O sol se punha, "a boca da noite" se preparava para engolir a várzea do lajeado e todo o seu monumental complexo "arquitetônico", ali por perto um uivado triste, possivelmente um lobo solitário, também eu solitário e igualmente lobo corria pela vegetação rasteira, era preciso acelerar o ritmo pois a cerca de três quilômetros as primeiras luzes do povoado de Milho Verde se acendiam e não seria prudente correr no escuro sem ver por onde se pisa, cobras venenosas são comuns naquela área e seria perigoso até mesmo para mim cujo próprio e concentrado veneno poderia servir de soro antiofídico.
Por um instante tive a nítida impressão de que estava sendo seguido, não dei importância, mesmo porque na mais absoluta e aparente solitude, nunca estou só, mas o vulto daquela esquia e elegante senhora, toda encoberta por um denso manto, que há protegia do vento frio que soprava da várzea do lajeado, chamou-me a atenção, a estranha senhora se punha em sentinela assentada bem a frente do monte olimpo, imaginei se tratar de Cleópatra a espera de Ptolomeu que partiu para a guerra sem sequer se despedir, para nunca mais voltar.
Esqueci das cobras e perigos afins, ali na companhia de sua alteza, permaneci por um longo período remontando a história da humanidade dos últimos 2083 anos. Estava eu correndo, sem vinho, ou qualquer outra substância capaz de alterar o pensamento humano, de modo que o combustível dessa viagem foi possível tão somente com a endorfina proveniente da intensa atividade física daquele dia que precedeu este devaneio.


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