O Natal se foi, ficou o
sentimento solidário, também o ano virou, viramos juntos esperançosos de novos tempos
de honestidade e renovações. Agora é chegada a hora da monarquia de tríplice
coroa, com os Reis Magos, alegria e muita folia temperados a base de amizade, cantoria,
bebida e comida simples na beira do fogão a lenha na cozinha, daqui a pouco
esses estarão no retrovisor e um novo reinado virá, Sua alteza, Rei Momo, circo
nos dará no carnaval.
Em Milho Verde dos belos
relevos no horizonte, das montanhas faceiras de Minas, das entranhas de uma delas, como um
obstetra observo o nascer do Jequitinhonha, que desce ladeira abaixo serpenteando
o grande vale de pedras, tão preciosas quanto as suas cobiçadas amigas de vitrine
até encontrar com a grande água salgada que banha e interliga os continentes.
Os festejos nunca cessam
viver por aqui é festejar o próprio existir; é criar vínculo com as animais de
rua; se despedir do sol quando este se põe com um até breve e resolver
esperá-lo de volta para abraçá-lo no alto do rosário logo de manhãzinha; é
tirar as máscaras e se apresentar com a nudez genuína d'álma, é se fazer
representar na cor prata, nos diversos rincões mineiros através da lua cheia,
donde se entra por qualquer greta e até pela impermeável vidraça da janela, transpondo
barreiras e cortinas; é sentir compaixão pela morte da bezerra; lavar a própria
roupa e junto se lavar direto na fonte afluente do protagonista Jequitinhonha;
é colocar flores na cova funda de um desconhecido qualquer; é guiar o apetite
com a cachaça noviça que ainda goteja no bico de cobre do alambique; é orar em
todas as línguas e nas mais diversas religiões porque o criador sussurra aos
ouvidos daqui, que nunca preterirá as suas criaturas; é saber respeitar a
todos, anciões ou não; é sair desprevenido e ainda assim não perder a
oportunidade de um banho de cachoeira nos horários mais improváveis que o pudor
permitir; é não ter pressa, mesmo ciente de que a imperfeição pode não ser uma
inimiga; é levantar de madrugada sem proposito e ao erguer as vistas constatar
que este céu tem muito mais estrelas; é deixar o pensamento livre, ciente de
que ele não é um desertor e voltará; é ficar assim como criança a espera de
presente na noite de natal, de fixo olhar na estrada, espiando no alto do morro,
onde os faróis primeiro alumiam, a espera dos presentes que virão, pois pessoas
são os mais valiosos de todos; é subir a montanha e lá de cima compreender que
em maio a tanta grandeza, o contraste é a nossa pequenez...

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