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domingo, 29 de maio de 2016

Frio da lascar, não exatamente do Alaska

Quando se leva uma vida simples, as atitudes e comportamentos também o são, as coisas do dia a dia passam a nos visitar sem a alta e pesada carga das grandes complexidades, de tal modo que os minguados problemas quando chegam já trazem consigo no bornal o mapa/receita da resolutividade.
 Nesta noite fria de outono travei uma verdadeira nano batalha com os ventos gelados que deslocam do Pico do Itambé e absolutos sobrevoam a várzea do lajeado, onde absolvem o orvalho da vegetação rasteira para se abrandarem nos aconchegantes braços das singelas vielas do Distrito. 
 Estava eu entrincheirado numa das suítes da Pousada Cachoeiras de Milho Verde,  (www.facebook.com/pousadacachoeirasdemilhoverde/) os termômetros marcavam três graus, no entanto como a edificação está no mesmo nível da várzea de frio polar, separada apenas por uma depressão  geográfica do fundo da fonte do meio, a sensação térmica indicava menos quinze. 
 O chamativo e muito aconchegante estabelecimento é o primeiro da vila naquele sentido de nivelamento com o lajeado, de modo que se transformou na principal barreira e cartão de visitas que se encarrega de recepcionar as poéticas e gélidas correntes que habitam as comunheiras das montanhas de Minas.  
 Na parte de baixo da porta de madeira da suite em que ocupava, de cima da cama e embaixo de três edredons, incrédulo eu via a fumaça branca invadir o quarto, era como se houvesse esfregado uma lampada mágica e ali, bem  à minha frente perfilava um gênio de turbante e fumaça que três pedidos me concedia.
 Pensei logo em pedir que fechasse  uma janela esquecida aberta que de tempo em quando batia e eu acordava, dormia e ao sabor das suas pancadas de novo despertava, quando ocorria, ir lá fechar eu bem que queria, mas o frio não permitia e de novo dormia e acordava, lá não ia resolver a uma simples questão e arriscar uma hipotermia.
 Decidi me abster desse pedido, não poderia desperdiçá-lo por algo tão banal, até cheguei a pensar que o barulho nem fosse de uma só janela aberta, mas quem sabe de todas elas aplaudindo a dança do vento com a garoa "fina e fria" quão modelos em desfiles. 
 Requerer a cessação da valsa, até me ocorreu, mas não seria adequado e nem conveniente, como separar aquele pobre par cujo encontro só se dá nas noites frias de outono? Não seria fidalgo da minha parte usar um pedido para uma mesquinha crueldade vil. 
 De novo desperto ao agudo som, desta feita eram os pedreiros chegando para o labor diário e o primeiro deles sem atender qualquer pedido, num decisivo e voluntário gesto nobre  a janela fechou, nobre mas em vão porque naquelas circunstancias já não mais poderia dormir...

quarta-feira, 4 de maio de 2016

I D E N T I D A D E

"Registro feito do mirante da Pousada Cachoeiras de Milho Verde"
I D E N T I D A D E
A vida é assim, a morte também
Hoje se chega, amanha se vai além
Nesse contexto por um curto período se mantem
O tempo não para e não espera por ninguém
Apenas segue indelével e implacável no seu curso
Ele é imponderável às realizações pessoais
Isto ou aquilo é irrelevante ao rumo e trajetória
Ele só vai e vai só, passando e a travessia realizando 
Tudo o que é do homem, com o homem se vai
As realizações que elevam o espírito, tem dono e o segue
Aquilo que contaminam a alma também, e a ela se adere
As posses e  obras materiais são daqui e daqui não saem
Muito do que se esconde, quase sempre corrompe
Aquilo que abunda pode ser que não convém
A essência genuína do ser, por si só se impõe 
E essa é a única identidade que nos apraz.
Adélito, 04/05/2016.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

TRAVESSIA


TRAVESSIA
Era um, era outro
Um bebia muito, o outro também
As vezes um parava e o outro seguia
Do nada um retomava, o outro se abstinha
Hora sim hora não, bebiam as vezes não
Se revezavam como corrida de bastão
Quando um hibernava, outro temia
Por vezes era o outro quem mais enxugava
Um logo receava e vice versa
Hoje foi muito triste
Um que já há muito não mais bebia morreu
Desencarnou na ilusão de que fora primeiro, à frente do outro
O outro não sabia e não saberá, já estava morto
Só que ninguém o houvera achado ainda
Coube a mim o triste encontro
Que Deus receba e acolha os dois na paz de Cristo
Aqui jaz, dois vizinhos amigos que juntos fizeram a travessia
Milho Verde, 16 de abril de 2016. Adélito Barroso