Chegou no planeta terra em 06-06-1960,
de parto normal, acompanhado de parteira, na zona rural, próximo ao Distrito de
Milho Verde, Vale do Jequitinhonha, região nordeste de Minas, filho de gente
simples, assim cresceu na humildade, se mudando, na adolescência para pequena cidade, também do interior de
Minas, agora no Triangulo Mineiro. Estudante de Escola Estadual, maioridade,
concurso, ingresso no serviço Público, expectativas, sonhos, projetos, comendas,
promoções, plano de carreira, especulações, erros e acertos, ao final, o
discurso de reconhecimento do chefe: "Esse cara é muito bom, ele é do bem
e assim se manteve ao longo da sua carreira, sinto-me orgulhoso e até privilegiado de tê-lo tido
como parceiro nessa jornada, entretanto, esse é um ciclo que se encerra, uma
página virada da sua história, e em assim sendo, quero em nome de todos os
colegas e amigos da repartição desejar-lhe uma acolhida harmoniosa de volta ao
lar".
Meu
Deus! Então aquele era o último dia de trabalho, naquele mesmo instante
iniciou-se um filme de retrospectiva na cabeça, parecia meio atordoado. Sair?
Como assim, em meio a tanta ordem de serviço em aberto, muita coisa por fazer,
projetos ainda não conclusos, enfim, inúmeras pendências. Tudo aquilo soou, semelhante
a morte, você sabe que ela é implacável e virá inexoravelmente, mas não a
espera, de modo que sempre se surpreende com a sua chegada. Diante de uma mesa
de guloseimas, fitava, em particular, uma garrafa de Mate Couro, se lembrou que
na adolescência só podia tomar guaraná mineiro, fabricado ali mesmo na sua
cidadezinha, meio que de forma artesanal, mas que para o seu pouco habituado e
nada apurado paladar, aquela "guaranazinha, mini saia" era uma
delícia. Se lembrou que raramente tomava mate couro, aquele sim, era feito na
Capital, era um luxo, uma iguaria, personalizava a coca cola
"tupiniquim", cujos recursos não lhe permitia o acesso.
Foi
retirado das suas reminiscências por Pereirinha, o colega de repartição mais
amargo e negativo, sempre tinha um comentário inconveniente para fazer, pare
ele, tudo na vida era cinza e nada estava tão ruim que não poderia piorar, já
chegou argumentando que era preciso de muita sorte, para se aposentar com boa
saúde, o serviço é desgastante e quando se aposenta já não mais se aguenta
nada, isto, quando se aposenta, porque muitos não tem essa sorte, passa desta
para uma melhor, antes mesmo de chegar nessa fase da vida e ainda têm tantos outros
que assim como você, se aposentam, caem
em profunda depressão, se tornam melancólicos e vivem nas ante salas dos
consultórios psiquiátricos.
Para
mudar o rumo e energia daquela prosa carregada e desagradável, contra
argumentou, dizendo que não havia com que se preocupar pois gozava de boa saúde
física e mental e para demonstrar a sua intolerância aos psiquiatras já havia
feito uma reserva em um hotel fazenda para passar uns dias, espairecer, pescar,
andar a cavalo, deitar em redes esparramadas pelas varandas e assim ficar distante desse
profissional que cuida do intangível abstrato humano. Pereirinha deu de ombros
repetindo a sua frase predileta: - "Depois não me diga que não
avisei". O olhar ainda fitava a mate couro, serviu-se de um copo generoso
e para quebrar o mau estar, ofereceu um gole ao Pereirinha que recusou de
pronto: - Então não sabes? Você já não mais se lembra daquele jogo antológico
em que goleiro Zetti foi pego pelo doping lá no Peru, pois é, tinha tomado mate
couro, espero que não tenhas que fazer exames por estes dias, já irritado, rebateu
de pronto: - Olha aqui Pereirinha, como lhe disse, estou bem física e
mentalmente e não vou fazer qualquer exame. - Tudo bem, depois não me diga que
não avisei.
