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terça-feira, 29 de outubro de 2019

Lágrimas


Como pode diante de tantas maravilhas que as próprias lentes dos óculos revelam, haver por traz um observador a disfarçar olhos que derramam o néctar de tristeza da mais profunda dor.

sábado, 26 de outubro de 2019

Precedente

Este é um espaço destinado às minhas criações literárias, entretanto hoje abro um precedente para publicar aqui um pensamento do filósofo racionalista, Baruch de Spinoza, isto porque em grande medida me filio ao pensamento filosófico desse genial camarada.

Deus teria dito:

“Pare de ficar rezando e batendo no peito! O que quero que faça é que saia pelo mundo e desfrute a vida. Quero que goze, cante, divirta-se e aproveite tudo o que fiz pra você.

Pare de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que você mesmo construiu e acredita ser a minha casa! Minha casa são as montanhas, os bosques, os rios, os lagos, as praias, onde vivo e expresso Amor por você.

Pare de me culpar pela sua vida miserável! Eu nunca disse que há algo mau em você, que é um pecador ou que sua sexualidade seja algo ruim. O sexo é um presente que lhe dei e com o qual você pode expressar amor, êxtase, alegria. Assim, não me culpe por tudo o que o fizeram crer.

Pare de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo! Se não pode me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de seus amigos, nos olhos de seu filhinho, não me encontrará em nenhum livro.

Confie em mim e deixe de me dirigir pedidos! Você vai me dizer como fazer meu trabalho?

Pare de ter medo de mim! Eu não o julgo, nem o critico, nem me irrito, nem o incomodo, nem o castigo. Eu sou puro Amor.

Pare de me pedir perdão! Não há nada a perdoar. Se eu o fiz, eu é que o enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso culpá-lo se responde a algo que eu pus em você? Como posso castigá-lo por ser como é, se eu o fiz?

Crê que eu poderia criar um lugar para queimar todos os meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que Deus faria isso? Esqueça qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei, que são artimanhas para manipulá-lo, para controlá-lo, que só geram culpa em você!

Respeite seu próximo e não faça ao outro o que não queira para você! Preste atenção na sua vida, que seu estado de alerta seja seu guia!

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é só o que há aqui e agora, e só de que você precisa.

Eu o fiz absolutamente livre. Não há prêmios, nem castigos. Não há pecados, nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Você é absolutamente livre para fazer da sua vida um céu ou um inferno.

Não lhe poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso lhe dar um conselho: Viva como se não o houvesse, como se esta fosse sua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não houver nada, você terá usufruído da oportunidade que lhe dei.

E, se houver, tenha certeza de que não vou perguntar se você foi comportado ou não. Vou perguntar se você gostou, se se divertiu, do que mais gostou, o que aprendeu.

Pare de crer em mim! Crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que você acredite em mim, quero que me sinta em você. Quero que me sinta em você quando beija sua amada, quando agasalha sua filhinha, quando acaricia seu cachorro, quando toma banho de mar.

Pare de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra você acredita que eu seja? Aborrece-me que me louvem. Cansa-me que me agradeçam. Você se sente grato? Demonstre-o cuidando de você, da sua saúde, das suas relações, do mundo. Sente-se olhado, surpreendido? Expresse sua alegria! Esse é um jeito de me louvar.

Pare de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que o ensinaram sobre mim! A única certeza é que você está aqui, que está vivo e que este mundo está cheio de maravilhas.

