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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Minha noite de cada dia


E a noite chegou, é deveras que veio com um certo atraso, ela sempre atrasa nesse período de verão, como de costume trouxe consigo o charme noturno e também a escuridão, que por sinal tem lá os seus encantamentos, na passada, dormi mal, sonhei e acordei, nesta, quero dormir bem, sonhar e acordar, dormir bem para recompor o corpo físico, sonhar para que o espírito se ocupe dos bem aventurados afazeres intangíveis à matéria e acordar no dia seguinte para recolocar o corpo em movimento e repaginar o sonho como instrumento de vitalidade aos mais nobres sentimentos que habitam o coração. Contudo, se está noite for insuficiente, amanhã outra virá, se aqui ela me encontrar, de novo ei de dormir, sonhar e acordar, a noite é pontual e inexorável, cheia de charme sempre chega no horário, assim e sucessivamente aqui voltará. O que talvez ela ainda não saiba, é que um dia desses aqui não estarei para as honras de boas vindas...




Um dia de Verão

E o dia chegou, com ele o brilho tropical 
O sol após passar pelo oriente, sorriu por a cá também, aqueceu por onde passou, deixou marquinhas insinuantes nas garotas de Ipanema e noutras ao redor do mundo, tatuou também o rosto do lavrador. Deixou marcas por onde passou, visitou cada canto do planeta, entrou pela janela da enfermaria do hospital do câncer, despediu de alguns, acenou para outros, esteve dentro do presídio de segurança máxima sem ser convidado, de lá saiu da mesma forma que entrou, diferentemente de uns e outros que lá estão que dependem de alvarás e carcereiros. Fui correr no parque, ele correu muito mais e quando cheguei já o encontrei no pódio, rolou um certo recentemente, tentei encará-lo de frente, como fazem os gladiadores modernos no "Vale Tudo," mas tive que recuar e desviar a visão, bastante cansado voltei, me instalei na sombra e daqui só saio quando a noite, parceria dos românticos e apaixonados voltar pra mim..






domingo, 18 de dezembro de 2016

Olhar metafisico por detrás das cortinas.

As vezes me surpreendo olhando o horizonte. É um olhar manso, sem expressão definida que permita fácil leitura, apenas se mostra perdido na amplitude donde o céu e a terra se encontram. Quem vê até pensa ser falta do que fazer, mas no além, sinto uma alma irmã sobre a passarela existencial, ela vai indo, nem de galope nem devagar, só vai. Então as circunstancias faz com que os meus sentidos revisite os conceitos mais inflexíveis para aceitar a relativação do imponderável, quão intrigante situação, que criatura mais estranha, parece não ter pressa, que rumo e destino tomará? Ergo as mãos para acenar, mas está tão distante e mesmo que se perto estivesse, distraída como parece ser, a mim não veria. Ao que sei, espíritos não desfilam por si só, dependem e representam alguém por quem se entregam e se dão, precisamente aquele se impunha autônomo e independente que nem sei se tem de fato algum tutor, pelo jeito pode ser uma daquelas, largadas por ai, em que o representado nega-lhe valor e apreço.


domingo, 4 de dezembro de 2016

Nós Dois

A homenagem de hoje vai para o interprete, cantor e compositor mineiro, o meu amigo, Tadeu Franco, também estendo a presente homenagem às pessoas que sabem que amar é preciso e que economizar no amor, é uma atitude ante cristã, Jesus nos ensinou a amarmos uns aos outros, portanto o amor nunca pode ter as amarras da coisa privada, que aprisiona as pessoas e restringe o ato de amar, nunca permita o atrofiamento da sua capacidade de amar...























