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terça-feira, 30 de junho de 2020

Sinistro dia.

Hoje foi típico dia melancólico por aqui.
Sem sol, sem sal, só o frio em visita solene ao povoado.
Tudo em volta revelava o lado sombrio da currutela.
Brilho não se via nos diversos e variados tons de cinza.
Pelas ruas apenas algumas galinhas de pescoço pelado,  e chuva fina.
Nas cinzas das fugueiras de festas passadas, dormiam raquíticos vira latas.
Bovinos ruminavam fumaça, pareciam fumantes da erva proibida.
Cavalos estáticos com a bunda virada pro vento frio, fingiam se de estátuas.
Os coqueiros do rosário entrelaçavam suas folhas ao ritmo do vento fúnebre.
Os meninos não saíram para brincar, o tempo inóspito também os puniam.
Uma máscara de chita floral rolava pela rua, presa a um carotinho vazio.
Na venda uma porta entreaberta e um estrado mijado impedia o acesso.
Lá dentro, cachaça com cobra dentro e um copo sujo, com a borda enfeitada de vivas moscas.
A velha pipa quase nua se debatia presa no alto da torre, a espera de um resgate.
Do outro lado da linha, a esperança de que dias melhores virão e a lindeza por aqui apareça.


quinta-feira, 25 de junho de 2020

Alto estima em baixa

Nos últimos tempos fui sistemáticamente atacado por piratas saqueadores da felicidade.
No momento estou substituindo o velho e avariado casco de aço da autoestima por outro de fibra de carbono, mais moderno, leve e resistente.
Em breve saio do estaleiro para uma navegação segura sob a bandeira da alegria genuína e do tradicional  sorriso sincero estampado  no rosto.
Reencontrarei os saqueadores, contudo em contra partida, os retribuirei com candura  e bambúrrio que lhes abunda.
E assim de porto em porto navegando eu vou, até que um dia chegue a Pasárgada ou quem sabe Persépolis, Ecbátana, Masasa... etc. 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Catarse

Não é, mas bem que poderia.
Bom seria uma unicidade dupla.
Bem minimalista, dois em um.
Uma mistura heterogênea de convergências múltiplas.
Dois corações que pulsam no impulso mas não se entrelaçam.
Almas siamesas, separadas nos detalhes dos entalhes.
Pensamentos que  buscam um ao outro mesmo quando vagantes.
Sentimentos navegantes que se encontram no meio do caminho, um indo e o outro vindo.
Que cruel acidente é esse que nos mutila e nos arremessa para longe?
Os meus sentidos não fazem sentido, se não lhe tem no radar.
Hoje só hoje, me realizaria estar com você:
Ver o seu rosto de olheiras, livre de corretores.
Para mim, lindeza  não se altera nem se corrige.
Sentir a pureza do seu cheiro, sem interferência de perfumes.
A sua essência aromática natural converte poderes cujo o frasco não faz.
Tocar a sua pele macia, sem o revestimento fashion dos trapilhos.
Ouvir o sussurro da voz, mas também entender o  silêncio d'alma.
Te submeter ao quinto sentido, pois sei o quão pode ser palatável.
Suas crenças herméticas não diverge do sonho acordado.
Esse seu olhar transmuta e revitaliza, conduz um decrépito ao renascimento.
Ainda que efêmero, tem um sorriso que eterniza e se faz perene.
Mesmo diante de toda evidência, a dúvida de quem duvida persiste. 
Por quê?

domingo, 7 de junho de 2020

A magia de uma estrela.

