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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

CREMATÓRIO

                 Em visita a um crematório, a finitude da vida elegantemente a mim se apresentou, e o fez como fazem as grandes damas, tão fina, tão meiga, tão atraente e insinuante que parecia particularmente interessada em marcar um inevitável futuro encontro, com muita habilidade e classe revelou a imprevisibilidade do dia de amanhã, por ética e fidalguia evitou comentar que a morte é para todos e por vezes nos surpreende sem aviso prévio.
                Mesmo balançado pelo determinismo da vida e da morte, fiz o jogo fino do flerte e da sedução, de modo a demonstrar um certo interesse, todavia relativo e eventual, quem sabe, um compromisso para o futuro, em data mais adiantada no tempo, algo para um prazo mais esticado. Naquela oportunidade, o elástico da vida não me parecia tensionado no limite da flexibilidade existencial, não poderia assumir um compromisso tão definitivo, tinha outros projetos infinitas vezes mais importantes na ordem de prioridades.
                Mas a curiosidade me fez entrar no jogo e por pura especulação, dirigi-me a um senhor de meia idade, cabelos grisalhos, terno do tipo, "homens de preto", olhar seco e profundo como cisterna no nordeste, procurei saber o nível de calor propagado naquela câmara "ardente". Indagação despretensiosa, sem aprofundamentos, característica daqueles que não querem, confrontar a precisão do peso do fardo que a verdade carrega. Porque a lucidez é paradoxalmente insana, na medida em que ao ameaçar a ignorância, por extensão também hostiliza o mais cômodo e costumeiro estilo de vida.
- Um mil e duzentos graus célsius senhor.
Céus? que horror!!!
- Sim senhor, célsius.
Não, não eu quis dizer céus de divindade, deixa pra lá. Certo é que do jeito que fala, creio que não sobra nada do corpo da gente, por seguro, melhor mesmo é bater na madeira três ou mais vezes, não é verdade?
- Sim senhor, para a família deixaremos as cinzas e as lembranças senhor.
E o inferno? 
- Como, o que disse senhor?
                Nada, bobagem, só estava pensando alto de como seria o calor do inferno, certamente acima de 1200°, como o futuro é uma incógnita de leitura imprecisa, em que no dia a dia compramos uma passagem no escuro, só de ida, dependemos de uma obra subjetiva, donde  quase todos acreditam estar assentando os tijolos certos, no jugo particular todos se acham bons semeadores. Assim, por questão de prudência racional e sem nenhuma garantia do destino final, é sempre bom estarmos bem aclimatados com o futuro endereço, que, pode ser o Céu, mas também Marte ou o Inferno, e para os dois últimos não há ar condicionado que resolva. Portanto, na certeza da partida e imprecisão sobre o ponto de chegada, nada mal iniciar a jornada a 1200° e já ir se acostumando.
-O senhor tem toda razão e vejo um grande interesse seu pelos nossos serviços, vou encaminhá-lo ao nosso burial ceremony.
                Sem direito a réplica fui apresentado a um senhor também de meia idade, este, com cara de muitos amigos, daqueles que ao nascer ao invés de chorar, oferece a placenta da mãe para reserva de células tronco em troca da própria mamadeira, tinha estereótipo de vendedor profissional, articulava toda a conversa em função do mercado contemporâneo e as consequências de um futuro incerto em que todos vão se ferrar, exceto você, que, mesmo assistindo àquela calamidade estará no bem bom, tranquilo, inclusive de consciência. Ali na minha frente perfilava o melhor vendedor de morte em vida.
                Iniciou dando uma prévia de como se procede a um evento fúnebre de gala, em alto estilo, digno das grandes expressões planetárias. Foi Imperativo e categórico com relação a   inexistência de esperança para nenhum mortal, absolutamente ninguém se livrará da ordem do despejo final. Portanto, a melhor demonstração de dignidade e nobreza seria mesmo perfilar e se manter de prontidão, em face do momento final que se aproximava e o fazia continuamente para todos. Na existência devemos construir momentos eternos em meio a uma vida absolutamente efêmera, até porque, por vezes, a convocação se dá de imediato, sem avisos e nem oportunidade de concluir desejos e projetos não finalizado.
                Até mesmo os mais afortunados, o máximo que conseguirão no derradeiro suspiro é uma vela na mão, ninguém terá um gênio da lâmpada para perpetrar codicilo de última hora. Aquele homem falava como "pobre na chuva", utilizava porém vocabulário rebuscado, parecia garimpar no dicionário palavras capazes de convencer de que a morte é tão certeira que deveríamos investir um pouco mais no seu determinismo. As vezes me perdia naquele falatório sem fim, e em pensamento  refazia pontuais fragmentos da conversa, agora mesmo estava pensando nos afortunados com o mundo aos seus pés e uma vela derretendo cera quente nas mãos.
                De repente, como um predador ao sentir a presa dominada desferiu o golpe fatal, apresentou-me um galpão cheio de caixões, deteve-se diante de um em especial, este parecia um ônibus londrino, daqueles de dois andares. Com habilidade macabra argumentava que para o meu perfil aquele seria o ideal na futura condução, dizia que essa conversa de caixão sem gavetas era coisa do passado, aquele tinha e era muito utilizada, para a condução de mimos, imagens e orações prediletas do "de cujus", também tinha tampa dupla face, retrátil e sobreposta com lente de aumento no visor, de modo a permitir uma visão ampliada do morto, assim, este se apresentaria com aparência física mais robusta, elegante e viril, já a face interna era espelhada para que o usuário pudesse "narcisar" um pouco, se auto curtindo nessa fase de ex-vida.
                Aquele senhor era mesmo muito persuasório, evitava a palavra caixão, dizia que aquele "aparelho" dava um destaque especial ao promotor do evento, uma vez que vinha equipado com luzes de led Collor no entorno, que somado à maquiagem devolvia ao usuário um semblante altivo e vital, dando-lhe uma boa "levantada", o equipamento vinha  personalizado, fabricado sobre medida, confortável, almofadado a base de pena de ganso e tecido aveludado, no entorno, possuía alça de bronze, banhada em ouro e prata, base de silicone a fim de amortecer eventuais impactos, turbulências e trepidações. E, se adquirido ali, naquele exato momento, receberia inteiramente grátis, a seguinte inscrição no jazigo: "Até breve, não mais voltarei, mas te vejo lá".
                Naquele momento, antes de fechar o negócio, comecei a viajar em tudo que aquele vendedor de féretro havia dito, nunca tinha parado para pensar naquelas esquisitices de protocolos fúnebres. Imaginei-me num palco de boate cantando um funk em meio àquelas tais luzes de led, tirando um self e publicando a letra nas redes sociais.
"Abaixa, abaixa,  abaixa até o chão.
Abaixa, abaixa,  abaixa até o chão...
Não, não o meu caixão abaixa não.
Não, não o meu caixão abaixa não...
Então sobe, sobe, sobe. Sobe e esquenta.
Então sobe, sobe, sobe. Sobe e esquenta...
Ai, ai, ai hai ai hai ai, assim mata papai.
Ai, ai, ai hai ai hai ai, assim mata papai.
Enfia, enfia, enfia...Enfia e põe...
Enfia, enfia, enfia...Enfia e põe...
Põe no forno prá queimar que as cinzas vão voar.
Põe, põe,  põe...
Põe no forno prá queimar que as cinzas vão voar."

