Logo de manhã subo para ministrar os medicamentos de
Nestorzinho do museu, de Maria dos Anjos e de muitos tantos outros.
O movimento fora do cotidiano no cemitério, o tilintar
das ferramentas dos coveiros, prenunciam óbito, óbvio.
Quando esses dois laboram e sincronizadamente
movimentam, mais parecem bonecos a pilha, anunciando defunto fresco.
De um lado um cava, do outro, o outro cava também,
quando um levanta a picarete o outo abaixa e vice versa.
Na hora do almoço subo para a segunda bateria de
medicamentos, a movimentação está maior e o “de cujus” já tem nome.
A tarde tem mais remédio e volto, à sombra do
necrotério, já se formou uma pequena e desocupada aglomeração.
São homens, todos de chapéu, menos os coveiros de boné,
em cima de uma lápide, alguns litros de pinga, uns cheios outros mais desidratados.
De longe, escuta-se o barulho singular de gente
alcoolizada, que falam ao mesmo tempo, o que os obrigam impor pelo volume.
Causos, piadas, gargalhadas e até principio de briga,
tudo junto e misturado, e claro, nada compatível com o momento, mas era o que
tinha.
Um olhar mais amiúde sob os pés da tumba expunha um
sorridente e solto crânio, desolado sobre a sua própria ossada ali amontoada.
Pelo sorriso aquele ser, de passado incerto, parecia não
ter consciência de que logo mais seria despejado do seu minifúndio.
De quem seria os restos mortais, teria carregado homem
ou mulher? Era negro, pardo ou branco? Homossexual ou hétero? Pobre ou rico?
Ao cumprir a minha obrigação medicamentosa noturna, já
se formava uma turba no entorno do cemitério, até parecia movimento de
réveillon.
Por curiosidade procurei pelo sorriso caveira de mais
cedo, a ossada estava revirada e o crânio na posse de um dog alemão.
Se todos pudessem assistir os rituais fúnebres, da abertura
da sepultura ao derradeiro punhado de terra no caixão, não existiria
discriminação...

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