A dona nasceu com vocação garimpeira.
Na recepção evita o pleonasmo e nem bom dia dá.
Acomodada na sala de espera só se ocupa das boas coisas, menos paciência.
No consultório o médico de pouco cabelo, todos brancos, espia e anota.
O doutor poderia ser mudo, só lê exames e na ficha tudo transcreve.
Surdo é que não é, escuta as pancadas do coração, o chocalho do pulmão, o intestino nervoso e registra.
Incomodada a paciente impaciente tira um pacote de exames da bolsa azul turquesa.
O doutor de pouca conversa, pela primeira vez fala e pede o coagulograma.
A paciente inicia um auspicioso e interrogativo garimpo por adjetivos qualitativos elogiosos.
Apodera-se do 'pacotão' de exames e como uma legista em busca de provas, vai dissecando um a um.
Olha o colesterol doutor que maravilha, tá mais baixo que conduta de politico.
O senhor não é político não, né doutor? Olha essa glicose que beleza.
E a pressão hein, de menina né, o meu pai com oitenta também parecia um menino.
E tem esse, tem aquele, tem e tem... Tudo, todos e cada um muito bons, nunca tive nada.
O doutor se expressa pela segunda vez, estão bons, mas preciso mesmo do coagulograma.
Esse é o único que eu não tenho, mas nem precisa doutor, o meu sangue é muito bom.
O anestesista preenche o pedido do coagulograma, estende a mão esquerda e o entrega.
Doutor, só mais uma coisa. Quando vou passar pelo anestesista? O médico só abana a cabeça...
A garimpeira de elogios dispara, é que o senhor não fala, a sorte é que sei o quanto é raro encontrar alguém tão bem como eu.
O senhor sabe que já fiz muitas cirurgias e os seus colegas me dizem que estou muito bem...

Nenhum comentário:
Postar um comentário