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Baseado no trabalho disponível em http://adelitobf.blogspot.com.br/.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

NA ROÇA

Era ainda menino pequeno, um franzininho porqueira.
Aquele farrapo de gente mal nutrida, em cima de um cavalo inteiro, ofegante que cheirava a suor,
Em meio ao gado, que, esparramado no terreiro do casarão antigo,  ruminava vida besta.
Lá de fora se via, da sala de assoalho à cozinha de terra batida, donde madrinha  alquimia fazia.
No fogão de lenha, uma carreira de panelas de ferro fumegantes e um bule esfumaçado na chapa, mais pareciam trem na estação.
Na rede do alpendre tal qual gado, o velho também ruminava, vida besta de gente.
Um boi cheira a intimidade da bezerra, vira a cara pro lado e ri.
Ali mesmo, sem cerimonias, da mostras de que vai pastar.
Deixa o capim e a novilha cobre.
O cavalo desconsidera a raça e a criança em cima si, entra no clima, e na vaca também sobe.
Não é madrugada, não carece despertador ainda,  mesmo assim ouve-se as três badaladas do relógio da sala.
Ao longe um galo canta, aqui o velho ronca, o cavalo rincha, o menino constrange, enquanto o boi ostenta vistosos  chifres...

TEMPESTADE INTERNA

Chove e lá fora tudo molha
Aqui dentro, só os olhos
A sequidão me consome
Lá as plantas ganham vida
Por cá, é crescente a amargura
De uma nostalgia que abunda
De cima vem água graúda
Embaixo, desliza pelo chão
Vem ácida e volta poluída
Vai enxurro de um choro contido
Lava e leva a poeira do meu ser
Enche e turva rio cristalino
Assim ninguém nada e nada vê
Pensamento moço navegante
Mergulha nas reminiscências
Tudo em volta silencia inerte
Seria um náufrago por querer?

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O SOPRO QUE TRAZ À VIDA

Quando falamos de poesia e o seu processo construtivo, nada é clássico, velho, contemporâneo, muito moderno ou futurístico demais.
Nesse sentido, a geração passada é apenas força de expressão semântica gramatical. Poesia é viagem subterrânea, em nível ou aérea, sem o prudente prévio plano de voo, conexões definidas ou cartas e mapas geográficos.
O norte poético surge da faísca explosiva, que rompe o casulo do pensamento em que se encontra, libertando-o da escuridão do cativeiro que o mantem refém das repetitivas rotinas do cotidiano é o resgate das ideias presas às sombras do filosófico "mito da caverna".
O trincar da semente fecunda de onde germina, brota e da vida a poesia, se dá no momento em que ocorre o desvio acidental da trilha convencional.
É preciso perder a referência do caminho certo e seguro, abortar o piloto automático para realizar o parto virtuoso da poesia, ela deve trazer a incógnita do incerto, deve surpreender e só se revelar quando vem ao mundo, após parto normal, longe dos auxílios técnicos obstétricos, pois não se faz poesia por cesariana.
Assim, de certa forma, o poeta é um parteiro artesão cuja relação com a cria se encerra no corte do condão umbilical, é este o último ato do poeta para com a poesia, a partir dessa ruptura a personalidade e força artística desta, se imporá, em função da relação com o tempo e os diversos níveis de leitores que a consumirão.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A ESPERA...


Bom dia amigos e amigas. E por falar nesse nobilitante desejo correspondido, estou desde bem cedinho no Centro Oncológico do Triângulo, na bela cidade de Uberlândia, do pujante Estado de Minas Gerais, abrigo do minério de ferro e celeiro das pedras preciosas, do livre trânsito poético e dos pães de queijo deliciosos.
Aqui se vive a excitação da fé, a euforia da esperança e a angústia incidental da letalidade recorrente. Todos esses sentimentos intrinsecamente e juntos, fervidos e processados no mesmo debilitado corpo, em que se movimentam e circulam o antagonismo das emoções, onde se aliam a quimioterapia e em formação de guerra progridem por sanguinolentos túneis arteriais, caçando e exterminando os "duros de matar" vírus do câncer, nesse mister há também muitas balas perdidas de fogo amigo, que acertam letalmente glóbulos vermelhos e brancos.
Precedendo a esta intervenção intravenosa, ainda no corredor de espera, há um ritual de manifestações de bons dias, um verdadeiro bombardeio iniciado pela muito gentil equipe do COT, que aos poucos vai se propagando entre pacientes e acompanhantes, numa verdadeira e contagiante corrente de certificação em que "gentileza gera gentileza". É bom dia prá lá, bom dia prá cá, é bom dia da equipe para com os pacientes e acompanhantes, bom dia entre pacientes, destes para com acompanhantes, entre acompanhantes e destes para com todos, bom dia repetido para quem já recebeu mas não guardou na memória e vice versa.
Eu ali assentado, assertivo e esperando, rememorando a minha timidez e consequente dificuldade de interativa comunicação, desloquei o pensamento reminiscente para o meu eu empreendedor então quero criar e patentear uma haste telescópica com uma placa eletrônica na ponta, na qual, há a possibilidade de se colocar a própria fotografia e uma cortês gravação de cumprimentos em qualquer idioma e ou dialeto usados ao redor do mundo, ao gosto e origem do interlocutor.

Desse modo é só deixar a "vara" em riste e esperar o afago, que, obviamente, será correspondido...