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terça-feira, 16 de julho de 2013

ECLETICISMO DA JANELA


Desta janela se acompanha a missa,
Assiste ao enterro, choros e gritos
Escuta o barulho da terra caindo no caixão
Vê os casais fornicando ao lado da igrejinha
Presencia-se as manifestações de fé
Sente o cheiro do pecado bem de perto
Um maluco parece fumar alguma coisa
Por certo é coisa estranha, ele vai viajar
Eu não, então tomo uma pinga e durmo...
                          Milho Verde 16/07/2013.
O Exercício da paciência é virtude humana de elevado peso e grande relevo
Cá estou a uma semana no mesmo observatório dantes, para pouco mais de nada
Será que mudei o jeito de ver as coisas ou seria esta uma outra vista?
Teria o sentido de rotação e translação levado todo o romantismo da janela?
Ocupo um outro ponto cósmico em que os fatos não se apresentam?  
Naquela oportunidade, muito do que vi registrei e detalhes ainda escaparam
Sete dias sem missa, novena, oração ou qualquer liturgia religiosa
Uma semana de olho no cemitério, ninguém plantado no campo santo
Nenhum casal, ainda que ingênuo, sem pecados, só o original, vagando por ali
Apenas um maluco genealógico, este, não fuma nem bebe coisas estranhas,
Viaja naturalmente, nada de substancias alucinógenas no currículo
Sem inspiração, tomo um suco de pêssego e durmo...
                           Milho Verde 20/02/2014.

DEU AO POBRE, VIU O CAPETA E ENCONTROU COM DEUS

Desceu elegantemente a escadaria da catedral, estava sendo continuamente observada e nem se dava conta, aproximou-se de um pedinte, abriu a bolsa, sacou uma nota, a mais novinha que tinha, embora o chapéu de moedas estivesse no chão, fez questão de entregá-la diretamente ao pobre coitado, abriu-lhe um largo sorriso, desejou boa sorte e seguiu o seu caminho. Na esquina uma arma apontava-lhe a face, entregou o celular a bolsa, os brincos e o relógio, o andarilho incrédulo ouve um estampido perturbador de prenuncio fúnebre tal qual tantos outros comuns naquela esquina, olha o corpo no chão, derrama uma lágrima diante daquele mesmo sorriso, no dedo anelar da mão esquerda, a moça tinha um anel de ouro vermelho de sangue... (Adélito 11/07/2013 - 19:25)

RAIZEIRO X EXERCÍCIO ILEGAL DA MEDICINA.

Os pés e as mãos mais pareciam fundo de poço castigado por intenso período de seca, rosto fino, corpo esguio, tinha noventa e um anos, embora aparentasse um pouco menos, era famoso pela habilidade de curar as mais diversas enfermidades através de concentrados de raízes, no vilarejo diziam: - O que o Doutor não resolve ele dá conta. Tratava de um tudo, da mais simples “difruseira” à mais temida das hepatites, só não curava o que cura não tinha. Na vila, morava em casa simples de pau a pique, sem água encanada, nem energia, a distração era um velho rádio a pilha só utilizado no horário da voz do Brasil e no jogo do Madureira. Assim era Zé Rufino, ou como era mais conhecido, Zé das Raízes, pouco falante, do quase nada que dizia, muito era sobre política, e aviação, dizia da existência de muita gente boa e competente, que por isso mesmo não se arriscavam na carreira política.

Em um dia comum de outono, tudo corria normal na pacata "currutela" de Papo da Ema, os cães como de costume dormiam por debaixo dos bancos de madeira rústica, padrão dos casebres da localidade, um sabiá ao longe cantava a sua triste melodia, o silêncio era inquietante, dava até para ouvir o zumbido do voo das moscas. Era uma tarde modorrenta, naquele fim de mundo, de repente, a mais estranha algazarra, era como se todos os animais estivessem possuídos ou quem sabe, atacados por um enxame de abelhas oropa, desordenados corriam sem rumo, pulavam, ganiam, uivavam e até atacavam uns aos outros. As pessoas por sua vez, todas de fora, na rua, sem entender "nadica de nada", pairado no ar, sobre o casebre de Zé das Raízes, um gigantesco gafanhoto de lata, a cobertura de capim do velho barraco voava em círculo como se fosse o ninho do grande pássaro, o chão tremia, a bacia, as precatas, os trapos e até a porta da casa de Zé voavam ao alto.

Quanto mais o estranho voador se aproximava do chão, mais ia ficando calmo, até se aquietar de vez, agasalhou-se bem ali no terreiro dos fundos do que sobrou do barraco de Zé, naquele momento não se via uma viva alma na rua, no instante seguinte lá estava uma ressabiada aglomeração com cara de espanto e tensa curiosidade. O bicho esquisito abriu as asas e de lá desceu um carecão muito forte, acompanhado de um negrão de cavanhaque mais forte ainda, do tamanho de homem que não tinha por aquelas bandas. Tiraram um papel de um estranho bornal indagando se por obséquio ali era a residência do Sr. José Sampaio Rufino pois as coordenadas de GPS indicam sê-lo. Zé das Raizes se adiantou:
- Nunca vi essa tal de coordenada mas ela tá certa, sou eu sim senhor, senhor.
- Tá vendo esse papel aqui na minha mão.
- Tô sim senhor.
- Pois é, ele me dá o direito de entrar na sua casa e revistar tudo, preciso ver o que tem lá de dentro.
- Carece de papel não doutor, daqui dá pra vê direitinho lá de dentro, todo caso, vamos entrar, enquanto o doutor faz a procura, passo um cafezinho pro doutor molhar a palavra.
- Cuidado com o desacato hem, só estou fazendo o meu trabalho, se é que o senhor me entende.
- Não é desacato não doutor, é Chifrório, mas é besta que só, morde não, isso não vale o angu que come, nem sinal dá.
- Fiquei sabendo que o senhor trata de dor na coluna.
- O doutor veio no lugar certo, trato de espinha sim senhor, prá dor nas escadeiras lhe apreparo um chá de erva de Santa Maria, alecrim, casca de barbatimão, semente de jacarandá e raiz de jatobá. É batata, amanhã o doutor acorda novinho em folha, com os quartos aprumados.
- Esteje preso, exercício ilegal da medicina, corte e posse de subproduto da flora silvestre e ainda tentativa de suborno, o senhor tem o direito de ficar calado...
- Tá certo, ta justo doutor to falando nada não, esse papel aí deve permitir isso também.

Em meio aos olhares perplexos, o grande pássaro voador subiu levando algemado Zé das Raizes, enquanto Totonho, o doidinho esquizofrênico da vila, apontava o dedo indicador para o horizonte onde o helicóptero era apenas um pontinho preto no vazio da tarde e dizia insistente e seguidamente: - Totonho conseguiu realizar o sonho do Zé de um dia voar e ganhar o Céu...