UM DIA NO DENTISTA
Dias atrás li uma crônica do meu desconhecido amigo João Neto, cunhado de Christiano e irmão de Isis, visite-o (http://centraldeideias1.blogspot.com.br/) em que abordava suas experiências quando das suas idas à consultórios médicos, foi ai que lembrei da ultima intervenção na minha arcada dentária que ocorreu mais ou menos assim:
Cheguei na recepção da Clinica,
me apresentei adiantando a intenção de promover
uma assepsia nos dentes, fui encaminhado para o interior da "sala de
torturas" onde me assentei numa daquelas cadeiras que te imobiliza sem
permitir alternativas para uma eventual rota de fuga, ladeada por braços que te
abraçam, postada à frete, minha algoz com aquela indumentária ufologista,
munida com toda sorte de material estranho mas de aplicação óbvia, naquele
momento, a única e última esperança era ser abduzido ou quem sabe resgatado por
uma força tarefa altamente especializada, criada pela ABFA "associação dos
banguelas felizes e assumidos".
Nunca gostei da tal anamnese,
parece que só te entrevistam para ter a certeza de que quando da execução da
tarefa vão te "sacanear". Veja no meu caso por exemplo em que queria
uma simples limpeza nos dentes, mais a profissional responsável pelo trabalho,
contrariou aquela máxima de que o cliente sempre tem razão, se preocupando
justamente com o que não lhe encomendei. Concentrou as suas atenções numa falha
dentária que tenho a anos e que com ela convivo muito bem obrigado, aquela
falha parecia mesmo ser o seu objeto de desejo e quem ali se dirigiu para uma
simples e despretensiosa limpeza, agora discutia o nada, o espaço vazio, o
buraco negro da boca. Inexplicavelmente, sai do local com data e hora marcada para
realizar um dito procedimento simples de implante dentário.
Na data agendada, lá estava eu
com cara de "sem vergonha" de curta memória "estatuado"
naquela infausta e agourenta cadeira, enfrentando o ritual macabro, agora para
implantar um dente e com isso ganhar um sorriso mais vistoso, ou seja, para resgatar
o sorriso de alguém cujo trauma que sofreria pela inoportuna operação, guardava
boas chances de cessar qualquer possibilidade de voltar a sorrir um dia. O
cenário era surreal de futuro incerto, em que os derradeiros dias de vida, se
viesse a correr, o que só se admite na remota hipótese de conseguir escapar
daquela legitimada tentativa de homicídio, seriam amargos, sem sorrisos e, por
conseguinte, sem exposição dentaria.
A "lunática" se
apresentou com aquele olhar estranho por de traz de um óculos inspirado nos
modelos herdados dos mal fadados laboratórios nazistas, emergidos dos porões
dos campos de concentração. A ariana do primeiro reich, vestia a rigor e para
se sintonizar ainda mais o perfil de caça aos fantasmas, portava uma seringa
cuja extremidade ostentava uma agulha de grosso calibre que lhe credenciava a
engolir uma bala de canhão, fosse o liquido anestésico um néctar de flor do
serrado, poderia perfeitamente ser acessado via orifício da agulha que acomodava
com folga o fino bico de um colibri.
Apavorado, fiz a óbvia e
absolutamente desnecessária pergunta que só se faz mesmo por desencargo de
consciência e a não menos óbvia resposta veio a galope, cavalgando numa
generosa porção de sadismo. "- Não, não vai doer nada, é por isso que vou
aplicar anestesia, não vê? Sim SENHORA Dra. maiss... e ela com a sutileza de um
paquiderme, assumiu irresoluta o comando da situação, confiscou o meu Direito Constitucional
de opinar e até mesmo de verbalizar, "coisificou-me", abriu a boca
alheia como se abre um cadáver na fria mesa de necropsia e passou a aplicar
sucessivas, ininterruptas e insuportáveis agulhadas como se estivesse
tricotando uma colcha de rendas.
O seu ritmo me fez lembrar a
infância no agreste mineiro, quando na mais tenra idade, no Distrito de Milho
Verde, Vale do Jequitinhonha, ficava horas a fio observando as mãos hábeis de
minha estimada avó, na beira do fogão de lenha a tecer forro de mesa com lã de
carneiro e assim sustentar a família. Que Deus a tenha em distinto lugar, em
vida foi a reserva antecipada que fez com a sua conduta virtuosa. Em fração de
segundos, a agulha obscenamente entrava e saia naquela manta que se formava e
crescia numa rapidez extraordinária, assim também parecia ocorrer no tecido
gengival.
