Em visita a um crematório, a
finitude da vida elegantemente a mim se apresentou, e o fez como fazem as
grandes damas, tão fina, tão meiga, tão atraente e insinuante que parecia
particularmente interessada em marcar um inevitável futuro encontro, com muita
habilidade e classe revelou a imprevisibilidade do dia de amanhã, por ética e
fidalguia evitou comentar que a morte é para todos e por vezes nos surpreende
sem aviso prévio.
Mesmo balançado pelo
determinismo da vida e da morte, fiz o jogo fino do flerte e da sedução, de
modo a demonstrar um certo interesse, todavia relativo e eventual, quem sabe,
um compromisso para o futuro, em data mais adiantada no tempo, algo para um
prazo mais esticado. Naquela oportunidade, o elástico da vida não me parecia
tensionado no limite da flexibilidade existencial, não poderia assumir um
compromisso tão definitivo, tinha outros projetos infinitas vezes mais
importantes na ordem de prioridades.
Mas a curiosidade me fez entrar no
jogo e por pura especulação, dirigi-me a um senhor de meia idade, cabelos
grisalhos, terno do tipo, "homens de preto", olhar seco e profundo
como cisterna no nordeste, procurei saber o nível de calor propagado naquela
câmara "ardente". Indagação despretensiosa, sem aprofundamentos,
característica daqueles que não querem, confrontar a precisão do peso do fardo
que a verdade carrega. Porque a lucidez é paradoxalmente insana, na medida em que
ao ameaçar a ignorância, por extensão também hostiliza o mais cômodo e costumeiro
estilo de vida.
- Um mil e
duzentos graus célsius senhor.
Céus? que
horror!!!
- Sim senhor,
célsius.
Não, não eu
quis dizer céus de divindade, deixa pra lá. Certo é que do jeito que fala, creio
que não sobra nada do corpo da gente, por seguro, melhor mesmo é bater na
madeira três ou mais vezes, não é verdade?
- Sim senhor,
para a família deixaremos as cinzas e as lembranças senhor.
E o
inferno?
- Como, o que
disse senhor?
Nada, bobagem, só estava
pensando alto de como seria o calor do inferno, certamente acima de 1200°, como
o futuro é uma incógnita de leitura imprecisa, em que no dia a dia compramos
uma passagem no escuro, só de ida, dependemos de uma obra subjetiva, donde quase todos acreditam estar assentando os
tijolos certos, no jugo particular todos se acham bons semeadores. Assim, por
questão de prudência racional e sem nenhuma garantia do destino final, é sempre
bom estarmos bem aclimatados com o futuro endereço, que, pode ser o Céu, mas também
Marte ou o Inferno, e para os dois últimos não há ar condicionado que resolva. Portanto,
na certeza da partida e imprecisão sobre o ponto de chegada, nada mal iniciar a
jornada a 1200° e já ir se acostumando.
-O senhor tem
toda razão e vejo um grande interesse seu pelos nossos serviços, vou
encaminhá-lo ao nosso burial ceremony.
Sem direito a réplica fui
apresentado a um senhor também de meia idade, este, com cara de muitos amigos,
daqueles que ao nascer ao invés de chorar, oferece a placenta da mãe para reserva
de células tronco em troca da própria mamadeira, tinha estereótipo de vendedor
profissional, articulava toda a conversa em função do mercado contemporâneo e
as consequências de um futuro incerto em que todos vão se ferrar, exceto você,
que, mesmo assistindo àquela calamidade estará no bem bom, tranquilo, inclusive
de consciência. Ali na minha frente perfilava o melhor vendedor de morte em
vida.
Iniciou dando uma prévia de como
se procede a um evento fúnebre de gala, em alto estilo, digno das grandes
expressões planetárias. Foi Imperativo e categórico com relação a inexistência de esperança para nenhum mortal,
absolutamente ninguém se livrará da ordem do despejo final. Portanto, a melhor
demonstração de dignidade e nobreza seria mesmo perfilar e se manter de
prontidão, em face do momento final que se aproximava e o fazia continuamente
para todos. Na existência devemos construir momentos eternos em meio a uma vida
absolutamente efêmera, até porque, por vezes, a convocação se dá de imediato,
sem avisos e nem oportunidade de concluir desejos e projetos não finalizado.
Até mesmo os mais afortunados, o
máximo que conseguirão no derradeiro suspiro é uma vela na mão, ninguém terá um
gênio da lâmpada para perpetrar codicilo de última hora. Aquele homem falava
como "pobre na chuva", utilizava porém vocabulário rebuscado, parecia
garimpar no dicionário palavras capazes de convencer de que a morte é tão
certeira que deveríamos investir um pouco mais no seu determinismo. As vezes me
perdia naquele falatório sem fim, e em pensamento refazia pontuais fragmentos da conversa, agora
mesmo estava pensando nos afortunados com o mundo aos seus pés e uma vela derretendo
cera quente nas mãos.
