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sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Consulta com o anestesista.

A dona nasceu com vocação garimpeira.

Na recepção evita o pleonasmo e nem bom dia dá.

Acomodada na sala de espera só se ocupa das boas coisas, menos paciência.

No consultório o médico de pouco cabelo, todos brancos, espia e anota.

O doutor poderia ser mudo, só lê exames e na ficha tudo transcreve.

Surdo é que não é, escuta as pancadas do coração, o chocalho do pulmão, o intestino nervoso e registra.

Incomodada a paciente impaciente tira um pacote de exames da bolsa azul turquesa.

O doutor de pouca conversa, pela primeira vez fala e pede o coagulograma.

A paciente inicia um auspicioso e interrogativo garimpo por adjetivos qualitativos elogiosos.

Apodera-se do 'pacotão' de exames e como uma legista em busca de provas, vai dissecando um a um.

Olha o colesterol doutor que maravilha, tá mais baixo que conduta de politico.

O senhor não é político não, né doutor? Olha essa glicose que beleza.

E a pressão hein, de menina né, o meu pai com oitenta também parecia um menino.

E tem esse, tem aquele, tem e tem... Tudo, todos e cada um muito bons, nunca tive nada.

O doutor se expressa pela segunda vez, estão bons, mas preciso mesmo do coagulograma.

Esse é o único que eu não tenho, mas nem precisa doutor, o meu sangue é muito bom.

O anestesista preenche o pedido do coagulograma, estende a mão esquerda e o entrega.

Doutor, só mais uma coisa. Quando vou passar pelo anestesista? O médico só abana a cabeça...

A garimpeira de elogios dispara, é que o senhor não fala, a sorte é que sei o quanto é raro encontrar alguém tão bem como eu.

O senhor sabe que já fiz muitas cirurgias e os seus colegas me dizem que estou muito bem...

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

HONRAS FÚNEBRES

Logo de manhã subo para ministrar os medicamentos de Nestorzinho do museu, de Maria dos Anjos e de muitos tantos outros.
 O movimento fora do cotidiano no cemitério, o tilintar das ferramentas dos coveiros, prenunciam óbito, óbvio. 
Quando esses dois laboram e sincronizadamente movimentam, mais parecem bonecos a pilha, anunciando defunto fresco. 
De um lado um cava, do outro, o outro cava também, quando um levanta a picarete o outo abaixa e vice versa. 
Na hora do almoço subo para a segunda bateria de medicamentos, a movimentação está maior e o “de cujus” já tem nome. 
A tarde tem mais remédio e volto, à sombra do necrotério, já se formou uma pequena e desocupada aglomeração. 
São homens, todos de chapéu, menos os coveiros de boné, em cima de uma lápide, alguns litros de pinga, uns cheios outros mais desidratados. 
De longe, escuta-se o barulho singular de gente alcoolizada, que falam ao mesmo tempo, o que os obrigam impor pelo volume. 
Causos, piadas, gargalhadas e até principio de briga, tudo junto e misturado, e claro, nada compatível com o momento, mas era o que tinha. 
Um olhar mais amiúde sob os pés da tumba expunha um sorridente e solto crânio, desolado sobre a sua própria ossada ali amontoada. 
Pelo sorriso aquele ser, de passado incerto, parecia não ter consciência de que logo mais seria despejado do seu minifúndio. 
De quem seria os restos mortais, teria carregado homem ou mulher? Era negro, pardo ou branco? Homossexual ou hétero? Pobre ou rico? 
Ao cumprir a minha obrigação medicamentosa noturna, já se formava uma turba no entorno do cemitério, até parecia movimento de réveillon. 
Por curiosidade procurei pelo sorriso caveira de mais cedo, a ossada estava revirada e o crânio na posse de um dog alemão. 
Se todos pudessem assistir os rituais fúnebres, da abertura da sepultura ao derradeiro punhado de terra no caixão, não existiria discriminação...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

