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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Um dia no Pronto Atendimento

Diamantina é uma lindeza de cidade incrustada na serra do espinhaço, tal qual uma pedra preciosa grudada na pinha. 
Cada casarão antigo, substituiu a vivência dos nossos ancestrais nas cavernas. 
Na região, ainda é comum encontrar um ou outro ermitão vivendo em buracos de serra como mocós. 
Desde as seis da manhã estamos com pai no pronto atendimento, que, em certa medida é também uma caverna no porão da Santa Casa. 
Esse terreno serrano irregular faz nascer um porão/caverna em cada endereço urbano. 
Muitos escritórios, consultórios, ateliê, lojinhas e botecos funcionam nesses cubículos. 
À noite nos botequins de porão nos vários becos da cidade, artistas de hábitos noturnos tocam e cantam belas melodias ao vivo.
Os boêmios, e são muitos, passam a maior parte do dia no ambiente sombrio desses botequins. Duvidam da realidade sóbria das ruas, são criaturas de porão que vivem o mito da caverna. 
Na recepção do pronto socorro o movimento está intenso, viaturas dos bombeiros e SAMU se revezam na portaria. 
Há por aqui muita gente verdadeiramente necessitada de imediato acolhimento, mas também existem manhosos fazendo turismo neste nosocômio. 
Não há cadeiras disponíveis para todos na recepção e nem funcionários suficiente para o atendimento. 
Para suprir essa necessidade assumi de certa forma a triagem e virei uma especie de piloto de cadeira de rodas, cuja linha consistia em buscar no estacionamento aqueles com dificuldades locomotoras. 
Agora está mais tranquilo, então aproveito a larga espera para escrever um pouco. 
No momento vejo gente doente de verdade, de todas etnias, de vários cantos, de muitos municípios, um povo de nomes excêntricos que chega a bizarrice. 
Têm muitos enfermos simples e solidários, todavia as vezes cai de paraquedas uns "narizes empinados" que tentam dar carteirada. 
Noto a presença de pessoas mansas e de fino trato atendendo e sendo atendidas, tem também o oposto de ambos os lados. 
Um ancião muito decrepito, de fala pra dentro e cansada quis saber qual era o meu candidato, não achei adequado revelar, pois percebi que só queria retribuir o favor, porquanto foi um dos que carreguei para dentro. 
A minha permanência em espera acaba entrar no interregno de oito horas, de modo que já fechei um turno e nem sei quando isso acaba. 
Os problemas da saúde vão da alta complexidade à questões extremamente simples mas que podem ser desastrosas. 
O exemplo disso é que a rampa de acesso é bem íngreme, a cadeira de rodas tem as manetes emborrachadas para dar firmeza na empunhadura, ocorre que elas estão desgastadas relaxadas, no meu primeiro carreto quase perdi o paciente, por pouco não fico só com as manetes de borracha nas mãos enquanto a cadeira disparava rua abaixo com o enfermo, seria cômico se não fosse tão grave. 
Ops! Chamaram o meu pai. Fui

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Adversidade

As adversidades da vida encaro de frente.
O resultado não tem grande importância.
O enfrentamento faz crescer a dignidade.
Vencer ou perder são só circunstâncias.

Quando o assunto é estética me desconserto.
Acho melhor apreciar a beleza pelo retrovisor.
A visão invertida deforma a imagem nivelando as aparências.  
A feiura predileta vejo no espelho de casa.

E por falar em lindeza genuína falemos de animais.
A Bonita sofre as intemperes do tempo frio lá fora.
Na pata dianteira uma avançada bicheira.
Não é minha mais cuido dela assim mesmo.

O Bilú está com cataratas, surdez e artroses.
Antes não tinha nada disso, era só virilidade.
Tem mais filhos esparramados por ai que  Mr. Catra.
Agora anda devagar mesmo sem ler Almir Sater.

Todos dizem que o Pitoco é mau caráter.
Só porque faz covardia com os pequeninos.
O pobre nasceu sem uma orelha e ouvido entupido.
Eu não o considero mau, é só um cachorro surdo.

As galinhas andam soltas pelas ruas de Milho Verde.
E elas nem comem milho, pastam gramas como cavalos.
Nenhum deles, nem o dito mau caráter comem galinhas.
Por aqui os que comem amanhecem com formigas na boca.
Nós e os galos comemos galinhas, nem por isso nos matam.

O Pirata era muito namorador mas não comia galinhas.
Sumiu de repente, anoiteceu e não amanheceu sem deixar vestígios.
Ele era grande cão ator, figurou no filme "Além do Homem".
Prefiro acreditar que foi para Hollywood receber a estatueta.

A Têtê também não é minha.
A conheci de noite na pousada.
Era madrugada e batia na porta.
Fui atender era ela, foi amor a primeira vista.
Sempre me visita quando aqui estou.

A Magia morreu sem comer galinhas.
Ela era especial, não por ser manca.
Mas porque era boa mesmo, ela e Laila.
As duas amigas morreram nas minhas mãos.
Lembro-me delas e a tristeza abunda.

domingo, 9 de setembro de 2018

ESSE CARA SOU EU

Vivo a parte de vida que ainda me resta
Em meu corpo silente existe alma falante
Já vivi a outra parte bem maior que esta
No homem sensato há coração apaixonado.

Toda literatura me expande
As poesias me excitam
Sou um pouco do que leio
E muito do que me recitam.

Antes eu vivia a neologia dos fragmentos
Hoje vivo a condensação do interstício
No mesmo dia choro, sorrio, me calo e grito
A vida amarga me empurra no precipício
Doce vida na candura de lá me tira.

Os dias me consomem
A ignorância também
As estações orientam
A sabedoria encanta.

