Licença Creative Commons
Textos de Adélito Barroso Faria está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://adelitobf.blogspot.com.br/.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

SER e ESTAR

 Ser e Estar

 O homem nasce e vai vivendo
Vai vivendo e vai morrendo
Assim ele faz,
Faz do jeito que é
O homem cresce e decresce
Edifica  construindo
Devasta aniquilando
Constrói o que destrói
Destrói o que constrói
Oh! ser mais ambíguo
Como te compreender
Se não se se compreende
O homem nasce aprendendo
Aprende esquecendo
Lembra sem querer
Esquece sem saber
Então esquece e lembra
Lembra, e sem ciência, esquece
Depois simplesmente esquece.
Vida sábia, vida besta
Sentimentos sem sentidos
Virtuosa razão mais insana
Onde o equilíbrio se sustenta
Na intangível força da mente
No vazio universal do pensamento
No dogma da vida eterna
Em que nascer ou morrer
São irrelevantes
Porquanto, independente do contexto
O homem é e está...
 Uberlândia, 22/08/2013 (Adélito)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

ADEGA CASA DO JOÃO DE BARRO


Com relação a origem do vinho e suas adegas há uma enormidade de especulações, entretanto não se sabe ao certo como e onde ela se deu. Como não existe consenso e parece que todos se sentem livres para teorizar a respeito do tema, vou defender a minha tese de que Eva não obtendo os resultados intensos e explosivos que gostaria quando da oferta de uma maça para o seu companheiro Adão, em que, após o consuma da fruta, a única espécime humana masculina existente no universo se manteve calma e serena sem mostrar nenhum interesse carnal por ela e olha que o único traje que usava era uma simples folha, dizem que de figueira, mas não há evidencias, bem que poderia ser de pé de uva, acredito que o seja, mas isso não importa, o que importa é que a folha se manteve imóvel cobrindo-lhe as partes até então inoperantes.
Diante da falta de estímulos mais calhentes alcançados pelo compulsivo comedor de maçã, dirigiu-se Eva ao guarda-roupas, isto é, à parreira mais próxima, colheu e armazenou uvas em uma cabaça, quarenta dias depois serviu aquele líquido vermelho ao companheiro Adão. Diz a lenda que a partir dessa data Eva e Adão deram efetividade ao Divino projeto de povoar a terra.
O ilustre leitor pode se filiar a outras teorias, de que a origem do vinho tenha ocorrido com Noé, ou com o Rei Persa, Jamshid, ou até mesmo aquele monge maluco no seu exercício de alquimia, acho mais lógica e prudente estas teorias, mas defendo a minha, gosto dela. Em que pese todas as especulação que gravitam o tema é inegável que ninguém sistematizou melhor a presença do vinho do que os Gregos, a relação dos gregos com os vinhos pode ser avaliada pelos "Simpósios", cujo significado literal é "bebendo junto".
Os gregos tiveram o cuidado de sugerir o consumo com moderação, no que foram copiados pelo Ministério da Saúde, porquanto os escritos atribuídos a Eubulus por volta de 375 a.C. Assim se dispõe: "Eu preparo três taças para o moderado: uma para a saúde, que ele sorverá primeiro, a segunda para o amor e o prazer e a terceira para o sono. Quando essa taça acabou, os convidados sábios vão para casa. A quarta taça é a menos demorada, mas é a da violência; a quinta é a do tumulto, a sexta da orgia, a sétima a do olho roxo, a oitava é a do policial, a nona da ranzinzice e a décima a da loucura e da quebradeira dos móveis."
Em obediência à minha disciplina Greco-Ocidental, confesso que me limito às três primeiras taças, nunca cheguei a tomar a do Policial, embora o seja, por isso a minha adega batizada de “DD - (Dionísios Drinks)” é modesta, com capacidade para 12 garrafas, o suficiente para um a dois “Simpósios”.

