Diamantina é uma lindeza de cidade incrustada na serra do espinhaço, tal qual uma pedra preciosa grudada na pinha.
Cada casarão antigo, substituiu a vivência dos nossos ancestrais nas cavernas.
Na região, ainda é comum encontrar um ou outro ermitão vivendo em buracos de serra como mocós.
Desde as seis da manhã estamos com pai no pronto atendimento, que, em certa medida é também uma caverna no porão da Santa Casa.
Esse terreno serrano irregular faz nascer um porão/caverna em cada endereço urbano.
Muitos escritórios, consultórios, ateliê, lojinhas e botecos funcionam nesses cubículos.
À noite nos botequins de porão nos vários becos da cidade, artistas de hábitos noturnos tocam e cantam belas melodias ao vivo.
Os boêmios, e são muitos, passam a maior parte do dia no ambiente sombrio desses botequins. Duvidam da realidade sóbria das ruas, são criaturas de porão que vivem o mito da caverna.
Na recepção do pronto socorro o movimento está intenso, viaturas dos bombeiros e SAMU se revezam na portaria.
Há por aqui muita gente verdadeiramente necessitada de imediato acolhimento, mas também existem manhosos fazendo turismo neste nosocômio.
Não há cadeiras disponíveis para todos na recepção e nem funcionários suficiente para o atendimento.
Para suprir essa necessidade assumi de certa forma a triagem e virei uma especie de piloto de cadeira de rodas, cuja linha consistia em buscar no estacionamento aqueles com dificuldades locomotoras.
Agora está mais tranquilo, então aproveito a larga espera para escrever um pouco.
No momento vejo gente doente de verdade, de todas etnias, de vários cantos, de muitos municípios, um povo de nomes excêntricos que chega a bizarrice.
Têm muitos enfermos simples e solidários, todavia as vezes cai de paraquedas uns "narizes empinados" que tentam dar carteirada.
Noto a presença de pessoas mansas e de fino trato atendendo e sendo atendidas, tem também o oposto de ambos os lados.
Um ancião muito decrepito, de fala pra dentro e cansada quis saber qual era o meu candidato, não achei adequado revelar, pois percebi que só queria retribuir o favor, porquanto foi um dos que carreguei para dentro.
A minha permanência em espera acaba entrar no interregno de oito horas, de modo que já fechei um turno e nem sei quando isso acaba.
Os problemas da saúde vão da alta complexidade à questões extremamente simples mas que podem ser desastrosas.
O exemplo disso é que a rampa de acesso é bem íngreme, a cadeira de rodas tem as manetes emborrachadas para dar firmeza na empunhadura, ocorre que elas estão desgastadas relaxadas, no meu primeiro carreto quase perdi o paciente, por pouco não fico só com as manetes de borracha nas mãos enquanto a cadeira disparava rua abaixo com o enfermo, seria cômico se não fosse tão grave.
Ops! Chamaram o meu pai. Fui
