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Baseado no trabalho disponível em http://adelitobf.blogspot.com.br/.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

PURO TERRORISMO.



UM DIA NO DENTISTA

                Dias atrás li uma crônica do meu desconhecido amigo João Neto, cunhado de Christiano e irmão de Isis, visite-o (http://centraldeideias1.blogspot.com.br/) em que abordava suas experiências quando das suas idas à consultórios médicos, foi ai que lembrei da ultima intervenção na minha arcada dentária que ocorreu mais ou menos assim:
                Cheguei na recepção da Clinica, me apresentei adiantando a intenção de promover uma assepsia nos dentes, fui encaminhado para o interior da "sala de torturas" onde me assentei numa daquelas cadeiras que te imobiliza sem permitir alternativas para uma eventual rota de fuga, ladeada por braços que te abraçam, postada à frete, minha algoz com aquela indumentária ufologista, munida com toda sorte de material estranho mas de aplicação óbvia, naquele momento, a única e última esperança era ser abduzido ou quem sabe resgatado por uma força tarefa altamente especializada, criada pela ABFA "associação dos banguelas felizes e assumidos".
                Nunca gostei da tal anamnese, parece que só te entrevistam para ter a certeza de que quando da execução da tarefa vão te "sacanear". Veja no meu caso por exemplo em que queria uma simples limpeza nos dentes, mais a profissional responsável pelo trabalho, contrariou aquela máxima de que o cliente sempre tem razão, se preocupando justamente com o que não lhe encomendei. Concentrou as suas atenções numa falha dentária que tenho a anos e que com ela convivo muito bem obrigado, aquela falha parecia mesmo ser o seu objeto de desejo e quem ali se dirigiu para uma simples e despretensiosa limpeza, agora discutia o nada, o espaço vazio, o buraco negro da boca. Inexplicavelmente, sai do local com data e hora marcada para realizar um dito procedimento simples de implante dentário.
                Na data agendada, lá estava eu com cara de "sem vergonha" de curta memória "estatuado" naquela infausta e agourenta cadeira, enfrentando o ritual macabro, agora para implantar um dente e com isso ganhar um sorriso mais vistoso, ou seja, para resgatar o sorriso de alguém cujo trauma que sofreria pela inoportuna operação, guardava boas chances de cessar qualquer possibilidade de voltar a sorrir um dia. O cenário era surreal de futuro incerto, em que os derradeiros dias de vida, se viesse a correr, o que só se admite na remota hipótese de conseguir escapar daquela legitimada tentativa de homicídio, seriam amargos, sem sorrisos e, por conseguinte, sem exposição dentaria.
                A "lunática" se apresentou com aquele olhar estranho por de traz de um óculos inspirado nos modelos herdados dos mal fadados laboratórios nazistas, emergidos dos porões dos campos de concentração. A ariana do primeiro reich, vestia a rigor e para se sintonizar ainda mais o perfil de caça aos fantasmas, portava uma seringa cuja extremidade ostentava uma agulha de grosso calibre que lhe credenciava a engolir uma bala de canhão, fosse o liquido anestésico um néctar de flor do serrado, poderia perfeitamente ser acessado via orifício da agulha que acomodava com folga o fino bico de um colibri.
                Apavorado, fiz a óbvia e absolutamente desnecessária pergunta que só se faz mesmo por desencargo de consciência e a não menos óbvia resposta veio a galope, cavalgando numa generosa porção de sadismo. "- Não, não vai doer nada, é por isso que vou aplicar anestesia, não vê? Sim SENHORA Dra. maiss... e ela com a sutileza de um paquiderme, assumiu irresoluta o comando da situação, confiscou o meu Direito Constitucional de opinar e até mesmo de verbalizar, "coisificou-me", abriu a boca alheia como se abre um cadáver na fria mesa de necropsia e passou a aplicar sucessivas, ininterruptas e insuportáveis agulhadas como se estivesse tricotando uma colcha de rendas.
                O seu ritmo me fez lembrar a infância no agreste mineiro, quando na mais tenra idade, no Distrito de Milho Verde, Vale do Jequitinhonha, ficava horas a fio observando as mãos hábeis de minha estimada avó, na beira do fogão de lenha a tecer forro de mesa com lã de carneiro e assim sustentar a família. Que Deus a tenha em distinto lugar, em vida foi a reserva antecipada que fez com a sua conduta virtuosa. Em fração de segundos, a agulha obscenamente entrava e saia naquela manta que se formava e crescia numa rapidez extraordinária, assim também parecia ocorrer no tecido gengival.
