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sábado, 28 de julho de 2018

Virtude dos intérpretes

Escrevo sobre coisas que bem não compreendo.
São poemas enigmáticos, cujos códigos me confundem.
Dou vida literária à imaginação, nem sempre sóbria.
Nada indago nada afirmo, apenas exponho abstrações.
A exatidão e o comportamento padrão não me atraem.
Construo os meus versos nas rachaduras do universo.
Nem só da ordem vive o homem, muito se se realiza nas transgressões.
O mesmo descuido que nos mata, por vezes também nos salva.
Da negligência nasceu a penicilina, o vinho tinto e tantas outras variáveis acidentais que se fizeram úteis e funcionais.
Não me apraz essa forma negocial do jeitinho e das costuras remendais.
O homem se aproxima mais da divindade quando inconsútil.
Verdades absolutas mentem, o prazer pode esta também na polaridade fria ou quente e não só na zona morna do conforto.
Quão sem graça seria se os arquitetos aceitassem a máxima do ponto de equilíbrio residente apenas no meio.
No dorso forte do amor até a palavra eternamente pode fraquejar.
Escrevo da recepção, nela não há paredes, telhado ou balcão, ainda assim, recepção.
Relativizar no contexto é preciso, prostituir não...

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Catira

Quando tiro para cozinhar, lavo, enxugo e guardo.
Não é sempre que acontece, mas quando ocorre faço bigode, cabelo e barba.
No geral, não participo de leilões, não me apraz, a tradição do quem dá mais.
Só me vendo em prisão de festa de São João, quem paga a fiança me leva.
Participo do correio elegante, rola barraca do beijo, tudo pela caridade.
Há em mim um tempero picante que leva à dependência e ao vício.
Para salvar ovelhas, enfio a mão nua e arranco pela raiz a erva daninha do campo e do caminho.
A mesma mão ultrajada que salva, pega as armas e vai a guerra.
Não sou de sacrificar a ingenuidade e nem zombar da inocência de outrem.
Por isso, um anúncio que oferta carne fresca em outdoor ou em redes sociais me ofende.