HONRAS FÚNEBRES II

A sepultura ainda má alimentada, inerte e de boca aberta esperava impassível para devorar o “presunto”, servido frio no caixote de madeira.
Do lado, a ossada de distinto crânio aguardava pelo novo calouro que habitaria a república do buraco fundo.
O dog alemão faminto chegara antes do derradeiro ato solene e seletivamente  do crânio se apoderou.
Enquanto repunha os níveis de cálcio, abanava o rabo e de orelha em pé parecia desejar a proteína do morador prestes a chegar.
De novo me veio o pensamento sobre as origens, identidade, práticas e costumes de quem revestira aqueles ossos.
Sem os tecidos da face, era sorridente, todos nós o somos nessas circunstâncias, mais em vida como teria sido?
Provavelmente sisudo, viveu época de maior dureza em que delicadezas e sorrisos eram moedas de baixa circulação.
Talvez um daqueles que honrava a palavra com o próprio fio do bigode, em que a exigência de um contrato escrito era desconfiança ofensiva que se pagava com a própria vida no duelo.
Se assim o foi no passado, hoje, por ironia do destino, está ali sendo vilipendiado por um cão de rua, faminto e sarnento.
Também pudera, já não ostenta o bigode "asa de morcego", que lhe garantia poder e virilidade para resolver as contendas da vida.
Nem sei se era homem, se hétero! E se fosse uma delicada mulher da corte? Poderia até ser uma escrava da época de xica que nasceu aqui em Milho Verde.
Acredito que a definição do sexo seria possível através de uma perícia técnica, a tecnologia dos tempos modernos já permitem isso.
O sexo seria descoberta miúda, uma vez que restaria dúvidas de muito maior relevo e importância do tipo: 
Será que praticava? com que frequência? sentia e proporcionava prazer? Era uma alavanca que dava suporte à felicidade?
Meu Deus, como pode, nada sei, há coisas tão pequenas e simples que só consigo achar sem a menor convicção, 
Acho que esses ossos nunca foram ao teatro e nem ao cinema, embora possa ter lido Romeu e Julieta de Shakespeare.
Pode ser que descia e subia essas belas montanhas de Minas "de a pé" assim como eu, pois não sou de montar a cavalo, me incomoda impor esse sacrifício ao animal.
Sempre fiz questão de suportar o meu próprio peso, não me sinto confortável  em terceirizar ou transferir carga de minha obrigação.
O caixão ornamentado como um presente de natal, desceu os sete palmos em meio às orações, cantorias e palmas.
E cada um segue o ritual e com mãos desprotegidas apanham um punhado da terra fértil, atiraram sobre a entrega e cabisbaixos  saem em silêncio.
Um “bicudo” chuta o cachorro, assume o crânio roído, o atira com a ossada e a terra que sobra na cova, posiciona a coroa, finca a cruz, acende um cigarro de palha com uma binga velha, pega o litro pela metade de agua ardente, o bornal, e sai.
Aqui jaz um viajante agradecido que ora devolve o pó tomado por empréstimo, liberta e eleva o espírito para que a obra possa continuar...

domingo, 7 de janeiro de 2018

Fragmento do diário

Em Milho Verde, há baixa vocação hídrica, nem sempre a caixa enche.
Aqui na pousada, quando enche pinga. Ultimamente, têm pingado toda noite.
É ouro o pingo d'água que anuncia caixa cheia na aridez deste agreste mineiro.
O reservatório enche sem hora certa, depende do consumo daqui e da vila.
Quando transborda pelo ladrão, as vezes estou acordado, outras vezes não.
Esta noite pingou as 3:38 e ainda assim, como noutros dias me achou desperto.
Com trajes que ultraja, apaguei dezenove lâmpadas e fechei o registro do precioso liquido.
É muita luz para apagar o medo de escuro dessa gente acostumada com as noites claras da cidade.
Quando desliguei a última, agradecida a lua brilhou aqui e deu contornos as montanhas no horizonte.
Aonde tem luz artificial, por fidalguia a lua não chega, seria abuso de poder e não gosta de constranger e ofuscar lamparinas  
Estava tão linda clara e brilhante que dava para ver o caro giro do hidrômetro.
Enquanto durmo a roda da vida gira e tira os melhores dias, apenas deixa uma sobra adormecida e sonsa.
No sono ou acordado, o cata-vento gira e sopra uma brisa que é só caricia e candura.
Enquanto os ponteiros dos hidrômetros, relógios e velocímetros bailam, nas contas danço.
Esse mês o Estado ainda não rodou a folha, mas todos os funcionários rodaram...

sábado, 6 de janeiro de 2018

Roda da Vida

No cotidiano muitas e diversificadas são as nossas preocupações.
A noite elas nos acompanham na cama com grande apego e convicção
Estão para o adulto de hoje, como estiveram para o menino de então, nas tarefas para casa, ditadas pela professorinha de alhures.
Quanto mais nos esforçamos para dormir, mais elas buliram nossas ideias.
É sempre depois das quatro e sem se despedir, que elas encerram a visita.
As cinco e quarenta, os pássaros tocam alvorada no frondoso jatobá nos fundos.
Não me irrito, as preocupações são companhias leais e perseverantes, ela nos mantem acordados ate que consigamos delas divorciarmos.
Já os pássaros poderiam dormir e deixar-me em repouso até um pouco mais tarde.
Mais são eles seresteiros da madrugada, e não tiveram a noite mal dormida que eu.
Durante o dia coloco em pratica algumas medidas para livrar-me das preocupações, é justamente ai que novas e mais gordinhas se apoderaram de mim.
Sei que hoje sera a mesma coisa, umas inquietações se foram mas outras se apegam.
Os pássaros por sua vez, só depois do horário de verão mais uma hora me darão.
Que vida mais sem sentido, se socorrida sem girar a roda da preocupação?

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

AMOR CARECE DE MANUTENÇÃO

O amor é o pai de todos os bons sentimentos.
É o mais nobre, forte e poderoso na hierarquia do bem maior.
Ele é o centro nuclear, a essência do nosso ser.
Todas as vértices humanas convergem dele, para ele, dele derivam.
O amor é a energia armazenada no bipolar hospedeiro humano.
Quando os polos estão conectados geram e ampliam essa energia sagrada.
Desconectados, cessa a transmissão, e, por conseguinte a geração do amor, que vai perdendo força e magia, entrando-se em colapso e falência afetiva.
Por outro lado, havendo conexão também haverá harmoniza, equilíbrio e o ser se enche de felicidade.
Enquanto o desconexo promove reação inversamente proporcional, em que a tristeza passa a ocupar o lugar antes preenchido pela felicidade.
O amor plugado é repleto de felicidade é essência divina comandando e dirigindo a própria alma.
Já o amor em que os polos se apartam, é só tristeza e amargura, impõe duro sofrer, muita das vezes, mutuo.