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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

REGISTRO DE UM FRAGMENTO NO PERCURSO



Chegou no planeta terra em 06-06-1960, de parto normal, acompanhado de parteira, na zona rural, próximo ao Distrito de Milho Verde, Vale do Jequitinhonha, região nordeste de Minas, filho de gente simples, assim cresceu na humildade, se mudando, na adolescência  para pequena cidade, também do interior de Minas, agora no Triangulo Mineiro. Estudante de Escola Estadual, maioridade, concurso, ingresso no serviço Público, expectativas, sonhos, projetos, comendas, promoções, plano de carreira, especulações, erros e acertos, ao final, o discurso de reconhecimento do chefe: "Esse cara é muito bom, ele é do bem e assim se manteve ao longo da sua carreira, sinto-me  orgulhoso e até privilegiado de tê-lo tido como parceiro nessa jornada, entretanto, esse é um ciclo que se encerra, uma página virada da sua história, e em assim sendo, quero em nome de todos os colegas e amigos da repartição desejar-lhe uma acolhida harmoniosa de volta ao lar".
                Meu Deus! Então aquele era o último dia de trabalho, naquele mesmo instante iniciou-se um filme de retrospectiva na cabeça, parecia meio atordoado. Sair? Como assim, em meio a tanta ordem de serviço em aberto, muita coisa por fazer, projetos ainda não conclusos, enfim, inúmeras pendências. Tudo aquilo soou, semelhante a morte, você sabe que ela é implacável e virá inexoravelmente, mas não a espera, de modo que sempre se surpreende com a sua chegada. Diante de uma mesa de guloseimas, fitava, em particular, uma garrafa de Mate Couro, se lembrou que na adolescência só podia tomar guaraná mineiro, fabricado ali mesmo na sua cidadezinha, meio que de forma artesanal, mas que para o seu pouco habituado e nada apurado paladar, aquela "guaranazinha, mini saia" era uma delícia. Se lembrou que raramente tomava mate couro, aquele sim, era feito na Capital, era um luxo, uma iguaria, personalizava a coca cola "tupiniquim", cujos recursos não lhe permitia o acesso.
                Foi retirado das suas reminiscências por Pereirinha, o colega de repartição mais amargo e negativo, sempre tinha um comentário inconveniente para fazer, pare ele, tudo na vida era cinza e nada estava tão ruim que não poderia piorar, já chegou argumentando que era preciso de muita sorte, para se aposentar com boa saúde, o serviço é desgastante e quando se aposenta já não mais se aguenta nada, isto, quando se aposenta, porque muitos não tem essa sorte, passa desta para uma melhor, antes mesmo de chegar nessa fase da vida e ainda têm tantos outros que assim como você, se aposentam,  caem em profunda depressão, se tornam melancólicos e vivem nas ante salas dos consultórios psiquiátricos.
                Para mudar o rumo e energia daquela prosa carregada e desagradável, contra argumentou, dizendo que não havia com que se preocupar pois gozava de boa saúde física e mental e para demonstrar a sua intolerância aos psiquiatras já havia feito uma reserva em um hotel fazenda para passar uns dias, espairecer, pescar, andar a cavalo, deitar em redes esparramadas pelas  varandas e assim ficar distante desse profissional que cuida do intangível abstrato humano. Pereirinha deu de ombros repetindo a sua frase predileta: - "Depois não me diga que não avisei". O olhar ainda fitava a mate couro, serviu-se de um copo generoso e para quebrar o mau estar, ofereceu um gole ao Pereirinha que recusou de pronto: - Então não sabes? Você já não mais se lembra daquele jogo antológico em que goleiro Zetti foi pego pelo doping lá no Peru, pois é, tinha tomado mate couro, espero que não tenhas que fazer exames por estes dias, já irritado, rebateu de pronto: - Olha aqui Pereirinha, como lhe disse, estou bem física e mentalmente e não vou fazer qualquer exame. - Tudo bem, depois não me diga que não avisei.