A natureza das coisas

É chuva que cai pra mais de uma semana, hoje mais intensa do que noutros dias, antes só uma garoa, agora a precipitação é mais forte, ainda assim chove da melhor maneira, da forma como o homem do campo gosta, ela cai de mansinho tal qual a semente de ipê, de modo que não estraga lavouras, não arranca telhas, não assusta os anciões. Por outro lado, germinam as sementes, não só as do ipê mas também todas as outras, inclusive as das esperanças de que as nascentes voltem a jorrar, de que o amor proibido se permita e aflore correspondido. Também as pragas se propagam, as ervas dos malucos sobem como leões no cio. 
Esse inverno no verão de Milho Verde, nos arremete à reflexão de que, faça chuva ou faça sol, o mundo vai copular a fornicação é essência da lei natural, o tempo só muda a intensidade e a qualidade dos cruzamentos, nem sempre há enxerto, as relações contemporâneas costumam ser estéreis, por vezes consistem em só "relar" mesmo, isso sim assombra os anciões e seus métodos mais ortodoxos...

Saudades

Saudades de uma extremidade a outra, indivíduos singulares que buscam pluralidades de sentimentos. Saudades dos que foram, saudades dois que aqui ficaram, saudades que como as ondas do mar, vaem e vêm, saudades daqui pra lá, saudades de lá pra cá. Corações que se procuram, espíritos que se conectam, sentimentos entrelaçados que se multiplicam, no contexto, escolhas possíveis insurgem plantadas no improvável campo das probabilidades, voltem logo ou não tão logo lá vou eu...

 
 

Retrato d'álma

Adicionar legenda
Não estou indo para Pásargada
Nem quero ser amigo do rei
Quero paz no meu coração
Mas o meu coração não quer paz
Não vou para o "Vale das esperanças"
Lá há corações com ternura e muita paz
Outros frios como gelo e duros como aço
A lua me traz calma, candura e certo alento
Com carinho alumia os meus sentimentos
Mas em meio a tempestade não me quer
Nem se enche frondosa pra eu ver
Se um foguete eu tivesse 
Partiu lua, poderia até dizer
Mas ta escuro não vejo a chegada
Também não encontro a saída
Sem outra opção fui pra dentro do meu ser
Lá chegando, fui atendido pelo eu estranho
De susto, quis voltar e esconder
Hã se virasse-me aos avessos 
Iriam ver quão feio sou ou pareço ser...



(Adélito, sem o que fazer. Udia, 01/12/16)

sábado, 26 de novembro de 2016

Monte Olimpo



O sol se punha, "a boca da noite" se preparava para engolir a várzea do lajeado e todo o seu monumental complexo "arquitetônico", ali por perto um uivado triste, possivelmente um lobo solitário, também eu solitário e igualmente lobo corria pela vegetação rasteira, era preciso acelerar o ritmo pois a cerca de três quilômetros as primeiras luzes do povoado de Milho Verde se acendiam e não seria prudente correr no escuro sem ver por onde se pisa, cobras venenosas são comuns naquela área e seria perigoso até mesmo para mim cujo próprio e concentrado veneno poderia servir de soro antiofídico. 

Por um instante tive a nítida impressão de que estava sendo seguido, não dei importância, mesmo porque na mais absoluta e aparente solitude, nunca estou só, mas o vulto daquela esquia e elegante senhora, toda encoberta por um denso manto, que há protegia do vento frio que soprava da várzea do lajeado, chamou-me a atenção, a estranha senhora se punha em sentinela assentada bem a frente do monte olimpo, imaginei se tratar de Cleópatra a espera de Ptolomeu que partiu para a guerra sem sequer se despedir, para nunca mais voltar.

Esqueci das cobras e perigos afins, ali na companhia de sua alteza, permaneci por um longo período remontando a história da humanidade dos últimos 2083 anos. Estava eu correndo, sem vinho, ou qualquer outra substância capaz de alterar o pensamento humano, de modo que o combustível dessa viagem foi possível tão somente com a endorfina proveniente da intensa atividade física daquele dia que precedeu este devaneio.

