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segunda-feira, 1 de junho de 2020

Última

Há tempos que só escrevo cartas de via única que vão sem correspondência.
Por isso, o meu coração amputado vai cumprir isolamento social, descalço limpando, varrendo e remando.
Assim ganhará musculatura, dureza, calos e ainda cicatriza as feridas das chicotadas.
Quando voltar escreverei poesias generalistas, porque plural é a vida.
Poesia terna porém amarga, de poeta  recém liberto do cárcere em ressocialização.
Versos sutis como o andar de um paquiderme, escritos em braille para poclamar na escuridão.
Falarei do homo sapiens, não na dialética platônica, nem no cartesianismo de Descartes.
Revelarei em versos e prosa o bom, bem, belo e justo, pelo fio da navalha que coloca as vísceras humanas no chão.
Não falo daquela punhalada certeira de misericórdia que atravessa o coração já acostumado à dores maiores.
Mas da pele rasgada cujos bofes arrastam pelo  esterco do curral e o sangue se mistura a urida ocre do gado.
Banhado em sangue e se contorcendo de dor o poeta já sem fala, escreve  no sal grosso do cocho, "última."

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