                Sentiu-se paralisado embora movimentasse, era como se não tivesse coordenação dos seus próprios movimentos, não se sentia ali, parecia ligado no automático, abraçava e agradecia as pessoas, mas não sabia o significado das palavras e não se lembrava de nada que dizia os seus interlocutores nas congratulações recebidas e muito menos nas retribuições que os ofertava. O pensamento se mantinha nas ante salas dos psiquiatras e na celebre frase "depois não diga que não avisei" aquilo não lhe sai da cabeça, era como se o mundo inteiro fosse contaminado pela conspirativa teoria "pereirial/freudiana." Estaria mesmo tendo alucinações? seria o refrigerante de ervas? E se lhe fosse exigido fazer exames para se aposentar? Será? Ai-a-ai. Só sei que nada sei, "epa" quem foi que disso isso, Eu?  Claro que não, foi Sócrates, será que estava ele com o Zetti, e disse isso porque tomou mate couro também? Não! Óbvio que não, me refiro ao grande Sócrates filósofo, se bem que o outro, no que se propôs a fazer era gigante também, entretanto, nem jogava no São Paulo. Por que será o pensamento está chegando descoordenado assim? E a concatenação das ideias, a clareza e sensatez que sempre fora o seu ponto forte, teria o abandonado justamente agora na aposentadoria.
                Seria prudente viajar para um hotel fazenda, no meio do nada, sem suporte médico, naquelas condições que se apresentava? Não seria mais apropriado adiar a viagem e fazer uma bateria de exames? É, pode ser, mas e o refrigerante não seria uma exposição desnecessária? A final de contas, estava bem, não tinha nada, quer dizer, nada, nada mesmo, até ontem, agora não tinha muita certeza disso, as coisas parecem ter mudado e não eram mais como antes, estava aposentado e nessa fase a metamorfose se instala e tudo muda. Foi mais uma vez surpreendido com a volta do pensamento macabro dos aposentados em "via sacra" povoando e dando notoriedade aos psiquiatras.  Bobagem, nem se dava muito bem com essa categoria de profissionais, os intitulava "charlatões de mentes confusas". Que nada, vou correr o risco e sigo em viagem logo cedo como programado, estas manifestações destorcidas, sem significado lógico, é pura e unicamente besteira do imaginário que brota na cabeça, agora desocupada. Cabeça vazia deve ser mesmo, oficina do diabo.
                Como assim? Besteira do imaginário que brota na cabeça, se lá brotou, lá está, lá existe e pode ser que permaneça ocupando espaço, logo, a criatura ganhou identidade e se não for "despejada da cachola" lá permanecerá "ad aeternum",  se tornando um problema na certa, seja um distúrbio, uma esquizofrenia, sei  lá o que, mas normal não pode ser. Entretanto, se nada for revelado, ninguém tem o dom de conhecer o pensamento alheio, mas, poderia ser essa, uma verdade relativa, e se o Pereirinha tivesse o dom de ler as ideias dos outros, se assim o for, justifica a sua maneira estranha de olhar, creio que o "cara" se liga no que os outros pensam. Sabe de uma coisa, o certo a fazer é livrar desse cara complicado agora mesmo, gente assim é contagiosa e virando para Pereirinha indagou: - Você conhece a Celina, aquela da pasta da educação. - Sim - respondeu ele: - Pois é, ela mora aqui dentro, apontando para o coração, e a Lúcia? - Lúcia não, que Lúcia? - Irmã da Lucidez e fazendo com que a sua mão direita tomasse a forma de uma arma, apontou para a própria caleça, o dedo indicador como se um cano fosse dizendo, essa mora aqui, em seguida, apontou para Pereirinha e liberando o dedo polegar para frente, como se fosse o cão de uma arma, verbalizou: - Perdeu Pereirinha você e a sua loucura foram eliminados do jogo, agora o meu coração está ocupado por Celina e na cabeça, a inquilina é a Lucidez, não tenho espaço para pessoas como você. - Tudo bem, se quer assim, mas depois não me venha dizer que não lhe avisei...
