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segunda-feira, 10 de julho de 2023

Codicilo II

Hoje peco contra eu e ao próximo,
tudo, pelo quão defeso é a vida. 

Quando morrer, não hei de querer muitas coisas, só caprichos.
Nem de caixão preciso, ser velado com os olhos abertos
me basta.
Quero o gostinho de ver os covardes no covil, desviar o olhar do olhar meu.
Olhos que marcham em fuga
pois sabem do muito que deles sei 
e até as perversões de outras vidas,
agora também me vêm.
Tenho os meus próprios pecados,
alguns prediletos e inconfessáveis,
a sorte e privilégio é morrer primeiro.
Não quero ser enterrado, o pouco apetite da terra para carne podre
não os pouparia do mal cheiro e presença inútil.
Quero ser cremado, e assim pagar os primeiros pecados, não com os olhos abertos, há de ser com eles fechados e tampão no nariz, não me apraz ver e sentir o cheiro ardente de carne queimada, temperada a base de flor, cravo e parafina.
Assim, como mágica, ligeiramente queimar os pecados, e voltar ao pó dentro de uma caixa de sapato como nasci.

terça-feira, 12 de julho de 2022

Pecado, perdão e conveniência.

 Quero dormir meia noite inteira.

Sem nada sonhar, só sono, puro sono e só.

Sem correr riscos, sonhos flertam com o travesso.

No adiantado da segunda metade da noite.

Dormindo ou acordado, há na noite hipocrisia, capricho e pudor.

A mesma da beata Perpétua, irmã de Tiêta, cria de Jorge Amado.

Um pudor que misture o sacro ao malicioso e obsceno.

Não com a ingenuidade dos animais que só copulam no cio.

Mas aquele com o pincel da arte voraz da volúpia humana.

De virilidade veterana com identidade e força motriz própria.

Em que a razão conta nos dedos períodos férteis para plantar.

Em que o prazer explode ao deposito da semente na cova irrigada.

No final, quando do picadeiro as tremulantes cortinas se fecham.

Os aplausos se misturam ao cheiro, suor e sêmen que ainda pinga...

segunda-feira, 11 de julho de 2022

"Nu Instituto de pesquisa".

Passei as duas metades dessa noite  no laboratório.
Estou testando um novo e revolucionário tipo de amor.
Um sentimento muito diferente, da até então clássica porem ultrapassada forma de amar.
Por enquanto não posso adiantar muita coisa, o novo amor ainda não foi patenteado.
Falo baixo porque há muitos espiões do velho amor por ai, não quero que o novo seja roubado antes do registro autoral.
Muito reservadamente e só para você posso dizer que os primeiros experimentos tem se mostrado promissores.
Teremos shows segmentados e pirotecnias no lançamento, algo que atenda ao exigente publico científico.
A estimativa é que o novo amor será majoritário no mercado, já na primeira semana pós testes.
Em um ano, apenas uma meia dúzia de conservadores se manterão na anacrônica  forma de amar.
Testes com ratos de laboratório, têm se mostrado bastante exitosos, o que nos deixa substancialmente otimistas.
Macacos voluntários nos tem procurado para testes, entretanto, estamos avaliando os seus sistemas cardiovasculares, com o prepósito de mensurar se os coraçõezinhos primatas suportarão o volume e intensidade do novo amor.
A turma do velho: Telenovelas, cinema pastelão, poetas, cantores, compositores, associações e sindicatos afins  já ajuízam ações com intuito e impedir o avanço da pesquisa.
Eu particularmente não vejo chances de que tais prosperem, conheço bem a corte e desconfio que o instinto de preservação dos onze cavaleiros negros impere.
Os ratos de teste, estão produzindo cinco vezes mas melanina e vinte vezes mais endorfina e quando os ratos estão felizes, de tudo fazem para manter inalterado esse status cor.

domingo, 29 de novembro de 2020

A ESPERA

Não se trata simplesmente de uma vida vegetativa.
Vegetal cresce próspera, lança galhos, espalha ramas e florece.
Trata-se de um corpo sem movimentos que padece, cuja única expressão facial é suor e dor.
Um espírito prisioneiro incapaz de se revelar pela inexistência de consciência.
Um velório contínuo de dias e dias, noites e noites de muita dor, angústia e amargor.
Uma massa que não pode ser enterrada, embora já apresente alguma rigidez cadavérica.
Sonho com uma missa, um culto, feitiço ou macumba que te levante e faça correr.
Frequentemente choro, nem precisaria ser por vós que amo, choraria por uma gaivota se nas mesmas condições de ti.