Sentiu-se
paralisado embora movimentasse, era como se não tivesse coordenação dos seus
próprios movimentos, não se sentia ali, parecia ligado no automático, abraçava
e agradecia as pessoas, mas não sabia o significado das palavras e não se
lembrava de nada que dizia os seus interlocutores nas congratulações recebidas e
muito menos nas retribuições que os ofertava. O pensamento se mantinha nas ante
salas dos psiquiatras e na celebre frase "depois não diga que não
avisei" aquilo não lhe sai da cabeça, era como se o mundo inteiro fosse contaminado
pela conspirativa teoria "pereirial/freudiana." Estaria mesmo tendo
alucinações? seria o refrigerante de ervas? E se lhe fosse exigido fazer exames
para se aposentar? Será? Ai-a-ai. Só sei que nada sei, "epa" quem foi
que disso isso, Eu? Claro que não, foi
Sócrates, será que estava ele com o Zetti, e disse isso porque tomou mate couro
também? Não! Óbvio que não, me refiro ao grande Sócrates filósofo, se bem que o
outro, no que se propôs a fazer era gigante também, entretanto, nem jogava no São
Paulo. Por que será o pensamento está chegando descoordenado assim? E a
concatenação das ideias, a clareza e sensatez que sempre fora o seu ponto
forte, teria o abandonado justamente agora na aposentadoria.
Seria
prudente viajar para um hotel fazenda, no meio do nada, sem suporte médico,
naquelas condições que se apresentava? Não seria mais apropriado adiar a viagem
e fazer uma bateria de exames? É, pode ser, mas e o refrigerante não seria uma
exposição desnecessária? A final de contas, estava bem, não tinha nada, quer
dizer, nada, nada mesmo, até ontem, agora não tinha muita certeza disso, as
coisas parecem ter mudado e não eram mais como antes, estava aposentado e nessa
fase a metamorfose se instala e tudo muda. Foi mais uma vez surpreendido com a volta
do pensamento macabro dos aposentados em "via sacra" povoando e dando
notoriedade aos psiquiatras. Bobagem,
nem se dava muito bem com essa categoria de profissionais, os intitulava
"charlatões de mentes confusas". Que nada, vou correr o risco e sigo
em viagem logo cedo como programado, estas manifestações destorcidas, sem
significado lógico, é pura e unicamente besteira do imaginário que brota na
cabeça, agora desocupada. Cabeça vazia deve ser mesmo, oficina do diabo.
Como
assim? Besteira do imaginário que brota na cabeça, se lá brotou, lá está, lá
existe e pode ser que permaneça ocupando espaço, logo, a criatura ganhou identidade
e se não for "despejada da cachola" lá permanecerá "ad aeternum", se tornando um problema na certa, seja um distúrbio,
uma esquizofrenia, sei lá o que, mas
normal não pode ser. Entretanto, se nada for revelado, ninguém tem o dom de conhecer
o pensamento alheio, mas, poderia ser essa, uma verdade relativa, e se o
Pereirinha tivesse o dom de ler as ideias dos outros, se assim o for, justifica
a sua maneira estranha de olhar, creio que o "cara" se liga no que os
outros pensam. Sabe de uma coisa, o certo a fazer é livrar desse cara
complicado agora mesmo, gente assim é contagiosa e virando para Pereirinha
indagou: - Você conhece a Celina, aquela da pasta da educação. - Sim -
respondeu ele: - Pois é, ela mora aqui dentro, apontando para o coração, e a
Lúcia? - Lúcia não, que Lúcia? - Irmã da Lucidez e fazendo com que a sua mão
direita tomasse a forma de uma arma, apontou para a própria caleça, o dedo
indicador como se um cano fosse dizendo, essa mora aqui, em seguida, apontou
para Pereirinha e liberando o dedo polegar para frente, como se fosse o cão de
uma arma, verbalizou: - Perdeu Pereirinha você e a sua loucura foram eliminados
do jogo, agora o meu coração está ocupado por Celina e na cabeça, a inquilina é
a Lucidez, não tenho espaço para pessoas como você. - Tudo bem, se quer assim, mas depois não me
venha dizer que não lhe avisei...
Passou
a noite em claro, toda aquela confusão da despedida, a estranheza dos colegas
que, na oportunidade, mais pareciam zumbis vagando por ali, as falas do
Pereirinha, o mal-estar durante o evento, as palpitações e taquicardia, iam e
vinham como ondas do mar. No escuro tentou ler a placa de prata que havia ganhado
durante a cerimônia de véspera, parecia
que as frases gravadas ali, na composição do texto, tinham no seu contexto os
mesmos dizeres do Pereirinha, só que finalizava em caixa alta: "SÓ SEI QUE
TUDO SEI E NÃO É POUCO" seguido de três pontinhos. Aquilo era intrigante,
teria ele recebido a tarefa de preparar o ponto mais alto, o ápice da homenagem
e ali aproveitou para insinuar as fraquezas alheias abstrais, alguma mancha
curricular, uma ação mal fadada, o que poderia saber Pereirinha da vida de
alguém se o próprio titular, assim como Sócrates, nada sabiam, se bem que, o
filósofo não estava só, um certo ex Presidente não sabia de nada também.