            Passou a noite em claro, toda aquela confusão da despedida, a estranheza dos colegas que, na oportunidade, mais pareciam zumbis vagando por ali, as falas do Pereirinha, o mal-estar durante o evento, as palpitações e taquicardia, iam e vinham como ondas do mar. No escuro tentou ler a placa de prata que havia ganhado durante a cerimônia de véspera,  parecia que as frases gravadas ali, na composição do texto, tinham no seu contexto os mesmos dizeres do Pereirinha, só que finalizava em caixa alta: "SÓ SEI QUE TUDO SEI E NÃO É POUCO" seguido de três pontinhos. Aquilo era intrigante, teria ele recebido a tarefa de preparar o ponto mais alto, o ápice da homenagem e ali aproveitou para insinuar as fraquezas alheias abstrais, alguma mancha curricular, uma ação mal fadada, o que poderia saber Pereirinha da vida de alguém se o próprio titular, assim como Sócrates, nada sabiam, se bem que, o filósofo não estava só, um certo ex Presidente não sabia de nada também.
                Ao amanhecer pensou em procurar um médico, mas temeroso pelo resultado improvável de um doping positivo, ou de um diagnóstico de demência seguiu viagem, porém, na estrada recebia a visita dos pensamentos controvertidos que se apresentavam contaminados pelo devastador efeito Pereirinha. Tentou desviar a atenção, olhar e curtir a natureza poderia lhe fazer bem, não tinha do que temer, havia feito uma carreira imaculada, nunca usara drogas, nem mesmo as tidas como lícitas, o que um estranho, ácido e mal humorado  poderia saber, lembrou, da "lucidez, seguida da sensatez," sempre morou em apartamentos e nos últimos andares para garantir a segurança própria e dos seus familiares, achava as casas muito vulneráveis ao ataque de criminosos, nunca as quis como moradia.
                Na ante sala da recepção, quando aguardava para o check in, assistiu uma reportagem num desses jornais de volta do dia em que alertava sobre alguns cuidados que produtores rurais e circundantes do perímetro deveriam ter, uma vez que as fazendas da região estavam sendo atacadas por bandos de criminosos cruéis e sanguinolentos, que não poupavam nem mesmo as criancinhas. Um grande arrepio desceu por toda a sua coluna cervical, ficou petrificado por longo período, justo  agora que estava aposentado, poderia aproveitar a vida, fazer tudo que queria e que antes não era possível, ter que encarar uma situação tão adversa, e constrangedora, pensou em voltar e encarar o medico, mas foi demovido da ideia. Não era um covarde,  imaginou-se entrando triunfalmente, sendo anunciado como herói na cidade por haver contribuído na prisão do bando e o que era melhor ainda ter descoberto que o Pereirinha era nada mais, nada menos que o mentor intelectual da quadrilha, aquela reportagem certamente,  sairia no JN e, com um pouco de sorte até no N Y Times.
                - Senhor por obséquio queira preencher esse formulário. - Disse o recepcionista: - Desculpe-me pela distração, estava um pouco absorto pelo jornal. E recebendo a ficha na mão do funcionário, percebeu que deveria apor todos os seus dados pessoais no citado documento de controle. Nesse momento foi bombardeado por uma avalanche de hipótese macabras, caso revelasse a sua verdadeira identidade, imaginou como poderia fazer o registro oficial se a qualquer momento aquele estabelecimento poderia ser vítima do ataque de bárbaros, o que fariam se tivessem todos os seus dados pessoais, inclusive endereço familiar. Definitivamente não, não há porque expor tanto assim e comprometer a segurança de todos por conta de um "formulariozinho" besta.  Jamais faria isso e de posse do documento o preencheu com dados fictícios, convicto de que aquilo era o melhor a ser feito, era irrelevante o formulário, não tinha a menor importância,  pretendia entrar e sair sem causar problemas, ser discreto e pagar tudo que lhe era devido.
