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terça-feira, 8 de agosto de 2017

O HOMEM E A CANETA

Uma caneta é sempre enigmática, uma ferramenta em que o resultado final do seu produto, surge da decodificação de arquivos muita das vezes secretos, registrados na zona cinzenta da memória humana. O registro que decorre do passeio da caneta pelo papel nunca se apaga. 
A escrita descortina a vastidão territorial ao sabor do largo campo das ideias abstratas, desata os nós da teia privativa do pensamento. É por via do texto que o escritor mesmo que sem plano de voo ou mapa de orientação voa, e como uma ave de rapina, desalojam do ninho os mais complexos códigos celebrais.
A própria ficção humana ganha vida, identidade e concretude, a partir do momento em que foge do privativo cárcere craniano, sai do confinamento imaginário, da solitude e isolamento do pensamento, é expulsa do buraco negro da inexistência, do não ser, do nada para ganhar o sopro da vida com a forma e formosura literária.
Entretanto, a caneta é só o instrumento de registros e apontamentos, a mesma tinta que assina a certidão de nascimento também decreta o óbito, chancela o casamento e a ele põe termo, condena e liberta o preso, promove o amor, mas também subscreve o ódio. Portanto o foco original deve levar em conta à essência humana e não a percussão do instrumento.
O passar do tempo é responsável pela depuração do homem e na medida em que ele se desenvolve e evolui espiritualmente, se harmoniza com o meio circundante, e se sintoniza com a energia divina e vital do universo, nesta fase, após profunda assepsia d’álma, percebe-se a presença da mão de Deus em suas ações.
Uma vez maturado pelo exercício cotidiano, após haver experimentado quedas, superações, erros, acertos, sofrer decepções, encarar o amargo sabor da derrota sem perder a ternura, significa que em fim a caneta ganhou o status de instrumento divino, pois toda ferramenta nas mãos de um sábio tende a produzir o bem comum...

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