Sidney do Cerrado - Pensa

terça-feira, 16 de julho de 2013

ECLETICISMO DA JANELA


Desta janela se acompanha a missa,
Assiste ao enterro, choros e gritos
Escuta o barulho da terra caindo no caixão
Vê os casais fornicando ao lado da igrejinha
Presencia-se as manifestações de fé
Sente o cheiro do pecado bem de perto
Um maluco parece fumar alguma coisa
Por certo é coisa estranha, ele vai viajar
Eu não, então tomo uma pinga e durmo...
                          Milho Verde 16/07/2013.
O Exercício da paciência é virtude humana de elevado peso e grande relevo
Cá estou a uma semana no mesmo observatório dantes, para pouco mais de nada
Será que mudei o jeito de ver as coisas ou seria esta uma outra vista?
Teria o sentido de rotação e translação levado todo o romantismo da janela?
Ocupo um outro ponto cósmico em que os fatos não se apresentam?  
Naquela oportunidade, muito do que vi registrei e detalhes ainda escaparam
Sete dias sem missa, novena, oração ou qualquer liturgia religiosa
Uma semana de olho no cemitério, ninguém plantado no campo santo
Nenhum casal, ainda que ingênuo, sem pecados, só o original, vagando por ali
Apenas um maluco genealógico, este, não fuma nem bebe coisas estranhas,
Viaja naturalmente, nada de substancias alucinógenas no currículo
Sem inspiração, tomo um suco de pêssego e durmo...
                           Milho Verde 20/02/2014.

DEU AO POBRE, VIU O CAPETA E ENCONTROU COM DEUS

Desceu elegantemente a escadaria da catedral, estava sendo continuamente observada e nem se dava conta, aproximou-se de um pedinte, abriu a bolsa, sacou uma nota, a mais novinha que tinha, embora o chapéu de moedas estivesse no chão, fez questão de entregá-la diretamente ao pobre coitado, abriu-lhe um largo sorriso, desejou boa sorte e seguiu o seu caminho. Na esquina uma arma apontava-lhe a face, entregou o celular a bolsa, os brincos e o relógio, o andarilho incrédulo ouve um estampido perturbador de prenuncio fúnebre tal qual tantos outros comuns naquela esquina, olha o corpo no chão, derrama uma lágrima diante daquele mesmo sorriso, no dedo anelar da mão esquerda, a moça tinha um anel de ouro vermelho de sangue... (Adélito 11/07/2013 - 19:25)

RAIZEIRO X EXERCÍCIO ILEGAL DA MEDICINA.

Os pés e as mãos mais pareciam fundo de poço castigado por intenso período de seca, rosto fino, corpo esguio, tinha noventa e um anos, embora aparentasse um pouco menos, era famoso pela habilidade de curar as mais diversas enfermidades através de concentrados de raízes, no vilarejo diziam: - O que o Doutor não resolve ele dá conta. Tratava de um tudo, da mais simples “difruseira” à mais temida das hepatites, só não curava o que cura não tinha. Na vila, morava em casa simples de pau a pique, sem água encanada, nem energia, a distração era um velho rádio a pilha só utilizado no horário da voz do Brasil e no jogo do Madureira. Assim era Zé Rufino, ou como era mais conhecido, Zé das Raízes, pouco falante, do quase nada que dizia, muito era sobre política, e aviação, dizia da existência de muita gente boa e competente, que por isso mesmo não se arriscavam na carreira política.

Em um dia comum de outono, tudo corria normal na pacata "currutela" de Papo da Ema, os cães como de costume dormiam por debaixo dos bancos de madeira rústica, padrão dos casebres da localidade, um sabiá ao longe cantava a sua triste melodia, o silêncio era inquietante, dava até para ouvir o zumbido do voo das moscas. Era uma tarde modorrenta, naquele fim de mundo, de repente, a mais estranha algazarra, era como se todos os animais estivessem possuídos ou quem sabe, atacados por um enxame de abelhas oropa, desordenados corriam sem rumo, pulavam, ganiam, uivavam e até atacavam uns aos outros. As pessoas por sua vez, todas de fora, na rua, sem entender "nadica de nada", pairado no ar, sobre o casebre de Zé das Raízes, um gigantesco gafanhoto de lata, a cobertura de capim do velho barraco voava em círculo como se fosse o ninho do grande pássaro, o chão tremia, a bacia, as precatas, os trapos e até a porta da casa de Zé voavam ao alto.

