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segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

HONRAS FÚNEBRES II

A sepultura ainda má alimentada, inerte e de boca aberta esperava impassível para devorar o “presunto”, servido frio no caixote de madeira.
Do lado, a ossada de distinto crânio aguardava pelo novo calouro que habitaria a república do buraco fundo.
O dog alemão faminto chegara antes do derradeiro ato solene e seletivamente  do crânio se apoderou.
Enquanto repunha os níveis de cálcio, abanava o rabo e de orelha em pé parecia desejar a proteína do morador prestes a chegar.
De novo me veio o pensamento sobre as origens, identidade, práticas e costumes de quem revestira aqueles ossos.
Sem os tecidos da face, era sorridente, todos nós o somos nessas circunstâncias, mais em vida como teria sido?
Provavelmente sisudo, viveu época de maior dureza em que delicadezas e sorrisos eram moedas de baixa circulação.
Talvez um daqueles que honrava a palavra com o próprio fio do bigode, em que a exigência de um contrato escrito era desconfiança ofensiva que se pagava com a própria vida no duelo.
Se assim o foi no passado, hoje, por ironia do destino, está ali sendo vilipendiado por um cão de rua, faminto e sarnento.
Também pudera, já não ostenta o bigode "asa de morcego", que lhe garantia poder e virilidade para resolver as contendas da vida.
Nem sei se era homem, se hétero! E se fosse uma delicada mulher da corte? Poderia até ser uma escrava da época de xica que nasceu aqui em Milho Verde.
Acredito que a definição do sexo seria possível através de uma perícia técnica, a tecnologia dos tempos modernos já permitem isso.
O sexo seria descoberta miúda, uma vez que restaria dúvidas de muito maior relevo e importância do tipo: 
Será que praticava? com que frequência? sentia e proporcionava prazer? Era uma alavanca que dava suporte à felicidade?
Meu Deus, como pode, nada sei, há coisas tão pequenas e simples que só consigo achar sem a menor convicção, 
Acho que esses ossos nunca foram ao teatro e nem ao cinema, embora possa ter lido Romeu e Julieta de Shakespeare.
Pode ser que descia e subia essas belas montanhas de Minas "de a pé" assim como eu, pois não sou de montar a cavalo, me incomoda impor esse sacrifício ao animal.
Sempre fiz questão de suportar o meu próprio peso, não me sinto confortável  em terceirizar ou transferir carga de minha obrigação.
O caixão ornamentado como um presente de natal, desceu os sete palmos em meio às orações, cantorias e palmas.
E cada um segue o ritual e com mãos desprotegidas apanham um punhado da terra fértil, atiraram sobre a entrega e cabisbaixos  saem em silêncio.
Um “bicudo” chuta o cachorro, assume o crânio roído, o atira com a ossada e a terra que sobra na cova, posiciona a coroa, finca a cruz, acende um cigarro de palha com uma binga velha, pega o litro pela metade de agua ardente, o bornal, e sai.
Aqui jaz um viajante agradecido que ora devolve o pó tomado por empréstimo, liberta e eleva o espírito para que a obra possa continuar...

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