No abismo me fortaleço
Na guerra ensaio
Em Milho Verde reinvento
Por ai eu saio, levanto e caio.

Se me perguntarem onde estou
A resposta é o que sou
Em algum lugar promissor
Nem aqui nem lá, mas lá e cá.

sábado, 8 de setembro de 2018

Viúvo é quem Morre

Como de costume, tentou uma aproximação silenciosa em meia marcha, com mãos sensivelmente cirúrgicas manteve a manete a um quarto de aceleração, estacionou na minúscula garagem ocupando alinhamento bissetriz perpendicular de modo a não prejudicar o espaço do outro, retirou o capacete, com charme e elegância singular, abanou a cabeça dando movimento e volume aos cabelos longos. Com leveza, cansadamente subiu os cinquenta e três degraus da escadaria, mesmo com o coração fechado ao próprio propósito abriu a porta principal, esperou os maus presságios baterem em retirada carregando consigo o pesado fardo das energias mundanas, só então entrou, mesmo assim ainda percebeu o retardo de uma sombria presença o que lhe causou arrepios.
Elevou o pensamento prontamente acolhido lá no alto, dependurou às chaves no terceiro gancho de seis existentes ali no pequeno quadro à direita da porta, dirigiu-se ao escritório donde se desfez da pesada mochila, entrou no quarto do casal bem ao lado, retirou o coturno de quem outrora saira da fila do saquinho para estrear vida nova de terráqueos, deitou-se, cruzando as pernas em formato de x, bloqueando toda e qualquer forma de invasão na área restrita, elevou os braços e sobre eles apoiou a cabeça. 
Mesmo sem intenção, o olhar foi automaticamente direcionado à parede de frente, lá, com carinho observou uns chapéus dependurados desordenadamente, esboçou um angelical sorriso e se entregou em reminiscências, pois conhecia todas as historias tiradas de dentro daquelas cartolas, muitos ali não só lhe protegera das intemperes do tempo mas também e sobretudo lhe abrigava dos olhares insanos da cobiça, suspirou profundamente e por um instante pensou que havia amor e que poderia ter dado certo não fosse as prestações de contas alhures, deu de ombros e virou as costas à sua potencial fonte de nirvana.
Mais uma vez foi tomada pelo monopólio dos pensamentos mais obscenos, chegou a entrar em transe meditativa, por um instante um filme passou por sua cabeça, viu passeios, diálogos, muitas convergências e também algumas divergências, sentiu harmoniosa sintonia e até conexão divina no casamento, tentou vigorosamente manter as lembranças distantes dos desejos carnais conforme lhe convinha, mas sentiu raiva de si mesma, pois não só relembrava de tais momentos como viu o seu corpo reagir e os hormônios emergirem, desejosos por sentirem o calor e o peso de macho sobre si. 
Naquele momento reviveu o encantamento, o sabor e o cheiro da fumaça dos gênios, uma inebriante nevoa do seu homem ópio viciante, se esforçou para não tragar por inteiro, pois a penetração lhe causaria dependência psicológica e física. Na oportunidade sentiu um calor tomar conta do seu corpo, notou que a sua intimidade reagira àquela viagem de um sonho acordado, desceu as mãos na direção pubiana, percebeu que mais parecia um alagado pântano e então orgasmos múltiplos e sucessivos foram inevitáveis.
Em meio àquela confusão mental, o choque de realidade bateu à sua porta sem cerimônia ou qualquer outro tipo de sutileza. O seu amor já encurtado, desgastado e colocado em cheque convalescia, então num ato de piedade resolveu o presentear com uma espécie de derradeiro agrado, assim sendo se liberou ao toque físico e até ao contato íntimo se fosse o caso, porém na sua singularidade do seu pensamento o aceite seria uma generosidade movida pela dó, em que poderia ficar alheia ao ato em si. Desse modo e com este espírito, assim se portou, se sujeitando ao que viria a ser a última relação, estando ela apenas e tão somente de corpo presente.
Diferentemente do entusiasmo e desejos sempre presentes no campo do imaginário, o ato propriamente se deu na pauta da formalidade, ortodoxia e pragmatismo donativo, nenhum desejo lhe ocorreu, sem graça e sem prazer, nada sentiu, se não dor, desconforto e mau estar. O cheiro forte e ;acido de sangue, causou-lhe enjoo, então decidiu que aquela seria a ultima transfusão permitida. O odor venoso se estendia pela mais longa noite cujo mundo conheceu em que as rondas periódicas da morte davam o tom e balizavam a intensidade da mágoa, dor e fadiga. 
Ao despertar pela manhã foi que se deu conta de que o seu amor tinha desfalecido, morrera à sombra da madrugada com um sorriso de angustia no canto da boca. foi assim que passou o dia com um amargo gosto de cobre na boca, um aperto no coração, e a mente perturbada com aquele sorriso maroto de Moraliza como se o falecido lhe olhasse de todos os ângulos e lados. 

Aquele fatídico dia de agonia, foi dividido pelas lembranças de quão intenso fora o matrimônio no seu início e agora ali cuidando dos preparativos do velório, lembrou da noite precedente e teve remorso por não participar ativamente da última empreitada.
Passado a cerimônia fúnebre, entrou em luto de curta durabilidade, um dia e meio. Após o que, vestiu o seu mais insinuante look, pôs um sorriso no rosto previamente maquiado, tirou uma selfie e a publicou em todas as mídias sociais, com a seguinte legenda: "Vida que segue, viúvo é quem morre! Jovem viúva se procura homens que marretam forte, enxuga e guarda".
Hoje no conturbado dia a dia, usa os momentos livres que sobra para avaliar propostas no perfil e agendar eventuais testes drives...