Para que precisa de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procure fora. Não me achará. Procure-me dentro de você. É aí que estou, batendo em você.”

sábado, 12 de outubro de 2019

Aniversário de Vida

Pai hoje seria o grande dia do seu aniversário e agora?
Em fevereiro pela manhã do nada o senhor foi embora.
Nem nos despedimos para ficar tanto tempo fora.
E lá estava você deitado num caixote em cima do seu carro de boi. 
Ali no terreiro da porta da sala, no lugar em que o senhor assentia.
Vinha gente de todo lado, indagando com perplexidade como foi?
Eu dizia, não sei, ele brincava tanto, deve está de brincadeira agora.
Mas todos choravam, brincadeira que nada, era chegada a derradeira hora.
Os seus cachorros permaneceram todo o tempo debaixo do caixão. 
Marcelo não arredou o pé do baú cujo nosso tesouro abrigava, incrédulo só chorava.
Vieram os parentes e amigos mais considerados de todas as bandas e de tudo quanto é lado.
O Vavá nem no megafone conseguiu viva voz para as honras fúnebres anunciar.
Teve terço, culto ecumênico e todas as preces, tinha queijo, café, biscoito e bolacha.
As meninas assustadas se amontoavam no quarto, não tinham coragem de perto chegar, distantes se punham a espiar.
Eu andava de um lado para o outro, no exercício do oficio cerimonial, tomando as providências que jamais queria tomar.
Pensei em colocar musica de Nelson Gonçalves que o senhor gostava, mas talvez não fosse aceito em bom lugar, se lã chegasse cantando: "boemia aqui me tens de regresso".
De vez em quanto um rosto conhecido me abraçava oferecendo condolências, eu no automático, mecanicamente correspondia.
Era eu o mais presente e também o mais ausente, pois ali não estava, não era minha a silhueta que ostentava.
Pensava nas nossas conversas, no barulho das suas precatas quando andava, mas também quando em minha popa surrava.
Sentia o seu cheiro, as suas empreitadas no garimpo, o senhor operando a alavanca e cortando a formação a procura de diamantes.
Passei pelas suas dores de cabeça brutais, imaginei a alegria dos seus inimigos fronteiriços.
E aquele dia na garupa da minha primeira moto, descendo a Av Bahia o senhor com um radio de pilha nos ouvidos descontrolou e caiu.
Me lembrei dos seus olhos brilhando nas minhas formaturas, o senhor orgulhoso de mim e eu mais ainda do você.
O senhor estava bem surdo ultimamente e eu não sei falar alto, então ficávamos horas em silêncio apreciando um ao outro e as suas exóticas coisas, de canários amarelos ao amarelo do ouro. 
Cheguei a arrumar alguns aparelhos auditivos, mas o senhor não se adaptou a nenhum, acho que não queria ouvir mesmo mais latomias.
O tempo passava, a angústia aumentava, o peito apertava e o coração doía.
O dia amanheceu, sempre aprecio o nascer e o pôr do sol, mas neste dia da sua morte, foi o nascer mas triste da minha vida.
A hora do enterro chegou, ali um pouco de cada filho morreu também.
Agora estou aqui sentado do lado de dentro do cemitério usando a sua internet.
O céu está bonito, mas sopra um vento fúnebre, frio e triste por aqui.
O Bilu morreu poucos dias depois, o pitoco acabou de colocar as patas em cima do muro do cemitério, lambeu a minha cabeça e começou a uivar.
Abandonei o poema, daqui pra frente só vou fazer registro do que está acontecendo.
Uma cigarra começou a cantar, é outra que vai estourar se continuar nessa empolgação lirica.
Uma formiga me pica na perna, ia matá-la mas achei que pudesse ter formiguinhas, imaginei a dor daquelas então a deixei picar.
As lajes arde em chamas é a notícia que se tem, nem lá pude ir ainda ver a herança queimar.
Do lado de fora a vida segue normal, meninos jogam bola, um hippie toca batuque e o vento sopra friagem.
Gostei dessa cruz vazada na pedra que fiz para o senhor, só não cravo um diamante azul nela por receio dela ser destruída em razão dele.
Alguém o homenageou com rosas dentro de um litrão pet de mate coro, deve ser a Conceição.
São 18:16, as coisas por aqui se acalmaram, o meu coração também serenou, vou indo nessa pai, a sua benção.
vida que segue e morte também. 
Adelito 11 de outubro de 2019.