Nem côncavo nem convexo
Apenas um velho espelho comum e reto
Fielmente a refletir as marcas do tempo
Impecável a denunciar os maus tratos
Hoje imprudentemente o encarei de frente
Amarga surpresa, triste nocaute
Aquele rosto familiar de um desconhecido
Deixou-me perplexo e angustiado
Era uma face amistosa, de traços fortes
Havia boa dosagem de clarividência
E prudência não lhe faltava
Mas não me era compatível, ali não estava
Ao corpo do meu pai melhor calçava
Os cabelos castanhos cheios de vida a brilhar
Covardemente abandonaram a cotidiana luta
Suas lacunas receberam frágeis e ralos fios brancos
A formosura da pele elástica e rublo
Deu lugar a um revestimento rugoso e áspero
O rosto expressivo, pródigo e viril
Apresenta-se cansado, decrépito e minguante
O par de olhos altivos a brilhar
Aventureiro no tempo a progredir
Certo de o mundo conquistar
Já não se mostra capaz de reluzir
Ofuscado, sente o peso das pálpebras sobre ti a debruçar
Temeroso por no campo minado do futuro conduzir
Aprendeu a ler e crer na implacabilidade do tempo
Que lá na frente já não tão adiante, está a linha de chegada
O fim...
Adélito Barroso Faria (Udia, 08/12/03 – 21:35)


