A
sepultura ainda má alimentada, inerte e de boca aberta esperava impassível para
devorar o “presunto”, servido frio no caixote de madeira.
Do lado,
a ossada de distinto crânio aguardava pelo novo calouro que habitaria a
república do buraco fundo.
O
dog alemão faminto chegara antes do derradeiro ato solene e
seletivamente do crânio se apoderou.
Enquanto
repunha os níveis de cálcio, abanava o rabo e de orelha em pé parecia desejar a
proteína do morador prestes a chegar.
De novo
me veio o pensamento sobre as origens, identidade, práticas e costumes de quem
revestira aqueles ossos.
Sem os
tecidos da face, era sorridente, todos nós o somos nessas circunstâncias, mais
em vida como teria sido?
Provavelmente
sisudo, viveu época de maior dureza em que delicadezas e sorrisos eram moedas
de baixa circulação.
Talvez um
daqueles que honrava a palavra com o próprio fio do bigode, em que a
exigência de um contrato escrito era desconfiança ofensiva que se
pagava com a própria vida no duelo.
Se assim
o foi no passado, hoje, por ironia do destino, está ali sendo vilipendiado
por um cão de rua, faminto e sarnento.
Também
pudera, já não ostenta o bigode "asa de morcego", que lhe
garantia poder e virilidade para resolver as contendas da vida.
Nem sei
se era homem, se hétero! E se fosse uma delicada mulher da corte? Poderia até
ser uma escrava da época de xica que nasceu aqui em Milho Verde.
Acredito
que a definição do sexo seria possível através de uma perícia
técnica, a tecnologia dos tempos modernos já permitem isso.
O sexo
seria descoberta miúda, uma vez que restaria dúvidas de muito maior relevo e importância
do tipo:
Será que
praticava? com que frequência? sentia e proporcionava prazer? Era uma
alavanca que dava suporte à felicidade?
Meu Deus,
como pode, nada sei, há coisas tão pequenas e simples que só consigo achar sem
a menor convicção,
Acho que
esses ossos nunca foram ao teatro e nem ao cinema, embora possa ter lido Romeu
e Julieta de Shakespeare.
Pode ser
que descia e subia essas belas montanhas de Minas "de a pé" assim como
eu, pois não sou de montar a cavalo, me incomoda impor esse sacrifício
ao animal.
Sempre
fiz questão de suportar o meu próprio peso, não me sinto confortável em
terceirizar ou transferir carga de minha obrigação.
O caixão
ornamentado como um presente de natal, desceu os sete palmos em meio às
orações, cantorias e palmas.
E cada um
segue o ritual e com mãos desprotegidas apanham um punhado da terra
fértil, atiraram sobre a entrega e cabisbaixos saem em silêncio.
Um “bicudo”
chuta o cachorro, assume o crânio roído, o atira com a ossada e a
terra que sobra na cova, posiciona a coroa, finca a cruz, acende um cigarro de
palha com uma binga velha, pega o litro pela metade de agua ardente, o bornal, e
sai.
Aqui jaz
um viajante agradecido que ora devolve o pó tomado por empréstimo, liberta e
eleva o espírito para que a obra possa continuar...

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