                Depois pensei sobre o "aparelho" que ia projetar e dar destaque ao usuário, na qualidade e envergadura do produto, na proposta viril nele intrínseca, sua modernidade, arrojo, tecnologia embutida e conceito de despojamento sem perda do padrão clássico. A cabeça borbulhava não mais havia concatenação das ideias, qualquer um por menos consumista que fosse se via e até sonhava saindo dali dentro de uma limusine daquelas. No êxtase da prospecção de morte não poderia esperar o dia seguinte para melhor pensar e quem sabe fechar negócio. O tempo urge, a vida de um homem prevento lhe garante morte segura, tinha que ser ousado, o amanhã é muito incerto, pode até não vir, certeza mesmo só da morte. Afinal de contas, temos que nos manter perfilados a espera do golpe fatal, que democraticamente chegará para todos e sem avisos, apenas a intimação executória.
                A promoção se fazia tentadora, ainda assim, para evitar chateações futuras quis ler o contrato, algumas cláusulas em particular chamaram-me atenção, por exemplo o dispositivo de arrependimento em que este, só seria aceito após o comprador haver testado na prática e em situação real o produto. Quis discutir, mas já viu, "contrato de adesão", vem pronto é de amargar. Uma outra dizia que o aparelho não poderia ser reutilizado porquanto, a cerimônia fúnebre seria  realizada integralmente e se fazia por completo, a cremação deveria seguir o seu próprio rito de transformar a matéria densa em cinzas, o que compreenderia a urna propriamente dita e os seus agregados internos aderidos;
                Queimar uma preciosidade daquela, cujo preço se mostrava pela hora da morte, era o fim, literalmente o fim, a própria morte, imaginava pelo menos poder colocar àquela tampa retrátil, na sala exposta como deveria sê-lo com toda obra de arte. Também nunca havia passado pela minha cabeça antes de que ao final nos tornamos “agregados internos aderidos”, no processo de alquimia em que carne, ossos e músculos se transformam em cinzas, ali entendi bem a expressão: Do pó ao pó. Ora se somos 75% d’água, dessa perspectiva, evaporamos e nos tornamos chuva, jamais havia pensado numa chuva de cadáveres, nem na ficção, mas isso é assunto para outra crônica.

domingo, 12 de outubro de 2014

LAVANDO ROUPA SUJA



O vento sopra ao entardecer no alto do Rosário
Naquela palco a céu aberto o espetáculo se inicia
Bela dança de marionetes, sem os fantoches dentro
Roupas limpas estendidas à cerca, ao vento bailam
Traje que se impõe em movimentos suaves sobre a cerca
Com elegância dos trapezistas, no arame se equilibram
Estendidas ao sol, curtiam a ausência de usuários e suores
Pareciam agradecer as lavadeiras da bica e os seus cantares
Longe do suor humano, dos perfumes artificiais e vil odores
Se sentiam libertas e desvestidas de donos inconvenientes e sujos
Sonhavam com viagens, salas vip, Fashion Week e novos amores.
Fora do armário, curtiam o toque da brisa das montanhas de Minas
Antenadas, acompanhavam a festa dançando no ritmo da marujada
De repente são tomadas por reminiscências de libidinoso pudor
Situações de “saias justas”, em que, no auge se viam jogadas de lado
Ora cúmplices, ora testemunhas presenciais de amores proibidos
Por vezes utilizadas como instrumento de limpeza, cheiravam a quiboa
De repente a melancolia, lá vem a ama serão no balaio recolhidas
Pela ousadia e pensamentos maledicentes punir-se-á o look
Ajuste, ferro quente, intermináveis trocas, desprezos e rejeições
Corpos gulosos e obesos que desrespeitam a elasticidade do tecido
De volta ao isolamento, a cela escura e ao incomodo da cômoda.