A verdade é sonho sóbrio sonhado quase que unanimemente desde que não transite livre em via de mão dupla, normalmente ela é mais desejada fluente vindo ao nosso encontro, em pista de rolamento de sentido único.
Queremos a melhor verdade, aquela que nos alcance sem ruídos rudimentares, sem constrangimentos e outros gravames, porque a verdade as vezes fere de morte, então a encomenda deve nos apresentar de rosto limpo, pureza d'alma e selo de virgindade preferencialmente declarada no sacro santo confessionário, nessa pequena casa da "verdade."
Muitos exigem do interlocutor a verdade absoluta, por vezes tenta arrancá-la à força, ou procura obtê-la utilizando das habilidades de um estelionatário ou até da sutil destreza dos batedores de carteira, do tipo verdade roubada das criaturas mais ingênuas ou de pouca malícia.
A verdade é tão perseguida que legitimou um pleonasmo muito recorrente, por certo já ouviram falar da verdade verdadeira. Pois é, em busca dessa redundante e reafirmada verdade os inquisidores desenvolveram uma técnica largamente usada nos processos inquisitórios em que ao depoente só se era permitido responder aos questionamentos de maneira afirmativa ou negativa, isto é sim ou não. Parece-me que hoje em dia essa limitação dialética não agrada muito aos inquisidores contemporâneos, digo isto por experiência própria. Aqui na pousada, para facilitar as coisas, tenho uma mensagem padrão, com muitas informações sobre diversos aspectos do empreendimento, mesmo assim os meus inquisidores majoritariamente preferem formular os seus próprios quesitos, no que estão certos e devem mesmo fazê-lo para dirimir eventuais dúvidas, contudo sinto que as minhas respostas objetivas, não lhes agradam muito, vide um diálogo
de WhatsApp abaixo.
- É da pousada?
Sim, posso ajudar? Se for reserva e informações de valores, fotos, formatação da suíte etc a estou enviando agora para o seu conhecimento e avaliação.
- Tem quarto disponível?
Sim, suíte.
- Mas tem banheiro no quarto?
Sim, são suítes, portanto tem banheiro.
- E banheira tem no quarto?
Não.
- Preciso levar toalhas?
Não.
- E roupa de cama?
Não.
- Tem TV?
Sim.
- A pousada é no Serro?
Não, em Milho Verde.
- Quantos quilômetros têm daqui até ai?
Você esta aonde mesmo?
- Cidade X
Segue mapa, trajeto e quilometragem retirados do google.
- Mais é longe né?
Sim.
- A estrada é asfaltada?
Sim, se vir pelo Serro.
Parcialmente se vir por Diamantina.
- Como assim?
Por Diamantina ainda tem 15 KM de estrada de terra.
- E pelo Serro?
Não.
- As cachoeiras são na pousada?
Não.
- Mas não é Pousada Cachoeiras de Milho Verde?
Sim.
- Sim ou não, não entendi
Esse é o nome de fantasia da pousada.
- A cama é dura?
São camas box com mola.
- Mais é dura?
Alguns disseram que sim outros que não.
- Parece que você não quer responder?
? ? ?...
- "Ata" vou fazer mais orçamentos.
Ok. Sempre as ordens.
Vejam, ao que parece respostas diretas ainda que verdadeiras não frequentam a galeria dos desejos mais cobiçados das pessoas. Em que pese essa nossa genuína fascinação pela verdade, "verdade" é que as próprias convenções sociais ora nos fazem fornecedores, ora consumidores de verdades fatiadas, tais fragmentos são garimpados e amputados do contexto.
Por tudo que tenho visto, muito provavelmente a tal "verdade absoluta" nem exista mesmo, ou se existe é moeda de baixa circulação, o que temos em "verdade" são meias verdades, ou verdades condimentadas cujo tempero agregado dá novo aroma e sabor à matriz, ou ainda verdades maquiadas em que o batom altera a essência original, dentre muitas outras, são verdades personalizadas quase que uma para cada, criadas ao sabor das conveniências particulares.
O mais próximo da verdade que encontrei, está na íris, aprenda a linguagem corporal, notadamente dos olhos e terás algo próximo de uma verdade habilitada a passar pelo crivo e certificação de tradutor oficial juramentado. Porque todos têm a verdade genuína em si, uma joia preciosa intrínseca inegociável, mas na hora de expor a rica preciosidade, a verbalizam como se fosse uma viagem de serpente na aridez do deserto com o sol a pino é esse contorcionismo que, via de regra contamina a verdade de pacífica pureza tirando o brilho e valor da perola que não sai por inteiro da concha que a aprisiona.
Há verdadeiros contorcionistas da verbalização para sustentar a sua verdade personalíssima, são verdades que flertam e andam de mãos dadas com a omissão conveniente e a verdade instrumentalizada por curva dialética não passa de verdade periférica, um remédio genérico com efeito placebo.
Conheço quem diz a verdade, entretanto tomam por empréstimos a má formulação dos quesitos ou até mesmo da ignorância do seu interlocutor, e com base nessas falhas externas amoldam as suas verdades, se necessário, omitem detalhes como se abortassem um filho não desejado. São pessoas virtuosas, gente do bem, cobertas de boas intenções, têm o meu respeito e admiração, contudo tais verdades pacificadas não têm o alcance "erga omnes", nem a pureza e penetração da brisa que sopra do lajeado, aquela sim varre todo o ambiente por onde passa sem mitigar, não deixa nenhum espaço vazio sem a sua visitação, todos a recebe na mesma proporção, profundidade, alcance e renovado frescor originário.
Relativizar a verdade é flertar com a mentira...
Adélito 13/07/2019