                Pegou as chaves, deixou as coisas no quarto, voltou ao estacionamento, colocou uma capa no automóvel, não seria conveniente deixar um bom carro, de luxo, ali exposto às ações marginais, tratava-se de um automóvel muito cobiçado e fatalmente seria objeto de desejo dos bandidos, caso o ataque viesse a ocorrer naquela hospedaria. Escondeu todos os documentos por detrás de um quadro antigo da Mona Lisa, ia saindo e veio a memória "tudo sei e não é pouco", arrepiou dos pés à cabeça, de um único movimento voltou-se para o quadro que abrigava os documentos, estranhou o olhar da Mona Lisa, notou que ela guardava traços de estreita semelhança com um velho conhecido, o Pereirinha. Seriam eles parentes? Ela sim, diferentemente dele, sabia dos documentos ocultados, e se por de trás daqueles olhos enigmáticos tivesse câmaras escondidas, hoje se filma tudo, não há mais privacidade.
                Saiu sorrateiramente e conferiu se encontrava câmaras filmadoras dispostas no ambiente, arrepiou de novo ao deparar com três equipamentos instalados no estacionamento, dois na entrada, um na recepção, eles estavam em todas as partes nas áreas de uso comuns. Ao invés de se sentir aliviado pelo aparato de segurança, foi tomado por um desassossego, bateu o maior desespero, apavorado voltou os lampejos da despedida, o olhar perdido no mate couro, o Sócrates, filósofo, Zetti e Sócrates, jogadores, e as citações do ex colega de trabalho lhe cortavam a alma, "depois não me venha dizer que não avisei", avisei ou falei, não me lembro bem, mas não importa, rememorou a comenda recebida, uma bela placa de prata, com aquela estranha e convicta finalização: "Sei de tudo e muito mais" ou seria: "Só sei que tudo sei e não é pouco", achou ser a última, a opção mais verdadeira. Paciência, também sabia de tanta coisa no entanto, nunca havia chantageara ninguém, não existia razão para se intrigar com aquela besteira "excretada" ali.
                Em menos de vinte e quatro horas de aposentado já havia colecionado mais pecados do que conseguira acumular ao longo de toda a vida, jamais havia praticado falsidade ideológica, nunca havia premeditado esconder o seu automóvel como se fosse um criminoso, e a Mona Lisa, ancestral do Pereirinha, agora sua companheira na ocultação de documentos. Por um momento passou lhe pela cabeça revelar tudo, os dados mentirosos na ficha, os documentos escondidos, o carro camuflado e as razões motivadoras daquele comportamento. Logo se desfez desses pensamentos, se os revelasse poderia mesmo iniciar a saga da peregrinação pelos consultórios psiquiátricos.  
                Não bebia e nem fumava, mas aquela era uma ocasião especial, precisava relaxar um pouco, aliviar as tensões e tinha que ser logo. Antes mesmo do jantar ser servido, acenou para o garçom, pediu lhe um charuto cubano e um cálice de vinho, em pouco tempo, aquele garoto esguio lhe entregava o tabaco e uma generosa taça de vinho tinto. Totalmente Inábil para aquela nova situação, estranhou tudo, desde o charuto de muito grosso calibre à taça de vinho que acomodava tranquilamente três quartos de garrafa, tomou um bom gole do vinho, acendeu aquele rojão vindo da ilha do Fidel, e com isso iniciou o ritual que abriria a nova fase da sua vida. As vistas pareceu lhe embaçadas, que sensação horrível, passou a ver apenas vultos, teve a sensação de enfrentar um terremoto, o ambiente parecia deslocar debaixo dos seus pés, reuniu forças, recolhendo-se ao seu quarto.