De repente, como um predador ao
sentir a presa dominada desferiu o golpe fatal, apresentou-me um galpão cheio de
caixões, deteve-se diante de um em especial, este parecia um ônibus londrino,
daqueles de dois andares. Com habilidade macabra argumentava que para o meu perfil
aquele seria o ideal na futura condução, dizia que essa conversa de caixão sem gavetas
era coisa do passado, aquele tinha e era muito utilizada, para a condução de
mimos, imagens e orações prediletas do "de cujus", também tinha tampa
dupla face, retrátil e sobreposta com lente de aumento no visor, de modo a permitir
uma visão ampliada do morto, assim, este se apresentaria com aparência física mais
robusta, elegante e viril, já a face interna era espelhada para que o usuário
pudesse "narcisar" um pouco, se auto curtindo nessa fase de ex-vida.
Aquele senhor era mesmo muito
persuasório, evitava a palavra caixão, dizia que aquele "aparelho"
dava um destaque especial ao promotor do evento, uma vez que vinha equipado com
luzes de led Collor no entorno, que somado à maquiagem devolvia ao usuário um semblante
altivo e vital, dando-lhe uma boa "levantada", o equipamento vinha personalizado, fabricado sobre medida,
confortável, almofadado a base de pena de ganso e tecido aveludado, no entorno,
possuía alça de bronze, banhada em ouro e prata, base de silicone a fim de amortecer
eventuais impactos, turbulências e trepidações. E, se adquirido ali, naquele
exato momento, receberia inteiramente grátis, a seguinte inscrição no jazigo:
"Até breve, não mais voltarei, mas te vejo lá".
Naquele momento, antes de fechar
o negócio, comecei a viajar em tudo que aquele vendedor de féretro havia dito,
nunca tinha parado para pensar naquelas esquisitices de protocolos fúnebres.
Imaginei-me num palco de boate cantando um funk em meio àquelas tais luzes de
led, tirando um self e publicando a letra nas redes sociais.
"Abaixa, abaixa, abaixa
até o chão.
Abaixa, abaixa, abaixa até o
chão...
Não, não o meu caixão abaixa não.
Não, não o meu caixão abaixa não...
Então sobe, sobe, sobe. Sobe e esquenta.
Então sobe, sobe, sobe. Sobe e esquenta...
Ai, ai, ai hai ai hai ai, assim mata papai.
Ai, ai, ai hai ai hai ai, assim mata papai.
Enfia, enfia, enfia...Enfia e põe...
Enfia, enfia, enfia...Enfia e põe...
Põe no forno prá queimar que as cinzas vão voar.
Põe, põe, põe...
Põe no forno prá queimar que as cinzas vão voar."
Depois pensei sobre o
"aparelho" que ia projetar e dar destaque ao usuário, na qualidade e
envergadura do produto, na proposta viril nele intrínseca, sua modernidade,
arrojo, tecnologia embutida e conceito de despojamento sem perda do padrão
clássico. A cabeça borbulhava não mais havia concatenação das ideias, qualquer
um por menos consumista
que fosse se via e até sonhava saindo dali dentro de uma limusine
daquelas. No êxtase da prospecção de morte não poderia esperar o dia seguinte para
melhor pensar e quem sabe fechar negócio. O tempo urge, a vida de um homem
prevento lhe garante morte segura, tinha que ser ousado, o amanhã é muito
incerto, pode até não vir, certeza mesmo só da morte. Afinal de contas, temos
que nos manter perfilados a espera do golpe fatal, que democraticamente chegará
para todos e sem avisos, apenas a intimação executória.
A promoção se fazia tentadora,
ainda assim, para evitar chateações futuras quis ler o contrato, algumas cláusulas em particular chamaram-me atenção, por exemplo o dispositivo de
arrependimento em que este, só seria aceito após o comprador haver testado na
prática e em situação real o produto. Quis discutir, mas já viu, "contrato
de adesão", vem pronto é de amargar. Uma outra dizia que o aparelho não
poderia ser reutilizado porquanto, a cerimônia fúnebre
seria realizada integralmente e se fazia
por completo, a cremação deveria seguir o seu próprio rito de transformar a
matéria densa em cinzas, o que compreenderia a urna propriamente dita e os seus
agregados internos aderidos;
Queimar uma preciosidade
daquela, cujo preço se mostrava pela hora da morte, era o fim, literalmente o
fim, a própria morte, imaginava pelo menos poder colocar àquela tampa retrátil,
na sala exposta como deveria sê-lo com toda obra de arte. Também nunca havia passado
pela minha cabeça antes de que ao final nos tornamos “agregados internos
aderidos”, no processo de alquimia em que carne, ossos e músculos se transformam
em cinzas, ali entendi bem a expressão: Do pó ao pó. Ora se somos 75% d’água,
dessa perspectiva, evaporamos e nos tornamos chuva, jamais havia pensado numa
chuva de cadáveres, nem na ficção, mas isso é assunto para outra crônica.