Mão de Zeus



Em Milho Verde, os colaboradores iniciam a jornada de trabalho mais cedo e obviamente também encerram os trabalhos mais cedo, às 16:00 horas já se foram. Para dar mais utilidade a este bom pedaço de dia que ainda me resta, tenho realizado corridas nas montanhas. Hoje foi o dia de vistar a Serra dos Santos, já que os Santos propriamente não visito pois sempre estão comigo. O batismo daquela serra foi muito apropriado, porquanto de uma clarividência extraordinária, os Santos lá estão, os espíritos iluminados, santificados, ali se agrupam em colônias. Para o convencimento dos mais céticos eles se materializaram e ali perfilam em formação rochosa, cristalizados, petrificados, protegidos pela intervenção divina e pelas leis dos homens. Portanto naquele ambiente, sabiamente não se tolera a intervenção humana, mas a minha inquietude e rebeldia jorrou forte como cachoeiras de Milho Verde depois do grande temporal, pois em um gesto singelo, porém atrevido, ingressei um sexto dedo à mão de Zeus, um quirodáctilos, adulterando a perfeição original, gestando uma falsa polidactilia, com isso, por alguns instantes a perfeição daquela obra de arte perdeu a harmonia e o equilíbrio divinos, o homem, particularmente este, pichador do monumento  ainda tem um longo caminho de aprendizado e crescimento espiritual, para se habilitar merecedor e capaz possa vir a ser, imagem e semelhança de Deus...

sábado, 20 de agosto de 2016

O TEMPO E O CONTEXTO DAS COISAS

O novo não bateu em retirada mas é o velho que esta em alta

O jovem jamais editará a moda retrô, ela pertence ao velho
Bem ali ao lado da nova capela do rosário, réplica da igreja antiga
Pessoas com algum avanço no tempo, expõem os seus carros de anos Antão
São automóveis cuja ecleticidade expõem as vísceras do improvável
Alguns surgiram antes mesmo do invento das estradas largas
Eles e suas travessuras rasgaram as primeiras travessias
A maioria foi lancada quando ainda não havia motéis
A própria inexistência dessas casas, revela a sua versatilidade
São relíquias de valor sentimental, que recebem tratamento especial
Descartada será a hospedaria que tão somente o dono acolher 
Na garagem, o novo vai pra rua e o ancião tem vaga preferencial
Quão bonito é a diversidade de gosto e a pluralidade dos homens...

A ESPERA DA LUA CHEIA

Hoje vou esperar pela lua como um apaixonado espera por sua amada, é noite de lua cheia, sua presença é inexorável, ela nunca falta a um encontro, hoje em especial virá toda produzida, abusada sem ser vulgar, entrará no meu quarto, sem cerimônias e o fará pela porta dos fundos, aquela mais discreta da sacada da pousada. Me encontrará com o coração palpitante, tomando um bom vinho e com a máquina fotográfica na mão, registrarei tudo, depois, ah depois público aqui, embora sejamos confidentes, não temos segredos...
Como podem ver a lua não estava muito espetaculosa para grandes apresentações, não desfilou moda praia, nada de lingerie, preferiu um insinuante porém comportado look da aridez asiática, uma despojada burca paquistanesa, mesmo assim se manteve poderosa e elegante.