Quanto mais o estranho voador se aproximava do chão, mais ia ficando calmo, até se aquietar de vez, agasalhou-se bem ali no terreiro dos fundos do que sobrou do barraco de Zé, naquele momento não se via uma viva alma na rua, no instante seguinte lá estava uma ressabiada aglomeração com cara de espanto e tensa curiosidade. O bicho esquisito abriu as asas e de lá desceu um carecão muito forte, acompanhado de um negrão de cavanhaque mais forte ainda, do tamanho de homem que não tinha por aquelas bandas. Tiraram um papel de um estranho bornal indagando se por obséquio ali era a residência do Sr. José Sampaio Rufino pois as coordenadas de GPS indicam sê-lo. Zé das Raizes se adiantou:
- Nunca vi essa tal de coordenada mas ela tá certa, sou eu sim senhor, senhor.
- Tá vendo esse papel aqui na minha mão.
- Tô sim senhor.
- Pois é, ele me dá o direito de entrar na sua casa e revistar tudo, preciso ver o que tem lá de dentro.
- Carece de papel não doutor, daqui dá pra vê direitinho lá de dentro, todo caso, vamos entrar, enquanto o doutor faz a procura, passo um cafezinho pro doutor molhar a palavra.
- Cuidado com o desacato hem, só estou fazendo o meu trabalho, se é que o senhor me entende.
- Não é desacato não doutor, é Chifrório, mas é besta que só, morde não, isso não vale o angu que come, nem sinal dá.
- Fiquei sabendo que o senhor trata de dor na coluna.
- O doutor veio no lugar certo, trato de espinha sim senhor, prá dor nas escadeiras lhe apreparo um chá de erva de Santa Maria, alecrim, casca de barbatimão, semente de jacarandá e raiz de jatobá. É batata, amanhã o doutor acorda novinho em folha, com os quartos aprumados.
- Esteje preso, exercício ilegal da medicina, corte e posse de subproduto da flora silvestre e ainda tentativa de suborno, o senhor tem o direito de ficar calado...
- Tá certo, ta justo doutor to falando nada não, esse papel aí deve permitir isso também.

Em meio aos olhares perplexos, o grande pássaro voador subiu levando algemado Zé das Raizes, enquanto Totonho, o doidinho esquizofrênico da vila, apontava o dedo indicador para o horizonte onde o helicóptero era apenas um pontinho preto no vazio da tarde e dizia insistente e seguidamente: - Totonho conseguiu realizar o sonho do Zé de um dia voar e ganhar o Céu...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

O PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA DO SERVIÇO PÚBLICO VERSOS OS ÓRGÃOS ESTATAIS POUCO EFETIVOS E NADA EFICAZES