domingo, 18 de outubro de 2020

UM MÊS

Hoje faz um mês da malfadada cirurgia da Celina.
Cúmplice, ajudei-na a se trocar e a deitar na maca.
Como Judas, dela me despedi com um beijo na testa.
Foram dez horas, muito tempo e trabalho para um anúncio cruel.
Ela escolheu os melhores profissionais e a estrutura referência.
Em tese a melhor opção para o mais lúgubre resultado.
Hoje sobrevive a custa de remédios e aparelhos mecânizados.
Não escuta, vê, fala, nem acorda, só lhe restou um olhar assustado.
Já eu ouço o que não quero, porém a surdez não me apraz.
Vejo o que não convém, pois a cegueira que há em mim muito me basta.
Falo e assim machuco o coração de quem deveria amar. 
Só que a mim ninguém ajuda a respirar, pensar, dormir ou cantar.
Quero o incomodo de um aparelho vil cuja dor me faça desamar.
Não desejo alzheimer, mas apenas uma máquina do esquecimento.
Sonho com o retorno do sono dos justos, sem nunca ter sido.
Fortalecer a alma? Não! Os glúteos pois passo as noites assentado.
Daqui prá frente vou ser diferente, não sei se quero ser gente.
Prefiro enfrentar os maus, porque os benignos são de matar.
Estou carente do narcisismo, de me encarar no espelho e alto elogiar.
Há trinta dias que não me vejo e muito mais que não me encontro.
Tá lá uma bactéria assassina aproveitando da frágil criatura.
Eu sem paramentar a cutuco, mas a covarde não enfrente mal maior.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Por onde andas?

Me aproximo e o coração palpita.
Seguro a tua mão e você nem aí.
Te olho nos olhos e eles fechados, apenas uma lágrima no direito.
Perguntas lhe faço e respostas não veem.
Não faz sentido, os seus sentidos não sentirem.
Tem lua nascendo lá fora e ai dentro nada.
O sol vai e volta e sua quietude me sacode.
Sei que tem bom coração, vejo passando na tv.
Apitos me incomodam, agora apavoram.
A vida zigzagueia no monitor ao lado.
Há buracos e mangueiras prá todo lado.
No externo da cabeça costuras, por dentro, uma incógnita.
Em casa todos em coma, nós com a desvantagem da consciência.
Ninguém desentende, já eu sei que nada sei.
Até que em fim, procuro e não encontro a lógica.
Na minha lógica, a lógica nasce do outro lado da vida.
O cactus floriu, você não o viu, ele não  espera quem dorme.
Quanta ironia, você não acorda e eu não durmo.
Um dia vou dormir e quando acordar te vejo.

terça-feira, 30 de junho de 2020

Sinistro dia.

Hoje foi típico dia melancólico por aqui.
Sem sol, sem sal, só o frio em visita solene ao povoado.
Tudo em volta revelava o lado sombrio da currutela.
Brilho não se via nos diversos e variados tons de cinza.
Pelas ruas apenas algumas galinhas de pescoço pelado,  e chuva fina.
Nas cinzas das fugueiras de festas passadas, dormiam raquíticos vira latas.
Bovinos ruminavam fumaça, pareciam fumantes da erva proibida.
Cavalos estáticos com a bunda virada pro vento frio, fingiam se de estátuas.
Os coqueiros do rosário entrelaçavam suas folhas ao ritmo do vento fúnebre.
Os meninos não saíram para brincar, o tempo inóspito também os puniam.
Uma máscara de chita floral rolava pela rua, presa a um carotinho vazio.
Na venda uma porta entreaberta e um estrado mijado impedia o acesso.
Lá dentro, cachaça com cobra dentro e um copo sujo, com a borda enfeitada de vivas moscas.
A velha pipa quase nua se debatia presa no alto da torre, a espera de um resgate.
Do outro lado da linha, a esperança de que dias melhores virão e a lindeza por aqui apareça.