domingo, 29 de maio de 2016

Frio da lascar, não exatamente do Alaska

Quando se leva uma vida simples, as atitudes e comportamentos também o são, as coisas do dia a dia passam a nos visitar sem a alta e pesada carga das grandes complexidades, de tal modo que os minguados problemas quando chegam já trazem consigo no bornal o mapa/receita da resolutividade.
 Nesta noite fria de outono travei uma verdadeira nano batalha com os ventos gelados que deslocam do Pico do Itambé e absolutos sobrevoam a várzea do lajeado, onde absolvem o orvalho da vegetação rasteira para se abrandarem nos aconchegantes braços das singelas vielas do Distrito. 
 Estava eu entrincheirado numa das suítes da Pousada Cachoeiras de Milho Verde,  (www.facebook.com/pousadacachoeirasdemilhoverde/) os termômetros marcavam três graus, no entanto como a edificação está no mesmo nível da várzea de frio polar, separada apenas por uma depressão  geográfica do fundo da fonte do meio, a sensação térmica indicava menos quinze. 
 O chamativo e muito aconchegante estabelecimento é o primeiro da vila naquele sentido de nivelamento com o lajeado, de modo que se transformou na principal barreira e cartão de visitas que se encarrega de recepcionar as poéticas e gélidas correntes que habitam as comunheiras das montanhas de Minas.  
 Na parte de baixo da porta de madeira da suite em que ocupava, de cima da cama e embaixo de três edredons, incrédulo eu via a fumaça branca invadir o quarto, era como se houvesse esfregado uma lampada mágica e ali, bem  à minha frente perfilava um gênio de turbante e fumaça que três pedidos me concedia.
 Pensei logo em pedir que fechasse  uma janela esquecida aberta que de tempo em quando batia e eu acordava, dormia e ao sabor das suas pancadas de novo despertava, quando ocorria, ir lá fechar eu bem que queria, mas o frio não permitia e de novo dormia e acordava, lá não ia resolver a uma simples questão e arriscar uma hipotermia.
 Decidi me abster desse pedido, não poderia desperdiçá-lo por algo tão banal, até cheguei a pensar que o barulho nem fosse de uma só janela aberta, mas quem sabe de todas elas aplaudindo a dança do vento com a garoa "fina e fria" quão modelos em desfiles. 
 Requerer a cessação da valsa, até me ocorreu, mas não seria adequado e nem conveniente, como separar aquele pobre par cujo encontro só se dá nas noites frias de outono? Não seria fidalgo da minha parte usar um pedido para uma mesquinha crueldade vil. 
 De novo desperto ao agudo som, desta feita eram os pedreiros chegando para o labor diário e o primeiro deles sem atender qualquer pedido, num decisivo e voluntário gesto nobre  a janela fechou, nobre mas em vão porque naquelas circunstancias já não mais poderia dormir...

quarta-feira, 4 de maio de 2016

I D E N T I D A D E

"Registro feito do mirante da Pousada Cachoeiras de Milho Verde"
I D E N T I D A D E
A vida é assim, a morte também
Hoje se chega, amanha se vai além
Nesse contexto por um curto período se mantem
O tempo não para e não espera por ninguém
Apenas segue indelével e implacável no seu curso
Ele é imponderável às realizações pessoais
Isto ou aquilo é irrelevante ao rumo e trajetória
Ele só vai e vai só, passando e a travessia realizando 
Tudo o que é do homem, com o homem se vai
As realizações que elevam o espírito, tem dono e o segue
Aquilo que contaminam a alma também, e a ela se adere
As posses e  obras materiais são daqui e daqui não saem
Muito do que se esconde, quase sempre corrompe
Aquilo que abunda pode ser que não convém
A essência genuína do ser, por si só se impõe 
E essa é a única identidade que nos apraz.
Adélito, 04/05/2016.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

TRAVESSIA


TRAVESSIA
Era um, era outro
Um bebia muito, o outro também
As vezes um parava e o outro seguia
Do nada um retomava, o outro se abstinha
Hora sim hora não, bebiam as vezes não
Se revezavam como corrida de bastão
Quando um hibernava, outro temia
Por vezes era o outro quem mais enxugava
Um logo receava e vice versa
Hoje foi muito triste
Um que já há muito não mais bebia morreu
Desencarnou na ilusão de que fora primeiro, à frente do outro
O outro não sabia e não saberá, já estava morto
Só que ninguém o houvera achado ainda
Coube a mim o triste encontro
Que Deus receba e acolha os dois na paz de Cristo
Aqui jaz, dois vizinhos amigos que juntos fizeram a travessia
Milho Verde, 16 de abril de 2016. Adélito Barroso