever com elas, dava uma sensação de importância e por extensão de um poder extraordinário, a gente tinha segurança incrível ao usá-las, com elas dava para topar qualquer parada, até competíamos entre colegas para ver quem primeiro escrevia otorrinolaringologista. 

Depois vieram as elétricas e complicou um pouco, enquanto as antigas eram fielmente obedientes aos comandos do datilógrafo, isto é, era preciso bater na tecla com convicção, força e fé para o mecanismo levar a letra gráfica até o papel, de modo que, era possível apoiar e até deitar o peso das mãos sobre o teclado sem o dispare acidental das teclas. Já nas elétricas isso não veio possível, o que, acabava por gerar muitos erros de escrita por ação involuntária decorrente do contato não querido no teclado, contudo, nada que o barrinho branco não resolvesse. 

Na sequência surgiram os PCs com teclado periférico, mais adiante os laptops com teclados agregados, ambos com teclas mais sensíveis em que o digitador quase precisava prender a respiração, pois as letras são tão doces que basta pensar numa para que ela pule do teclado para a tela do computador. 

Agora esparramaram por ai como epidemia, celulares, notebooks, ipeds, tablets e tantos outros do gênero, com as telas touch screen, em que não há teclas, no formato, umas vizinhas das outras, com individualidade e musculatura física palpável, nem em 3D são, algumas quase invisíveis a olho nu. Então para escrever sem passar vergonha, tem que ser quase um atirador de elite, cuja mira e pontaria, apurada aferida o habilite a acertar cada letrinha individualmente, sendo estas infinitas vezes menores que as pontas dos próprios dedos que as garimpam na tela. 

Para piorar os aparelhos atuais trabalham com a ditadura da inteligência artificial, em que você escreve uma coisa e ele lhe impõe outra totalmente fora do contexto, sem falar os toques acidentais que sempre leva o digitador a tergiversar para rumos distantes do pretendido, com intervenções da maquina, muitas das vezes e quase sempre, desastrosas e até constrangedoras, do tipo: “meus parabéns pela parceria gay”, quando a grafia pretendida seria: “muito bem pela prataria, gostei”. 


domingo, 8 de abril de 2018

Diferentes e tão iguais


Era tarde de domingo e os médicos são acostumados a trabalhar em dia Santo.
Acho que pelo hábito o legista escolheu o domingo para exumação do rei, envenenado a cerca de cinco anos, pelo eunuco, um pobre negro castrado a canivete por vossa majestade em pessoa.
O negro serviu um quarto de litro de cicuta a sua alteza, o resto ele mesmo tomou no gargalo, morreram juntos, o negro foi enterrado uma semana antes, o rei só depois das reais honras fúnebres. 
A exumação também era de ambos, pois só a comparação da ossada dos dois, revelaria inequivocamente a coincidência da causa mortes. 
Os ossos do rei eram tão brancos como neve, exposto ao sol, até dava gastura às vistas, eram brancos não porque era rei, assim o eram, porque têm essa cor todos os ossos. 
Também os ossos do negro eunuco eram brancos como neve, expostos ao sol, igualmente dava gastura às vistas, eram brancos não porque era negro, eram assim, por que assim são os ossos. 
Os homens se faziam diferentes em face de ossos tão iguais, diante dos ossos do rei, os súditos abaixaram a cabeça em sinal de respeito à sua graça, aos do negro, tapavam o nariz e viravam de costas em repúdio.
O que ninguém sabia, e não era objeto de estudo do legista é que o coveiro, um inveterado alcoólatra, havia trocado as etiquetas das ossadas, de modo que o negro eunuco se tornou rei por um dia e recebeu todas as honras de realeza, dos súditos e da nobreza até de outros clãs, enquanto sua majestade, embora morto, “viveu” o desprezo no seu próprio reinado.
Apenas as formigas tratavam com isonomia aquelas ossadas, sem distinção ou preferência, vilipendiavam a ambas, devorando o tutano para estabelecer moradia no oco daquelas criaturas não menos ocas quando vivias.

Cruz viva

O pecado está esparramado por ai,
no meio humano como fina areia na praia.
Já nascemos com o pecado original,
o nascituro ainda mergulhado no líquido amniótico
traz consigo o pecado de origem.
Assim também ocorre com o banhista
incapaz de sair do mar sem se impregnar
por granulada areia.
O pecado adere a criatura como poluição sonora
que invade o sentido auditivo.
Mesmo os que têm vedação acústica auricular
recebem as tentações ainda que em menor volume.
Cristo morreu na cruz para nos redimir do pecado,
mesmo assim continuo pecando em proporções generosas
que o mais adequado seria também
ser crucificado numa cruz viva.
Ser pregado na forquilha de um torto e retorcido tronco de pequi,
na aridez do serrado, de modo que,
na medida em que a árvore vai crescendo e expandindo
também força e tenciona os meus membros,
gerando dores compatíveis com a remissão
dos meus mais graúdos pecados.
Tenho meditado muito ultimamente 
para ver se aceito fazer uma "confissão premiada"
e quem sabe entrar no portal do além com pena reduzida.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

