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sábado, 12 de outubro de 2019

Aniversário de Vida

Pai hoje seria o grande dia do seu aniversário e agora?
Em fevereiro pela manhã do nada o senhor foi embora.
Nem nos despedimos para ficar tanto tempo fora.
E lá estava você deitado num caixote em cima do seu carro de boi. 
Ali no terreiro da porta da sala, no lugar em que o senhor assentia.
Vinha gente de todo lado, indagando com perplexidade como foi?
Eu dizia, não sei, ele brincava tanto, deve está de brincadeira agora.
Mas todos choravam, brincadeira que nada, era chegada a derradeira hora.
Os seus cachorros permaneceram todo o tempo debaixo do caixão. 
Marcelo não arredou o pé do baú cujo nosso tesouro abrigava, incrédulo só chorava.
Vieram os parentes e amigos mais considerados de todas as bandas e de tudo quanto é lado.
O Vavá nem no megafone conseguiu viva voz para as honras fúnebres anunciar.
Teve terço, culto ecumênico e todas as preces, tinha queijo, café, biscoito e bolacha.
As meninas assustadas se amontoavam no quarto, não tinham coragem de perto chegar, distantes se punham a espiar.
Eu andava de um lado para o outro, no exercício do oficio cerimonial, tomando as providências que jamais queria tomar.
Pensei em colocar musica de Nelson Gonçalves que o senhor gostava, mas talvez não fosse aceito em bom lugar, se lã chegasse cantando: "boemia aqui me tens de regresso".
De vez em quanto um rosto conhecido me abraçava oferecendo condolências, eu no automático, mecanicamente correspondia.
Era eu o mais presente e também o mais ausente, pois ali não estava, não era minha a silhueta que ostentava.
Pensava nas nossas conversas, no barulho das suas precatas quando andava, mas também quando em minha popa surrava.
Sentia o seu cheiro, as suas empreitadas no garimpo, o senhor operando a alavanca e cortando a formação a procura de diamantes.
Passei pelas suas dores de cabeça brutais, imaginei a alegria dos seus inimigos fronteiriços.
E aquele dia na garupa da minha primeira moto, descendo a Av Bahia o senhor com um radio de pilha nos ouvidos descontrolou e caiu.
Me lembrei dos seus olhos brilhando nas minhas formaturas, o senhor orgulhoso de mim e eu mais ainda do você.
O senhor estava bem surdo ultimamente e eu não sei falar alto, então ficávamos horas em silêncio apreciando um ao outro e as suas exóticas coisas, de canários amarelos ao amarelo do ouro. 
Cheguei a arrumar alguns aparelhos auditivos, mas o senhor não se adaptou a nenhum, acho que não queria ouvir mesmo mais latomias.
O tempo passava, a angústia aumentava, o peito apertava e o coração doía.
O dia amanheceu, sempre aprecio o nascer e o pôr do sol, mas neste dia da sua morte, foi o nascer mas triste da minha vida.
A hora do enterro chegou, ali um pouco de cada filho morreu também.
Agora estou aqui sentado do lado de dentro do cemitério usando a sua internet.
O céu está bonito, mas sopra um vento fúnebre, frio e triste por aqui.
O Bilu morreu poucos dias depois, o pitoco acabou de colocar as patas em cima do muro do cemitério, lambeu a minha cabeça e começou a uivar.
Abandonei o poema, daqui pra frente só vou fazer registro do que está acontecendo.
Uma cigarra começou a cantar, é outra que vai estourar se continuar nessa empolgação lirica.
Uma formiga me pica na perna, ia matá-la mas achei que pudesse ter formiguinhas, imaginei a dor daquelas então a deixei picar.
As lajes arde em chamas é a notícia que se tem, nem lá pude ir ainda ver a herança queimar.
Do lado de fora a vida segue normal, meninos jogam bola, um hippie toca batuque e o vento sopra friagem.
Gostei dessa cruz vazada na pedra que fiz para o senhor, só não cravo um diamante azul nela por receio dela ser destruída em razão dele.
Alguém o homenageou com rosas dentro de um litrão pet de mate coro, deve ser a Conceição.
São 18:16, as coisas por aqui se acalmaram, o meu coração também serenou, vou indo nessa pai, a sua benção.
vida que segue e morte também. 
Adelito 11 de outubro de 2019.

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