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domingo, 18 de outubro de 2020

UM MÊS

Hoje faz um mês da malfadada cirurgia da Celina.
Cúmplice, ajudei-na a se trocar e a deitar na maca.
Como Judas, dela me despedi com um beijo na testa.
Foram dez horas, muito tempo e trabalho para um anúncio cruel.
Ela escolheu os melhores profissionais e a estrutura referência.
Em tese a melhor opção para o mais lúgubre resultado.
Hoje sobrevive a custa de remédios e aparelhos mecânizados.
Não escuta, vê, fala, nem acorda, só lhe restou um olhar assustado.
Já eu ouço o que não quero, porém a surdez não me apraz.
Vejo o que não convém, pois a cegueira que há em mim muito me basta.
Falo e assim machuco o coração de quem deveria amar. 
Só que a mim ninguém ajuda a respirar, pensar, dormir ou cantar.
Quero o incomodo de um aparelho vil cuja dor me faça desamar.
Não desejo alzheimer, mas apenas uma máquina do esquecimento.
Sonho com o retorno do sono dos justos, sem nunca ter sido.
Fortalecer a alma? Não! Os glúteos pois passo as noites assentado.
Daqui prá frente vou ser diferente, não sei se quero ser gente.
Prefiro enfrentar os maus, porque os benignos são de matar.
Estou carente do narcisismo, de me encarar no espelho e alto elogiar.
Há trinta dias que não me vejo e muito mais que não me encontro.
Tá lá uma bactéria assassina aproveitando da frágil criatura.
Eu sem paramentar a cutuco, mas a covarde não enfrente mal maior.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Por onde andas?

Me aproximo e o coração palpita.
Seguro a tua mão e você nem aí.
Te olho nos olhos e eles fechados, apenas uma lágrima no direito.
Perguntas lhe faço e respostas não veem.
Não faz sentido, os seus sentidos não sentirem.
Tem lua nascendo lá fora e ai dentro nada.
O sol vai e volta e sua quietude me sacode.
Sei que tem bom coração, vejo passando na tv.
Apitos me incomodam, agora apavoram.
A vida zigzagueia no monitor ao lado.
Há buracos e mangueiras prá todo lado.
No externo da cabeça costuras, por dentro, uma incógnita.
Em casa todos em coma, nós com a desvantagem da consciência.
Ninguém desentende, já eu sei que nada sei.
Até que em fim, procuro e não encontro a lógica.
Na minha lógica, a lógica nasce do outro lado da vida.
O cactus floriu, você não o viu, ele não  espera quem dorme.
Quanta ironia, você não acorda e eu não durmo.
Um dia vou dormir e quando acordar te vejo.