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domingo, 29 de janeiro de 2017

Saindo de mim

Sinto-me como um escravo a remar no porão de um navio negreiro, preso cativo, levando chibatadas, sendo atacado de todos os lados, em que a minha essência e vontade nada conta, me tornei um objeto cujo valor é proporcional ao que sou capaz de produzir e ou fazer em benefício de quem me tem a posse.
Desenvolvi a síndrome do boi gordo cujo valor reside no quantitativo do retorno mercantil possa dar.
Como não fui alcançado pela lei do ventre livre, o jeito é esperar serenamente por uma eventual carta de alforria, que, se vier pode também gerar inseguranças na medida em que não sei se sei ser nego livre...

Metamorfose


Um Falcão é sempre um Falcão, ele é enigmático e muito mais letal que o lobo, contudo goza de maior prestígio, uma vez que não sofre os mesmos preconceitos daquele.
Um velho Falcão quando percebe não ser mais o mesmo dantes, que os frangotes da sua espécie estão ocupando o seu espaço, voa para o alto da serra para meditar e refletir sobre a nova realidade que o tempo decreta ao decrépito.
Lá de cima pensa em se atirar, mas sabe que seria uma inócua tolice para quem flutua no ar, então diante de todo desarranjo visual e limitação física, não procura um veterinário, cirurgião plástico, mas com força, determinação e autossuficiência, opera alterações corretivas. Inicia-se batendo fortemente com o bico na rocha bruta até que se quebre para dar lugar a outro sem o grave desvio septo do antigo, já no pós-cirúrgico e de bico novo, utiliza deste para arrancar todas as penas arrepiadas, quebradiças e deformadas pela agressão do tempo, para que outras mais imberbes nasçam no lugar.
Por fim, de bico novo e recuperado, o utiliza para de maneira fórceps extrair as unhas que outrora o alimentava, iniciando-se assim o processo de revitalização e regeneração, próprias de todo indivíduo obstinado, uma verdadeira repaginada no velho que se fez novo.

Aí você me pregunta e daí? Qual é o moral da história? Eu vos digo, não sei, só sei que "partiu Pico do Itambé"...

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

CARDÁPIO DA SEMANA

Olho pra todo lado e o horizonte é lindo
Espio dentro de mim e o horizonte, nada
O entorno é todo vida e jorra fertilidade
Intrínseco eu estéril deserto puerpéril
Ao alto grasnam as gaivotas em revoada
Aqui dento, grita um coração à frieza humana
Ando por ai e sinto partículas de veneno tocar o rosto
Lanço olhar interior e a cicuta opera a sua fatalidade
No jardim a dama da noite é a que mais cheira
Ao fundo escuro, ventas abertas cheiram pó


Em cada quarto os casais derramam hormônios
Exalam cheiro da ceiva que jorra ao ápice do amor
No alto a águia observa tudo até centrar a caça
Como um avião de guerra dilacera a presa
O cheiro agora é de sangue tenro e fresco
E o fresco do meu coração também sangra
Difícil sempre será, aceitar e compreender
Que o saciar de  uns, é outros o morrer...


sábado, 21 de janeiro de 2017

Garimpo Embargado

No momento vivo o meu eu garimpeiro, tento insistentemente achar o que não guardei, pode ser até que nunca encontre, mas todo bom garimpeiro sempre segue adiante e continua a sua procura. Hoje é sábado e qualquer um que entenda minimamente de garimpo, sabe que sábado é dia de apurar e ver se o longo esforço empreendido será capaz de fazer o coração bater acelerado e a emoção tocar as estrelas.
De modo que é no sábado à tarde que as esperança se esvaem com as ultimas e seletivas peneiradas, primeiro bate-se a grossa, a mais cobiçada do minerador, é a rainha mãe, capaz de projetá-lo à nobreza, é o sim que vossa alteza dá ao pedido de casamento do súdito. Contudo, não foi agora, neste sábado a grossa só lançou pedras em abundante quantidade, capaz de intimidar o grande, Carlos Drummond de Andrade.
Na sequência bate se a peneira meiã, uma princesa feudal mediana, entretanto, quando vem traz grande alegria, o seu território não continental lhe limita os poderes, mas se for boa pode mudar a vida do garimpeiro, se ruim, muito pouco agrega, contudo, sem duvidas é melhor do que nada. Todavia nem boa, nem ruim fez visita neste sábado, nenhuma forma nem formosura, só pedra no meio do caminho.

Por fim, como derradeira esperança, vira-se a peneira fina, dela advém o alento de suprir as necessidades mais básicas, não habilita ninguém a frequentar a festa no palácio das ilusões, mas mesmo sendo incapaz de despertar grandes emoções, da certo prazer ao garimpeiro quando com ele flerta. Mas tá duro, tá osso e tá pedra, nem a dama de raquíticos poderes compareceu à banca, fazendo deste, um sábado de perda total.