O PRINCÍPIO DA EFICIÊNCIA DO SERVIÇO PÚBLICO VERSOS OS ÓRGÃOS ESTATAIS POUCO EFETIVOS E NADA EFICAZES

     Para fazer a digressão do enunciado acima, como força cognitiva utilizarei um fato concreto para ilustrar a “eficiência dos serviços públicos”, não sem antes mencionar a fonte original que alimenta todos as normas de menor hierarquia desta nação, cito portanto a lei maior, a Constituição Federal Brasileira que assim se dispõe no seu Art. 37 A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência...” (destaque por minha conta).
Sabemos que ainda existem brasileiros, cuja conduta e valores morais e éticos, os impulsionam ao cumprimento do dever, que respeitam e prestigiam as normas, que mesmo sabendo do destino nem sempre honroso dado aos recursos públicos, ainda assim os recolhe aos cofres tributários por obrigação normativa, consciência social e esperança continuada de que nunca será tarde e o instante pode ser a qualquer momento, até mesmo agora, em que a sociedade vá acordar desse sono psicotrópico para exigir, respeito e decência na conduta dos agentes públicos, individuais e ou corporativos.
Imaginemos que este cidadão tenha acatado o apelo da administração pública no sentido de pagar a integralidade do IPVA, referente ao exercício de 2013, no inicio do exercício financeiro e assim ter um discreto desconto. Foi justamente com este propósito, que se dirigiu ao banco, para tanto, atravessou a cidade sem o sucesso de conseguir desviar de todos os buracos existentes na pista de rolamento, são muitos buracos e algumas crateras, não há habilitados e ou peritos, azes do volante que consigam essa façanha e promovam uma condução totalmente limpa e lisa.
Obrigação cumprida de forma antecipada, pagamento realizado, tudo certo, retorna ao lar praticando “direção desviante”, fato este que o faz ter a primeira sensação cética de que a eficiência do serviço público carece de reparos. “Encafifado” com a desobediência pública à Constituição Federal, passa a aguardar o documento em casa, a final de contas, deveria chegar através de um serviço público perpetrado por uma empresa pública, regida pelo princípio da eficiência, isto é, os correios, todavia, este, sob alegação de não ter encontrado moradores no endereço cadastrado no Detran, recolheu o documento de IPVA, sabe se lá para onde.
O endereço cadastrado no órgão público estava e continua correto, entretanto grifado no site como fator de impedimento, a família ali residente é constituída por quatro pessoas, que, pelo fato de serem produtivas permanecem na lida quando dos horários comerciais convencionais, entretanto, a partir das 18:00 horas pelo menos dois dos moradores lá podem ser encontrados. Ora, esta é a realidade contemporânea, acredito que boa parte dos brasileiros não ficam em suas casas nos horários diurnos, porquanto estão na labuta diária trabalhando, até porque metade dos seus esforços e ganhos vão para o Estado através do pagamento de tributos.  Presumo que a boa dinâmica do principio da eficiência recomendaria que as correspondências cuja assinatura  do destinatário seja obrigatória, frustrada a primeira tentativa de entrega no horário comercial, deveriam ser entregues em turnos, noturnos até às 22:00 horas.
Cidadão consciente e preocupado, se o documento não chega, ele não se acomoda, assim acessou o site do Detran e lá encontrou a seguinte orientação: "RLV DEVOLVIDO PELO CORREIO - DISPONIVEL PARA ENTREGA AO PROPRIETARIO NO POSTO UAI - AV. JOAO NAVES DE AVILA, 317 - CENTRO - UBERLANDIA".
Em meados do mês de março se dirigiu ao balcão da Unidade de Atendimento Integrado UAI – Uberlândia-MG, órgão da administração pública direta, vitrine do Marketing da eficiência dos serviços públicos e mesmo havendo mostrado o extrato do Detran recomendando para procurar a UAI, ainda assim foi orientado a deslocar até a unidade dos correios localizado na Av Getúlio Vargas pois o documento não estaria na UAI e sim no correio, chegando na citada agencia dos correios, foi orientado a voltar a UAI pois o documento estaria mesmo neste e não mais na tutela daqueles.
Quarenta dias depois, isto é em data de 24/04/2013 se aporta novamente na  Unidade de Atendimento Integrado UAI – Uberlândia-MG e mais uma vez a mesma conversa dantes, pede então para falar com alguém responsável por aquela Unidade, em princípio recebe a informação de que não poderia ser atendido, depois de muita insistência e até de informar que registraria uma ocorrência do fato para se acautelar em eventuais fiscalizações de trânsito. A partir dai foi informado que não poderia ser recebido mesmo pela chefia mas que deixasse o telefone pois receberia em breve uma ligação dando conta do ocorrido com o seu IPVA.
Até o momento a ligação não ocorreu, o que contamina de forma gravíssima  o instituto Constitucional da eficiência do serviço público o colocando convalescente e totalmente em xeque perante aos usuários. Pois bem, como diria o poeta, Roberto Carlos, ... Bicho, cara, meu amigo Erasmo, só que desta vez quis o destino que “esse cara fosse eu”, amanhã pode ser o Zé, o Pedro, Paulo, Washington, Lincon, Tiêta, Bethania, Márcia e tudo indica que pode chegar até você amigo que me lê nesse momento...
Portanto solicito que me ajudem e que se ajudem replicando esse manifesto no seu ciclo de amizades sejam elas virtuais ou não.

Adélito Barroso Faria, um brasileiro.
Boa noite.
Se puder replique esse manifesto para todos os seus contatos, assim estará fazendo um bem para todos nós brasileiros vilipendiados nos seus direitos.

desreipetados.



sexta-feira, 12 de abril de 2013

PURO TERRORISMO.



