Uma caneta é sempre enigmática, uma ferramenta
em que o resultado final do seu produto, surge da decodificação de arquivos
muita das vezes secretos, registrados na zona cinzenta da memória humana. O
registro que decorre do passeio da caneta pelo papel nunca se apaga.
A escrita descortina a vastidão territorial ao
sabor do largo campo das ideias abstratas, desata os nós da teia privativa do
pensamento. É por via do texto que o escritor mesmo que sem plano de voo ou mapa
de orientação voa, e como uma ave de rapina, desalojam do ninho os mais complexos
códigos celebrais.
A própria ficção humana ganha vida, identidade e
concretude, a partir do momento em que foge do privativo cárcere craniano, sai
do confinamento imaginário, da solitude e isolamento do pensamento, é expulsa
do buraco negro da inexistência, do não ser, do nada para ganhar o sopro da
vida com a forma e formosura literária.
Entretanto, a caneta é só o instrumento de
registros e apontamentos, a mesma tinta que assina a certidão de nascimento
também decreta o óbito, chancela o casamento e a ele põe termo, condena e
liberta o preso, promove o amor, mas também subscreve o ódio. Portanto o foco
original deve levar em conta à essência humana e não a percussão do
instrumento.
O passar do tempo é responsável pela depuração
do homem e na medida em que ele se desenvolve e evolui espiritualmente, se harmoniza
com o meio circundante, e se sintoniza com a energia divina e vital do
universo, nesta fase, após profunda assepsia d’álma, percebe-se a presença da
mão de Deus em suas ações.
Uma vez maturado pelo exercício cotidiano, após
haver experimentado quedas, superações, erros, acertos, sofrer decepções,
encarar o amargo sabor da derrota sem perder a ternura, significa que em fim a
caneta ganhou o status de instrumento divino, pois toda ferramenta nas mãos de
um sábio tende a produzir o bem comum...


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