Ao
amanhecer pensou em procurar um médico, mas temeroso pelo resultado improvável
de um doping positivo, ou de um diagnóstico de demência seguiu viagem, porém,
na estrada recebia a visita dos pensamentos controvertidos que se apresentavam contaminados
pelo devastador efeito Pereirinha. Tentou desviar a atenção, olhar e curtir a
natureza poderia lhe fazer bem, não tinha do que temer, havia feito uma carreira
imaculada, nunca usara drogas, nem mesmo as tidas como lícitas, o que um
estranho, ácido e mal humorado poderia
saber, lembrou, da "lucidez, seguida da sensatez," sempre morou em
apartamentos e nos últimos andares para garantir a segurança própria e dos seus
familiares, achava as casas muito vulneráveis ao ataque de criminosos, nunca as
quis como moradia.
Na
ante sala da recepção, quando aguardava para o check in, assistiu uma
reportagem num desses jornais de volta do dia em que alertava sobre alguns
cuidados que produtores rurais e circundantes do perímetro deveriam ter, uma
vez que as fazendas da região estavam sendo atacadas por bandos de criminosos
cruéis e sanguinolentos, que não poupavam nem mesmo as criancinhas. Um grande
arrepio desceu por toda a sua coluna cervical, ficou petrificado por longo
período, justo agora que estava
aposentado, poderia aproveitar a vida, fazer tudo que queria e que antes não
era possível, ter que encarar uma situação tão adversa, e constrangedora,
pensou em voltar e encarar o medico, mas foi demovido da ideia. Não era um
covarde, imaginou-se entrando
triunfalmente, sendo anunciado como herói na cidade por haver contribuído na
prisão do bando e o que era melhor ainda ter descoberto que o Pereirinha era
nada mais, nada menos que o mentor intelectual da quadrilha, aquela reportagem
certamente, sairia no JN e, com um pouco
de sorte até no N Y Times.
-
Senhor por obséquio queira preencher esse formulário. - Disse o recepcionista: - Desculpe-me pela distração, estava
um pouco absorto pelo jornal. E recebendo a ficha na mão do funcionário, percebeu
que deveria apor todos os seus dados pessoais no citado documento de controle. Nesse
momento foi bombardeado por uma avalanche de hipótese macabras, caso revelasse
a sua verdadeira identidade, imaginou como poderia fazer o registro oficial se
a qualquer momento aquele estabelecimento poderia ser vítima do ataque de bárbaros,
o que fariam se tivessem todos os seus dados pessoais, inclusive endereço
familiar. Definitivamente não, não há porque expor tanto assim e comprometer a
segurança de todos por conta de um "formulariozinho" besta. Jamais faria isso e de posse do documento o
preencheu com dados fictícios, convicto de que aquilo era o melhor a ser feito,
era irrelevante o formulário, não tinha a menor importância, pretendia entrar e sair sem causar problemas,
ser discreto e pagar tudo que lhe era devido.
Pegou
as chaves, deixou as coisas no quarto, voltou ao estacionamento, colocou uma
capa no automóvel, não seria conveniente deixar um bom carro, de luxo, ali
exposto às ações marginais, tratava-se de um automóvel muito cobiçado e
fatalmente seria objeto de desejo dos bandidos, caso o ataque viesse a ocorrer
naquela hospedaria. Escondeu todos os documentos por detrás de um quadro antigo
da Mona Lisa, ia saindo e veio a memória "tudo sei e não é pouco",
arrepiou dos pés à cabeça, de um único movimento voltou-se para o quadro que abrigava
os documentos, estranhou o olhar da Mona Lisa, notou que ela guardava traços de
estreita semelhança com um velho conhecido, o Pereirinha. Seriam eles parentes?
Ela sim, diferentemente dele, sabia dos documentos ocultados, e se por de trás
daqueles olhos enigmáticos tivesse câmaras escondidas, hoje se filma tudo, não
há mais privacidade.
Saiu
sorrateiramente e conferiu se encontrava câmaras filmadoras dispostas no
ambiente, arrepiou de novo ao deparar com três equipamentos instalados no
estacionamento, dois na entrada, um na recepção, eles estavam em todas as partes
nas áreas de uso comuns. Ao invés de se sentir aliviado pelo aparato de
segurança, foi tomado por um desassossego, bateu o maior desespero, apavorado
voltou os lampejos da despedida, o olhar perdido no mate couro, o Sócrates,
filósofo, Zetti e Sócrates, jogadores, e as citações do ex colega de trabalho
lhe cortavam a alma, "depois não me venha dizer que não avisei",
avisei ou falei, não me lembro bem, mas não importa, rememorou a comenda
recebida, uma bela placa de prata, com aquela estranha e convicta finalização:
"Sei de tudo e muito mais" ou seria: "Só sei que tudo sei e não
é pouco", achou ser a última, a opção mais verdadeira. Paciência, também sabia
de tanta coisa no entanto, nunca havia chantageara ninguém, não existia razão
para se intrigar com aquela besteira "excretada" ali.