UM DIA NO DENTISTA

                Dias atrás li uma crônica do meu desconhecido amigo João Neto, cunhado de Christiano e irmão de Isis, visite-o (http://centraldeideias1.blogspot.com.br/) em que abordava suas experiências quando das suas idas à consultórios médicos, foi ai que lembrei da ultima intervenção na minha arcada dentária que ocorreu mais ou menos assim:
                Cheguei na recepção da Clinica, me apresentei adiantando a intenção de promover uma assepsia nos dentes, fui encaminhado para o interior da "sala de torturas" onde me assentei numa daquelas cadeiras que te imobiliza sem permitir alternativas para uma eventual rota de fuga, ladeada por braços que te abraçam, postada à frete, minha algoz com aquela indumentária ufologista, munida com toda sorte de material estranho mas de aplicação óbvia, naquele momento, a única e última esperança era ser abduzido ou quem sabe resgatado por uma força tarefa altamente especializada, criada pela ABFA "associação dos banguelas felizes e assumidos".
                Nunca gostei da tal anamnese, parece que só te entrevistam para ter a certeza de que quando da execução da tarefa vão te "sacanear". Veja no meu caso por exemplo em que queria uma simples limpeza nos dentes, mais a profissional responsável pelo trabalho, contrariou aquela máxima de que o cliente sempre tem razão, se preocupando justamente com o que não lhe encomendei. Concentrou as suas atenções numa falha dentária que tenho a anos e que com ela convivo muito bem obrigado, aquela falha parecia mesmo ser o seu objeto de desejo e quem ali se dirigiu para uma simples e despretensiosa limpeza, agora discutia o nada, o espaço vazio, o buraco negro da boca. Inexplicavelmente, sai do local com data e hora marcada para realizar um dito procedimento simples de implante dentário.
                Na data agendada, lá estava eu com cara de "sem vergonha" de curta memória "estatuado" naquela infausta e agourenta cadeira, enfrentando o ritual macabro, agora para implantar um dente e com isso ganhar um sorriso mais vistoso, ou seja, para resgatar o sorriso de alguém cujo trauma que sofreria pela inoportuna operação, guardava boas chances de cessar qualquer possibilidade de voltar a sorrir um dia. O cenário era surreal de futuro incerto, em que os derradeiros dias de vida, se viesse a correr, o que só se admite na remota hipótese de conseguir escapar daquela legitimada tentativa de homicídio, seriam amargos, sem sorrisos e, por conseguinte, sem exposição dentaria.
                A "lunática" se apresentou com aquele olhar estranho por de traz de um óculos inspirado nos modelos herdados dos mal fadados laboratórios nazistas, emergidos dos porões dos campos de concentração. A ariana do primeiro reich, vestia a rigor e para se sintonizar ainda mais o perfil de caça aos fantasmas, portava uma seringa cuja extremidade ostentava uma agulha de grosso calibre que lhe credenciava a engolir uma bala de canhão, fosse o liquido anestésico um néctar de flor do serrado, poderia perfeitamente ser acessado via orifício da agulha que acomodava com folga o fino bico de um colibri.
                Apavorado, fiz a óbvia e absolutamente desnecessária pergunta que só se faz mesmo por desencargo de consciência e a não menos óbvia resposta veio a galope, cavalgando numa generosa porção de sadismo. "- Não, não vai doer nada, é por isso que vou aplicar anestesia, não vê? Sim SENHORA Dra. maiss... e ela com a sutileza de um paquiderme, assumiu irresoluta o comando da situação, confiscou o meu Direito Constitucional de opinar e até mesmo de verbalizar, "coisificou-me", abriu a boca alheia como se abre um cadáver na fria mesa de necropsia e passou a aplicar sucessivas, ininterruptas e insuportáveis agulhadas como se estivesse tricotando uma colcha de rendas.
                O seu ritmo me fez lembrar a infância no agreste mineiro, quando na mais tenra idade, no Distrito de Milho Verde, Vale do Jequitinhonha, ficava horas a fio observando as mãos hábeis de minha estimada avó, na beira do fogão de lenha a tecer forro de mesa com lã de carneiro e assim sustentar a família. Que Deus a tenha em distinto lugar, em vida foi a reserva antecipada que fez com a sua conduta virtuosa. Em fração de segundos, a agulha obscenamente entrava e saia naquela manta que se formava e crescia numa rapidez extraordinária, assim também parecia ocorrer no tecido gengival.