O morador em situação de rua, tomou o último golo da garrafa de álcool que havia ganhado do policial para fazer a assepsia das mãos pois vivia tempos assombrosos do covid-19, ajeitou o biombo de papelão, fez a sua prece rotineira, puxou para cima de si o velho jornal de classificados. 
Embora bem agasalhado pelo efeito etílico demorou a pegar no sono, uma vez que o frio congelante o assolava.
Era noite de céu estrelado e para se distrair passou a contar estrelas, de repente uma candente cortou o espaço deixando uma trilha em forma de parábola em sua memória. 
Supersticioso e cheio de fé, imediatamente fez um pedido para ser suprido no que fosse a sua maior carência. 
Então passou a viajar nas reminiscência de como chegou àquela situação degradante, da fome que doía o estômago, da falta de abrigo e o frio insuportável, do descaso das pessoas, da falência no casamento e se sentiu incomodado por pedir algo tão difícil, pois nem ele mesmo sabia ao certo qual era a sua maior carência.
De repente, do nada percebeu uma sombra se aproximando, limpou os olhos turvos e viu uma bela moça com pouca mais de 30 anos, de pequena estatura, com o mais lindo sorriso que já vira, aquela lindeza estontiante vestia decentemente, o que não era comum naquele local e horário, mais parecia um anjo em forma de gente. 
A graciosa moça delicadamente agachou-se e tocou ao seu ombro direito lhe dizendo: não se assuste vim lhe trazer o quê encomendastes às estrelas, você tem frio, primeiro vou te aquecer depois cuido do resto, então aquela fada deitou se ao lado daquele indigente e passou a mostrá-lo de onde veio e os nomes e temperamento de cada uma de suas irmãs estrelas, na medida em que docilmente falava, habilmente acariciava aquele rosto maltratado e com barba por fazer, e então ela aproximou se vagarosamente e deu lhe um longo beijo, o pobre agora feliz senhor sentiu a doçura daqueles lábios de mel, a maciez aveludada de uma língua mágica, e a estrela em forma de mulher passou a fazer carícias por todo o corpo daquela criatura que já não mais sentia frio.
Percebendo a sua excitação, aquela lindeza divina assentou se sobre o pedinte e se conectou lentamente ao abjeto ser, e ali ela como uma amazona cavalgava num cavalo ruim de sela, com volúpia movimentava se como ondas reversas e vibrantes de pororoca, serpenteando à sua maneira sobre aquela carcaça humana, sem contudo permitir ajuda da dita criatura, dizendo que ele deveria se manter passivo pois ela tinha domínio da situação e sabia exatamente o que estava fazendo no atendimento da sua súplica.
Quatro horas se passaram sem nenhuma interrupção naquela  ação magica em que a diva perpassava pelas mais diversas e variadas posições e tudo desenrolava maravilhosamente bem, sempre sob iniciativa e comando da fantástica e deliciosa mulher.
Totalmente realizado e esgotado com a explosão de prazeres, o homem em um dos momentos mais intensos e mágico viu outra estrela riscar o céu, desta feita fazendo o percurso inverso só aí se deu conta de que estava de novo sozinho olhando as estrelas no céu como fizera antes.
Aquele sujeito mal trapilho, se sentindo o homem mais feliz do mundo, bateu os dois joelhos ao chão, agradecendo  e gritando alto se dizendo abastado e realizado, apontava o céu, donde mostrava uma brilhante estrela piscando, dizendo ser àquela dentre muitas, a sua namorada. 
A polícia foi chamada devido a algazarra àquelas horas da madrugada. Na abordagem policial o pobre homem pedia aos militares mais álcool pois precisava  da chave que o permitiria encontrar mais uma vez com o grande e verdadeiro amor da sua vida.
Hoje vive ele em um manicômio, no alto de uma colina,  onde todas as noites deixa o aconchego da sua cama para dormir no pátio, olhando as estrelas à espera do seu único amor.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Última

Há tempos que só escrevo cartas de via única que vão sem correspondência.
Por isso, o meu coração amputado vai cumprir isolamento social, descalço limpando, varrendo e remando.
Assim ganhará musculatura, dureza, calos e ainda cicatriza as feridas das chicotadas.
Quando voltar escreverei poesias generalistas, porque plural é a vida.
Poesia terna porém amarga, de poeta  recém liberto do cárcere em ressocialização.
Versos sutis como o andar de um paquiderme, escritos em braille para poclamar na escuridão.
Falarei do homo sapiens, não na dialética platônica, nem no cartesianismo de Descartes.
Revelarei em versos e prosa o bom, bem, belo e justo, pelo fio da navalha que coloca as vísceras humanas no chão.
Não falo daquela punhalada certeira de misericórdia que atravessa o coração já acostumado à dores maiores.
Mas da pele rasgada cujos bofes arrastam pelo  esterco do curral e o sangue se mistura a urida ocre do gado.
Banhado em sangue e se contorcendo de dor o poeta já sem fala, escreve  no sal grosso do cocho, "última."

Não é Aqui

Te ver e não te querer é improvável, é impossível.
Deus queira que muito não dilate.
Não basta, mas apraz tão só te ver.
Te tocar é sonho e luxo proibido.
Quando tudo passar, espero viver para o sonho realizar.
Os meus sentidos sem você nem fazem sentido.
Maldita quarentena que finge proteger.
É abjurante a proteção, se o coração não acolher.
Dentro dos seus braços é que se fica seguro.
Ultrajante a máscara que impeça o sabor de um beijo.
Não é barreira física e sim de consciência e natureza espiritual.