                Percebendo a minha ansiedade e desconforto, a "laborativa profissional" soltou uma perola, a verdadeira fina flor do cinismo: - E ai como esta se sentindo? Tudo bem? Não está com dor não é? O derradeiro suspiro de humor que ainda restava, habilitava-me a cômica resposta de que não estava "tintindo" nada, mas não havia espaço para brincadeiras e muito menos para piadinhas, não tinha autoridade sobre os movimentos labiais, nem coordenação motora eu tinha, era um mudo de boa audição, fato este que agravava ainda mais a situação desfavorável.
                Ah! Como sonhei com a tradicional dobradinha, surdo/mudo, não queria ouvir aquela furadeira elétrica, de mesma sonoridade e eficiência das utilizadas na construção civil para romper concreto, só que esta penetrava massa óssea humana formada com leite materno. Tudo era desolador, apavorante e brutal, eu transpirava tal qual cavalo de raça no final da corrida, a taquicardia parecia sintonizar o coração no mesmo ritmo da furadeira, os olhos fechados e contraídos com tanta força que pareciam temer serem os próximos a sofrerem o ataque que ocorria no andar de baixo com a sua vizinha. Em derradeiro ato de bravura e extrema coragem os abri, melhor não tê-lo feito, quase fui a nocaute, aqueles óculos bem a frente, precisavam de um limpador, tipo aqueles de para-brisa de automóvel, estava todo chamuscado de pontinhos brancos e vermelhos vindos da cavidade bucal, que como uma erupção vulcânica expelia uma cortina de fagulhas de osso e sangue, era uma fonte luminosa sem romantismo e sem poesia. A estas alturas o melhor era ser mudo, suro e cego também.
                Duas horas depois nada do sonhado resgate nem da improvável abdução, a incauta se desfez do instrumento primata e pegou uma chave-catraca, passando a apertar um parafuso no osso da mandíbula e o fazia com tanta força que parecia querer deslocar o pescoço como se fosse provocar um giro de 360°, como fazem as corujas. O torcicolo, já me acompanhava fazia tempo, a bexiga no ponto de estourar, cólicas insistentes etc. etc. Contudo, nessas condições o senso de sobrevivência é tão forte que você estranhamente se mostra seletivo e se conduz por prioridades, naquele instante nenhuma de todas as outras dores do resto do corpo que não estava sob efeito de anestesia sobrepunha a tensão e desconforto daquele momento. Nestas circunstâncias qualquer um poderia parir filhos gêmeos sem desviar do ponto principal e da angustia maior.
                Como nada é tão trágico que não possa piorar, o parafuso emperrou e não rompia nem pra frente e nem voltava para o ponto de onde nunca deveria ter saído, foi ai que a genial nazista disse: - "Você tem que me ajudar, precisa abrir a boca ainda mais", pensei comigo... Como?  Se sequer consigo fechá-la, pois o parafuso funcionava como uma alavanca, escorando e mantendo a posição da boca em um ponto tão extremo de abertura cuja passagem daquele limite representaria o rasgamento do tecido. Para completar, já sem honra e dignidade, de vez que havia perdido totalmente o império da autonomia da vontade e do querer, veio a sentença da “douta” ao recomendar que sua auxiliar pegasse um tal esticador, pensei cá comigo, a matéria-prima tá pronta, que "cagada", fazer o 1 e o 2 ali seria o fundo do poço, pensei mais uma vez, será?
                Resisti e munido da última reserva moral que ainda restava, mas que se esvaia como espermatozoides na corrida pela fecundação, peguei a caneta no bolso da camisa e em um guardanapo totalmente embolado nas mãos, entregue no inicio da seção, sei lá para que finalidade, provavelmente só para ser amassado mesmo, de sorte que o paciente se mantenha literalmente paciente e não esmague..., deixa prá lá. Só sei que escrevi: "Quero ir embora agora, desisto do tratamento, não posso te ajudar em nada, alias desde o inicio já não podia fazê-lo. Dê uma anestesia geral, sacrifica-me, vai encontrar um revolver bem ai na cintura, ou então utilize uma morsa, um macaco hidráulico, chame o bombeiro, o GATE, quem quer que seja, mas por favor não me peça ajuda e me tire daqui".

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