                Se desligou completamente por um longo período, depois passou a enfrentar dificuldades com o sono, lembrou dos acontecimento das últimas horas, a imagem do Pereirinha lhe veio a mente, ou seria a presença direta de Mona Lisa que agora, conhecia na intimidade os seus segredos, era sua cúmplice , o que estaria ela pensando? Certamente que se tratava de um grande canalha da pior estirpe, uma pessoa que muito esconde e pouco revela. Ouviu um zumbido bem distante, pôs-se de orelha em pé, provavelmente o bando estaria chegando, sentiu que não reunia condições de enfrentar a situação, nunca fora covarde mas desta vez deixaria as coisas ocorrerem lá fora se mantendo trancado e escondido dentro do quarto. Concentrou toda a adrenalina que restava no corpo, se levantou com o propósito de trancar a porta, cambaleou e caiu sobre o televisor, quebrando-o, assim como também o grande espelho da penteadeira, ensanguentado, insistiu de novo em se levantar buscou equilíbrio no guarda-roupas, que, não suportando o peso também caiu.
                Acordou no hospital, o policial o interrogava sobre o acontecido: - Não posso aliviar cidadão, o registro é o procedimento padrão, devo cumprir o meu dever, o senhor se machucou muito, o registro é obrigatório, preciso da sua versão dos fatos, já tenho os dados pessoais coletados na ficha do hóspede e posso lhe adiantar que o senhor está enrolado, pesa contra o senhor, seu Pereirinha um mandado de prisão em aberto e, de antemão,  temos de cumpri-lo, além de termos de apurar esta situação nova, se é que o senhor me compreende. - Ô graças a Deus. Deus é pai, sabia que tinha algo errado, o Pereirinha nunca me enganou, sempre achei que não fosse flor que se cheirasse, agora, sem querer o desmascarei - disse ao policial, que, em princípio nada entendeu.
                - Coitado - argumentou a enfermeira: - Está delirando, pode ser esquizofrenia ou algo pior, temos que levá-lo ao psiquiatra de plantão. - Eu a acompanho. Sinalizou o policial - Demência ou não, existe um mandado de prisão contra ele, não o perderei de vistas. Passaram pelas ante salas do longo corredor onde concentravam alguns idosos, ao percebê-los, chamou a atenção do policial dizendo que aqueles anciões eram um bando de desocupados, todos aposentados, melancólicos e depressivos, para nada serviam. Já no consultório, ao ser indagado do que ocorrera, colocou o dedo de frente aos lábios como se pedisse silêncio, se levantou vagarosamente, desferindo uma sonora bofetada no "pé do ouvido" do doutor. - Leve esse infeliz para o manicômio judiciário, além de louco é violento! Ponderou o profissional da saúde. 
                Apavorado com a situação que se complicava cada vez mais, implorou ao policial, para que não acreditasse em nada daquilo, nunca fora louco, mas que havia sido atacado por um bando quando hospedado no hotel fazenda. Disse-lhe que eles chegavam de todos os lados, vinham até de voadora ao seu encontro, que eram muitos, só se defendeu, no exercício da legítima defesa própria. Na oportunidade, acreditava ter acertado mortalmente uns dois, havia muito sangue no local, que o policial deveria procurar no quarto do hotel, lá certamente ainda os encontraria. Já no hospital, por sua vez, a intenção era agir em legítima defesa do médico, que era atacado por aquele vampiro que sorrateiramente sugava o sangue do doutor descaradamente  à luz do dia, todavia, neste caso, o pernilongo fugiu aligeirado, fazendo com que o BO fosse por ele abraçado.