No topo


Subo a montanha meditando, escalando e falando com Deus.
Lá de cima, por onde olho vejo o encontro do céu com a terra.
O remoto é belo, longe fica a mais graciosa flor de cáctos.
Grande é a harmonia, nesses belos e ornamentais horizontes.
Muita falta me faz este ar puro das alturas e a lindeza também.
Enquanto o ar rarefeito garante uma vida de equilíbrio ao ser.
A rara flor, mesmo em meio aos espinhos, dá propósito ao viver.
No topo do pico, o suspiro profundo, leva a dor e limpa a mente.
Com fé oro ao criador, livrai-me Senhor de todas as tentações.
A oração decifra o enigmático ponto gravado na alma da gente.
Filho, o seu vale não é de lágrimas, seja resiliente, siga em frente.
És criatura do bem, pratique-o e de volta terá multiplicado bem.
As angústias, tensões e turbulências, vão passar, seja persistente.
Va à Mesquita junte-se a outros em louvor ao grande Criador.
Tenha fé, pois os seus sonhos e necessidades eu proverei.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Utilidade pública

No dia vinte e quatro, próximo passado, jogava futebol com amigos, quando sofri um trauma no olho direito, o mesmo que passou por uma cirurgia no segundo semestre do ano passado. 
Sai do futebol direto para uma clínica especializada, lá fui atendido, examinado, orientado e posteriormente liberado pela oftalmologista. 
Na segunda retornei a clínica com fortes dores de parto normal naquele olho, como se estivesse parindo a própria córnea. Fui novamente atendido e examinado, na oportunidade a médica constatou severa infecção no olho, receitou alguns medicamentos e repouso, liberou-me com retorno marcado para a quinta-feira seguinte. 
No dia marcado, lá estava de volta, segundo a doutora  o quadro infeccioso estava 50% melhor, então recomendou a continuação dos medicamentos por mais quinze dias. Perguntada sobre o fim do repouso e a consequente possibilidade de retomar as atividades físicas, liberou-me para a partir de segunda-feira, voltar às atividades físicas, porém, de forma moderada e consciente e na mediada em que os dias fossem passando, poderia ir intensificando o esforço desde que não surgissem desconfortos importantes no órgão afetado. 
Toda vez que sou submetido a um repouso, todo o organismo parece entrar em greve pelo período da cessação das atividades, então os órgãos se comportam preguiçosamente, com destaque especial para o intestino, que assume a síndrome do carcereiro desidioso, em que mesmo tendo a chave e alvará de soltura, insiste em não liberar o preso. 
Foi então que nesta segunda, (02/04), com grande demanda reprimida, iniciei o aquecimento para, moderadamente, conforme orientação médica, retomar as atividades físicas.
A idéia era iniciar primeiro com alongamentos, depois, uma corridinha de 10 KM, para uma vez aquecido, puxar ferrinho, finalizar com abdominais e de novo, alongamentos. Assim, me alonguei um pouco, desci e comecei a corrida, o primeiro trajeto, 2,5 KM, corrida de rua de casa até o Parque do Sabiá, onde correria, 5 Km, finalizando com os 2,5 KM de volta a casa. 
Percorrido o primeiro braço, cheguei ao parque e em ligeira parada fiz dez barras, no que desci do aparelho e peguei a pista, o carcereiro passou as chaves pelas grades, fazendo aquele chato e característico barulho. 
Sem dar muita bola continuei a corrida, quando passei pela jaula do leão, o carcereiro fez a leitura do alvará de soltura, fingi normalidade e continuei no meu ritmo, contudo, por uma questão de prudência passei a olhar para o lado a procura de um buraco na cerca, mas já viu né, é mais fácil achar uma agulha no palheiro do que um buraco em cerca de zoológico. 
Passei então a mirar as árvores de quaresmeiras do outro lado da pista, todavia, me valer delas como escudo traria um problemão e eu precisava fazer uma ligeira e pouco ortodoxa escolha. Se usasse de proteção uma daquelas espaçadas árvores ornamentais, que dista cerca de trinta metros uma das outras ficaria coberto e abrigado dos olhares daqueles que andavam ou corriam na pista, porém totalmente exposto para os que circulavam à marginal da BR 050, ali pra frente do Makro Atacadista. 
Àquelas alturas, eu suava, corria e apavorado, procurava um local mais discreto que pudesse omiziar e com isso minimizar o vexame que estava por vir, já que não havia mais barreira capaz de segurar o preso de fuga eminente. 
Vivendo aquele caos e absurdamente desesperado, ciente de que aquilo "daria merda" mirei uma árvore mais grossa a uns cinquenta metros à frente e decidi dali não passar, não seria humanamente possível fazê-lo e seguir em frente sem cumprir a decisão do habeas-corpus, a situação se mostrava totalmente fora de controle.
Quando me aproximava da árvore já sabendo que a trincheira me protegeria apenas de uma face dos dois públicos, estava decidido, me protegeria das vistas dos colegas de pista e com sorte a turma da marginal não me lincharia. 
Quando parecia não ter mais saída me contorcendo de cólica, vi a aproximadamente cem metros a frente dois sanitários químicos, então juntei os joelhos e com eles colados rastejei-me até o paraíso, cheguei e como um esquadrão de forças táticas especiais, emburaquei e deixei acontecer a felicidade que parecia plena, a prioridade número um, que era fazer o dois se realizava, vivi ali naquele momento uma verdadeira explosão de contentamento.
Quando pude conferir mais amiúde o arrebento, agora liberto é que constatei a grandeza do intestino, que ali se fazia  representado por uns 50 cm ou até mais. Ai é que vem a pirâmide de necessidades de Maslow, em que satisfeita uma necessidade, o interesse volta para a próxima e nesta hierarquia, quando ali cheguei nem me passou pela cabeça a conferência da inexistência de papel higiênico no ambiente, aquilo era absolutamente acidental, mas agora aquela passou a ser a necessidade mais premente, a número um. 
Conferi cada detalhe daquela guarita onde o guerreiro procurava a munição mais adequada para a limpeza, um pedacinho de papel que fosse, mais nada, nem novo e nem com pouco uso, então fiquei ali desolado bolando um plano. Abri uma gretinha na porta para ver se por perto, havia um pedaço de jornal, um sabuco velho, folha, capim ou algo do estilo, e nada. 
Foi então que sacrifiquei a companheira mais grudada em mim, retirei a bermuda e cueca juntas, usei a cueca para a assepsia local e pesaroso pelo fato dela ser muito jovem a descartei no cesto. De novo vesti a bermuda e mais aliviado completei o percurso, digo mais aliviado porque a ferramenta antes contida, justamente pela justeza da cueca, agora mais livre para também exercitar, alternava chicotadas, ora numa perna ora noutra. 