Em
menos de vinte e quatro horas de aposentado já havia colecionado mais pecados
do que conseguira acumular ao longo de toda a vida, jamais havia praticado
falsidade ideológica, nunca havia premeditado esconder o seu automóvel como se
fosse um criminoso, e a Mona Lisa, ancestral do Pereirinha, agora sua companheira
na ocultação de documentos. Por um momento passou lhe pela cabeça revelar tudo,
os dados mentirosos na ficha, os documentos escondidos, o carro camuflado e as
razões motivadoras daquele comportamento. Logo se desfez desses pensamentos, se
os revelasse poderia mesmo iniciar a saga da peregrinação pelos consultórios psiquiátricos.
Não
bebia e nem fumava, mas aquela era uma ocasião especial, precisava relaxar um
pouco, aliviar as tensões e tinha que ser logo. Antes mesmo do jantar ser
servido, acenou para o garçom, pediu lhe um charuto cubano e um cálice de
vinho, em pouco tempo, aquele garoto esguio lhe entregava o tabaco e uma
generosa taça de vinho tinto. Totalmente Inábil para aquela nova situação,
estranhou tudo, desde o charuto de muito grosso calibre à taça de vinho que
acomodava tranquilamente três quartos de garrafa, tomou um bom gole do vinho,
acendeu aquele rojão vindo da ilha do Fidel, e com isso iniciou o ritual que
abriria a nova fase da sua vida. As vistas pareceu lhe embaçadas, que sensação
horrível, passou a ver apenas vultos, teve a sensação de enfrentar um
terremoto, o ambiente parecia deslocar debaixo dos seus pés, reuniu forças,
recolhendo-se ao seu quarto.
Se
desligou completamente por um longo período, depois passou a enfrentar
dificuldades com o sono, lembrou dos acontecimento das últimas horas, a imagem
do Pereirinha lhe veio a mente, ou seria a presença direta de Mona Lisa que
agora, conhecia na intimidade os seus segredos, era sua cúmplice , o que
estaria ela pensando? Certamente que se tratava de um grande canalha da pior
estirpe, uma pessoa que muito esconde e pouco revela. Ouviu um zumbido bem
distante, pôs-se de orelha em pé, provavelmente o bando estaria chegando,
sentiu que não reunia condições de enfrentar a situação, nunca fora covarde mas
desta vez deixaria as coisas ocorrerem lá fora se mantendo trancado e escondido
dentro do quarto. Concentrou toda a adrenalina que restava no corpo, se
levantou com o propósito de trancar a porta, cambaleou e caiu sobre o
televisor, quebrando-o, assim como também o grande espelho da penteadeira,
ensanguentado, insistiu de novo em se levantar buscou equilíbrio no
guarda-roupas, que, não suportando o peso também caiu.
Acordou
no hospital, o policial o interrogava sobre o acontecido: - Não posso aliviar
cidadão, o registro é o procedimento padrão, devo cumprir o meu dever, o senhor
se machucou muito, o registro é obrigatório, preciso da sua versão dos fatos,
já tenho os dados pessoais coletados na ficha do hóspede e posso lhe adiantar
que o senhor está enrolado, pesa contra o senhor, seu Pereirinha um mandado de
prisão em aberto e, de antemão, temos de
cumpri-lo, além de termos de apurar esta situação nova, se é que o senhor me
compreende. - Ô graças a Deus. Deus é
pai, sabia que tinha algo errado, o Pereirinha nunca me enganou, sempre achei
que não fosse flor que se cheirasse, agora, sem querer o desmascarei - disse ao
policial, que, em princípio nada entendeu.
-
Coitado - argumentou a enfermeira: - Está delirando, pode ser esquizofrenia ou
algo pior, temos que levá-lo ao psiquiatra de plantão. - Eu a acompanho.