Percebendo a minha ansiedade e
desconforto, a "laborativa profissional" soltou uma perola, a
verdadeira fina flor do cinismo: - E ai como esta se sentindo? Tudo bem? Não
está com dor não é? O derradeiro suspiro de humor que ainda restava,
habilitava-me a cômica resposta de que não estava "tintindo" nada,
mas não havia espaço para brincadeiras e muito menos para piadinhas, não tinha
autoridade sobre os movimentos labiais, nem coordenação motora eu tinha, era um
mudo de boa audição, fato este que agravava ainda mais a situação desfavorável.
Ah! Como sonhei com a
tradicional dobradinha, surdo/mudo, não queria ouvir aquela furadeira elétrica,
de mesma sonoridade e eficiência das utilizadas na construção civil para romper
concreto, só que esta penetrava massa óssea humana formada com leite materno.
Tudo era desolador, apavorante e brutal, eu transpirava tal qual cavalo de raça
no final da corrida, a taquicardia parecia sintonizar o coração no mesmo ritmo
da furadeira, os olhos fechados e contraídos com tanta força que pareciam temer
serem os próximos a sofrerem o ataque que ocorria no andar de baixo com a sua
vizinha. Em derradeiro ato de bravura e extrema coragem os abri, melhor não
tê-lo feito, quase fui a nocaute, aqueles óculos bem a frente, precisavam de um
limpador, tipo aqueles de para-brisa de automóvel, estava todo chamuscado de
pontinhos brancos e vermelhos vindos da cavidade bucal, que como uma erupção
vulcânica expelia uma cortina de fagulhas de osso e sangue, era uma fonte
luminosa sem romantismo e sem poesia. A estas alturas o melhor era ser mudo,
suro e cego também.
Duas horas depois nada do
sonhado resgate nem da improvável abdução, a incauta se desfez do instrumento
primata e pegou uma chave-catraca, passando a apertar um parafuso no osso da
mandíbula e o fazia com tanta força que parecia querer deslocar o pescoço como
se fosse provocar um giro de 360°, como fazem as corujas. O torcicolo, já me
acompanhava fazia tempo, a bexiga no ponto de estourar, cólicas insistentes etc.
etc. Contudo, nessas condições o senso de sobrevivência é tão forte que você
estranhamente se mostra seletivo e se conduz por prioridades, naquele instante
nenhuma de todas as outras dores do resto do corpo que não estava sob efeito de
anestesia sobrepunha a tensão e desconforto daquele momento. Nestas
circunstâncias qualquer um poderia parir filhos gêmeos sem desviar do ponto
principal e da angustia maior.
Como nada é tão trágico que não
possa piorar, o parafuso emperrou e não rompia nem pra frente e nem voltava
para o ponto de onde nunca deveria ter saído, foi ai que a genial nazista
disse: - "Você tem que me ajudar, precisa abrir a boca ainda mais",
pensei comigo... Como? Se sequer consigo
fechá-la, pois o parafuso funcionava como uma alavanca, escorando e mantendo a
posição da boca em um ponto tão extremo de abertura cuja passagem daquele
limite representaria o rasgamento do tecido. Para completar, já sem honra e
dignidade, de vez que havia perdido totalmente o império da autonomia da
vontade e do querer, veio a sentença da “douta” ao recomendar que sua auxiliar
pegasse um tal esticador, pensei cá comigo, a matéria-prima tá pronta, que
"cagada", fazer o 1 e o 2 ali seria o fundo do poço, pensei mais uma
vez, será?
Resisti e munido da última reserva
moral que ainda restava, mas que se esvaia como espermatozoides na corrida pela
fecundação, peguei a caneta no bolso da camisa e em um guardanapo totalmente
embolado nas mãos, entregue no inicio da seção, sei lá para que finalidade,
provavelmente só para ser amassado mesmo, de sorte que o paciente se mantenha
literalmente paciente e não esmague..., deixa prá lá. Só sei que escrevi:
"Quero ir embora agora, desisto do tratamento, não posso te ajudar em
nada, alias desde o inicio já não podia fazê-lo. Dê uma anestesia geral,
sacrifica-me, vai encontrar um revolver bem ai na cintura, ou então utilize uma
morsa, um macaco hidráulico, chame o bombeiro, o GATE, quem quer que seja, mas
por favor não me peça ajuda e me tire daqui".



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