                - Que despropósito - arguiu o médico: - Leve-o para o manicômio, que é o seu lugar. - Calma doutor - ponderou, o policial - em matéria policial investigativa, tudo é possível, nada é impossível, é preciso averiguar todas as hipóteses, por mais absurdas e descabidas que sejam. - O senhor também deve estar louco, como acreditar numa tese aloprada dessas? - Não se trata de acreditar ou desacreditar e sim levar em consideração todas as possibilidades, até as aparentemente improváveis, no exercício policial já vi muita coisa, na minha profissão se aprende logo cedo a importância do estudo filosófico investigativa e ser andante da esteira protagoriana é preciso, por que: "O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são." Doutor vou lhe dizer uma verdade que jamais poderá ser relativizada pelo bom policial, as coisas nem sempre são conforme nos parece, elas são como são e conforme ocorrerem, assim se não as aferirmos de todos os ângulos e pontos de vistas, corremos o risco de condenar um inocente em decorrência da indesejável miopia policial.
                Com aquela inesperada aula do policial, o ambiente até então pesado, pareceu suavizar, por um instante o silêncio puro e absoluto se fez presente até ser interrompido pelo próprio suspeito que deprecou a sua versão. Contou com detalhes a despedida do trabalho no dia anterior, a viagem, a chegada ao hotel, a reportagem, como e porque, usou os dados de um ex colega de trabalho para preencher a ficha do hóspede, sua preocupação com o veículo, os documentos escondidos atrás do quadro, o porre de charuto com vinho, a nuvem de pernilongos que o atacara no quarto durante a noite, os móveis danificados, alguns em decorrência da embriaguez, outros por conta da sua luta inglória com os insetos, o tapa no pernilongo que agia na orelha do doutor, as suas diferenças com Pereirinha, mas não acreditava que ele pudesse cometer um crime e ter mandado de prisão contra si.
FINAL COM A FILOSOFIA PROTAGORIANA.
                Ao checar as informações, constatou o policial de que a versão dada pelo acusado era real e absolutamente verdadeira. Consoante ao resultado da pesquisa a respeito do mandado de prisão, foi informado de que se tratava de pensão por alimentos em atraso, já regularizada em período pretérito e que por falta de atualização de lançamento no sistema informatizado ainda constava em aberto. O relatório policial foi encerrado conforme a verdade real do ocorrido e encaminhado a autoridade de polícia judiciária a fim de que as medidas de estilo fossem adotadas.
FINAL SEM FILOSOFIA PROTAGORIANA.
                Foi internado no manicômio, por vezes falava sozinho, dizia palavras desconexas do tipo: - Se tivesse um frasco de veneno, um cortinado com uma corda no teto, teria posto um fim em tudo isso, nada precisava ter acontecido como ocorreu. Com esse comportamento e o registro dessas falas sem conexão lógica,  todas as avaliações anuais de soltura, recebiam o carimbo, NÃO LIBERADO, demência severa e insistente permanece, agora com o gravame de apresentar  também tendência de alto extermínio. - Ah se tivesse o veneno, aqueles pernilongos nunca teriam se aproximado de mim e em assim sendo não teria chegado até o hospital onde aquele sanguessuga provocava-me pousado na orelha do doutor. 

3 comentários:

Waldir Moreira Jr disse...

A total entrega e zelo para com o que deve ser realizado pode ser cadeia perpétua àquele que fez jus de suas incumbências. O texto remete a enormes reflexões e o excesso de vírgulas denota o desconforto sôfrego de lembranças e emoções adicionadas ao ficcional. Folgo em sabê-lo solto e presente cá conosco, mesmo distante algumas centenas de quilômetros. Apesar de cinza, momentos de humor e a narrativa intensa contagiam.. Obrigado por compartilhar, caríssimo e querido Comandante.

Unknown disse...

Muito obrigado Adélito por compartilhar essa estória com pitadas de história. Gostaria de pedir que não se esqueça de me marcar na próxima publicação. Você tem talento para a escrita. Abraço

Unknown disse...

Muito obrigado Adélito por compartilhar essa estória com pitadas de história. Gostaria de pedir que não se esqueça de me marcar na próxima publicação. Você tem talento para a escrita. Abraço