Sinalizou o policial - Demência
ou não, existe um mandado de prisão contra ele, não o perderei de vistas. Passaram
pelas ante salas do longo corredor onde concentravam alguns idosos, ao
percebê-los, chamou a atenção do policial dizendo que aqueles anciões eram um
bando de desocupados, todos aposentados, melancólicos e depressivos, para nada
serviam. Já no consultório, ao ser indagado do que ocorrera, colocou o dedo de
frente aos lábios como se pedisse silêncio, se levantou vagarosamente,
desferindo uma sonora bofetada no "pé do ouvido" do doutor. - Leve
esse infeliz para o manicômio judiciário, além de louco é violento! Ponderou o
profissional da saúde.
Apavorado
com a situação que se complicava cada vez mais, implorou ao policial, para que
não acreditasse em nada daquilo, nunca fora louco, mas que havia sido atacado por
um bando quando hospedado no hotel fazenda. Disse-lhe que eles chegavam de
todos os lados, vinham até de voadora ao seu encontro, que eram muitos, só se
defendeu, no exercício da legítima defesa própria. Na oportunidade, acreditava
ter acertado mortalmente uns dois, havia muito sangue no local, que o policial
deveria procurar no quarto do hotel, lá certamente ainda os encontraria. Já no
hospital, por sua vez, a intenção era agir em legítima defesa do médico, que
era atacado por aquele vampiro que sorrateiramente sugava o sangue do doutor
descaradamente à luz do dia, todavia,
neste caso, o pernilongo fugiu aligeirado, fazendo com que o BO fosse por ele
abraçado.
-
Que despropósito - arguiu o médico: - Leve-o para o manicômio, que é o seu
lugar. - Calma doutor - ponderou, o
policial - em matéria policial investigativa, tudo é possível, nada é
impossível, é preciso averiguar todas as hipóteses, por mais absurdas e
descabidas que sejam. - O senhor também deve estar louco, como acreditar numa
tese aloprada dessas? - Não se trata de acreditar ou desacreditar e sim levar
em consideração todas as possibilidades, até as aparentemente improváveis, no
exercício policial já vi muita coisa, na minha profissão se aprende logo cedo a
importância do estudo filosófico investigativa e ser andante da esteira protagoriana
é preciso, por que: "O homem é a
medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não
são, enquanto não são." Doutor vou lhe dizer uma verdade que jamais
poderá ser relativizada pelo bom policial, as coisas nem sempre são conforme nos
parece, elas são como são e conforme ocorrerem, assim se não as aferirmos de
todos os ângulos e pontos de vistas, corremos o risco de condenar um inocente
em decorrência da indesejável miopia policial.
Com
aquela inesperada aula do policial, o ambiente até então pesado, pareceu
suavizar, por um instante o silêncio puro e absoluto se fez presente até ser
interrompido pelo próprio suspeito que deprecou a sua versão. Contou com
detalhes a despedida do trabalho no dia anterior, a viagem, a chegada ao hotel,
a reportagem, como e porque, usou os dados de um ex colega de trabalho para
preencher a ficha do hóspede, sua preocupação com o veículo, os documentos
escondidos atrás do quadro, o porre de charuto com vinho, a nuvem de
pernilongos que o atacara no quarto durante a noite, os móveis danificados,
alguns em decorrência da embriaguez, outros por conta da sua luta inglória com
os insetos, o tapa no pernilongo que agia na orelha do doutor, as suas diferenças
com Pereirinha, mas não acreditava que ele pudesse cometer um crime e ter
mandado de prisão contra si.
FINAL COM A FILOSOFIA
PROTAGORIANA.
Ao
checar as informações, constatou o policial de que a versão dada pelo acusado
era real e absolutamente verdadeira. Consoante ao resultado da pesquisa a
respeito do mandado de prisão, foi informado de que se tratava de pensão por
alimentos em atraso, já regularizada em período pretérito e que por falta de
atualização de lançamento no sistema informatizado ainda constava em aberto. O
relatório policial foi encerrado conforme a verdade real do ocorrido e
encaminhado a autoridade de polícia judiciária a fim de que as medidas de
estilo fossem adotadas.
FINAL SEM FILOSOFIA
PROTAGORIANA.
Foi
internado no manicômio, por vezes falava sozinho, dizia palavras desconexas do
tipo: - Se tivesse um frasco de veneno, um cortinado com uma corda no teto,
teria posto um fim em tudo isso, nada precisava ter acontecido como ocorreu.
Com esse comportamento e o registro dessas falas sem conexão lógica, todas as avaliações anuais de soltura,
recebiam o carimbo, NÃO LIBERADO, demência severa e insistente permanece, agora
com o gravame de apresentar também
tendência de alto extermínio. - Ah se tivesse o veneno, aqueles pernilongos nunca
teriam se aproximado de mim e em assim sendo não teria chegado até o hospital
onde aquele sanguessuga provocava-me pousado na orelha do doutor.