                Percebendo a minha ansiedade e desconforto, a "laborativa profissional" soltou uma perola, a verdadeira fina flor do cinismo: - E ai como esta se sentindo? Tudo bem? Não está com dor não é? O derradeiro suspiro de humor que ainda restava, habilitava-me a cômica resposta de que não estava "tintindo" nada, mas não havia espaço para brincadeiras e muito menos para piadinhas, não tinha autoridade sobre os movimentos labiais, nem coordenação motora eu tinha, era um mudo de boa audição, fato este que agravava ainda mais a situação desfavorável.
                Ah! Como sonhei com a tradicional dobradinha, surdo/mudo, não queria ouvir aquela furadeira elétrica, de mesma sonoridade e eficiência das utilizadas na construção civil para romper concreto, só que esta penetrava massa óssea humana formada com leite materno. Tudo era desolador, apavorante e brutal, eu transpirava tal qual cavalo de raça no final da corrida, a taquicardia parecia sintonizar o coração no mesmo ritmo da furadeira, os olhos fechados e contraídos com tanta força que pareciam temer serem os próximos a sofrerem o ataque que ocorria no andar de baixo com a sua vizinha. Em derradeiro ato de bravura e extrema coragem os abri, melhor não tê-lo feito, quase fui a nocaute, aqueles óculos bem a frente, precisavam de um limpador, tipo aqueles de para-brisa de automóvel, estava todo chamuscado de pontinhos brancos e vermelhos vindos da cavidade bucal, que como uma erupção vulcânica expelia uma cortina de fagulhas de osso e sangue, era uma fonte luminosa sem romantismo e sem poesia. A estas alturas o melhor era ser mudo, suro e cego também.
                Duas horas depois nada do sonhado resgate nem da improvável abdução, a incauta se desfez do instrumento primata e pegou uma chave-catraca, passando a apertar um parafuso no osso da mandíbula e o fazia com tanta força que parecia querer deslocar o pescoço como se fosse provocar um giro de 360°, como fazem as corujas. O torcicolo, já me acompanhava fazia tempo, a bexiga no ponto de estourar, cólicas insistentes etc. etc. Contudo, nessas condições o senso de sobrevivência é tão forte que você estranhamente se mostra seletivo e se conduz por prioridades, naquele instante nenhuma de todas as outras dores do resto do corpo que não estava sob efeito de anestesia sobrepunha a tensão e desconforto daquele momento. Nestas circunstâncias qualquer um poderia parir filhos gêmeos sem desviar do ponto principal e da angustia maior.
                Como nada é tão trágico que não possa piorar, o parafuso emperrou e não rompia nem pra frente e nem voltava para o ponto de onde nunca deveria ter saído, foi ai que a genial nazista disse: - "Você tem que me ajudar, precisa abrir a boca ainda mais", pensei comigo... Como?  Se sequer consigo fechá-la, pois o parafuso funcionava como uma alavanca, escorando e mantendo a posição da boca em um ponto tão extremo de abertura cuja passagem daquele limite representaria o rasgamento do tecido. Para completar, já sem honra e dignidade, de vez que havia perdido totalmente o império da autonomia da vontade e do querer, veio a sentença da “douta” ao recomendar que sua auxiliar pegasse um tal esticador, pensei cá comigo, a matéria-prima tá pronta, que "cagada", fazer o 1 e o 2 ali seria o fundo do poço, pensei mais uma vez, será?
                Resisti e munido da última reserva moral que ainda restava, mas que se esvaia como espermatozoides na corrida pela fecundação, peguei a caneta no bolso da camisa e em um guardanapo totalmente embolado nas mãos, entregue no inicio da seção, sei lá para que finalidade, provavelmente só para ser amassado mesmo, de sorte que o paciente se mantenha literalmente paciente e não esmague..., deixa prá lá. Só sei que escrevi: "Quero ir embora agora, desisto do tratamento, não posso te ajudar em nada, alias desde o inicio já não podia fazê-lo. Dê uma anestesia geral, sacrifica-me, vai encontrar um revolver bem ai na cintura, ou então utilize uma morsa, um macaco hidráulico, chame o bombeiro, o GATE, quem quer que seja, mas por favor não me peça ajuda e me tire daqui".