PS: Tem outra ocorrência, noutro contexto, mas na mesma linhagem na Leroy Merlin, em que... deixa pra lá, depois conto esta também. 

domingo, 1 de abril de 2018

RAIO X

Certa vez, numa destas turbulências da vida, 
ouvi de quem muito bem me quer, 
que deixasse a angustia de lado, 
pois deveria me orgulhar 
da beleza interior da qual, 
no seu entender era detentor. 
Por uns cinco minutos fiquei inerte,
petrificado como uma pálida estátua 
usada de latrina pelos pombos 
na praça dos três poderes. 
Nestes poucos minutos 
fiz uma viagem interior 
para ver esse jardim do Éden 
plantado na profundidade do meu ser. 
De início vi o ácido biliar deslizar pelo estômago, 
por onde passava destruía a massa alimentar, 
que há poucos instantes atrás era 
orgulho gourmet de aroma, 
sabor e apresentação. 
Para evitar aquela cena destrutiva, 
estiquei o olhar para os rins, 
contudo eles mais pareciam 
cocô de cabras com intestino preso. 
Procurando a beleza interior 
espiei também o fígado 
de fibrosas barbatanas hepáticas 
cansado pela peregrinação etílica, 
parecia querer fujir da hidratação ardente. 
As válvulas do coração, 
nobre moradia dos amores, 
mais pareciam fio-o-fó de galinha
após o ritual do canto de postura. 
Quis mergulhar mais fundo ainda
e não só ver o meu eu interior superficial, 
mas sim aprofundar um pouco mais, 
penetrando no interior dos próprios órgãos, 
iniciei pelo intestino grosso
só que ele havia trabalhado e noite toda 
e estava na hora de descartar os rejeitos, 
e foi assim, na teoria do caos total
em meio a forte odor, 
que melancolicamente fui posto
para fora do meu eu interior. 
Triste constatação 
bastaram cinco minutos 
para descobrir que estava na 
“merda.”

Franco é o olhar

Por vezes pareço sisudo,
pode ser que decorra da 
caricatura profissional.
Sou homem de posições duras, 
atitudes firmes e personalidade forte.
Por muito que com volúpia agrado, 

com pureza d'alma também enfado.
Evito contrariar, 
ainda assim contrario
ora agrado ora desagrado. 
O meu amor é livre, simples, plural, fácil e farto, 
amo a expressão corporal. 
Nada é mais sincero do que o olhar, 
o olhar é portal sem porta
para os sentimentos explicitar.
O que as convenções da razão tentam esconder, 

o olhar transcende a maquiagem e a faz borrar.
Então só acredito no discurso 

que passa pelo crivo da visão, 
do olho no olho, tete á tete.
A energia espiritual, 

o olhar e expressão facial 
são da verdade elementos nucleares.
Portanto, ainda que a declaração de amor 

não saia pelo nó na garganta, 
revele o seu no franco olhar.