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quarta-feira, 24 de junho de 2009

CASAMENTO

Se você é daquelas pessoas afeiçoada aos detalhes vai facilmente concluir que o dia 1º de outubro de 1989 “caiu” num domingo. Aliás, “caiu” não, “levantou” um dia obnubilado, muito frio e coberto por uma garoa gélida, cortante como se diz por lá. Lá, quer dizer “Distrito de Milho Verde”, vilarejo de costumes estranhos, que por esta razão mesmo tem freqüentemente recebido a visita do ilustre repórter, “Mauricio Cubrucci” no seu tradicional “me leva Brasil”. Lá, nas entranhas do Vale do Jequitinhonha, “Milho Verde” contrasta os seus sobrados e casebres em ruínas com imponentes paredões de pedras, formados pelas gigantescas montanhas, talhadas por força divina do criador.
Mas a história não começa lá, na verdade, ela se inicia bem perto, a uma légua de distância dali (6 KM) de descidas e subidas por ladeiras, em um ranchinho de capim, no ano de 1960, na zona rural, onde nasci de parto normal, assistido naturalmente por minha tia, parteira mais “afamada” da região, aliás, minha tia e de todo mundo, considerando que a chamam de “Tia Santa”. Pois é, foi ela quem cortou o meu umbigo e o impregnou de nicotina extraída do seu velho cachimbo de barro, pertencente a algum escravo que o perdera no garimpo em pleno ciclo do ouro. De forma que, aquele velho instrumento, carbonizado pelas abundantes baforadas de tabaco na sua forma natural, (fumo de rolo) foi significativo para o bem estar do nascente, na medida em que visava a sua proteção para que não contraísse tétano, doença que por lá, se conhece como “mal de sete dias”. Se o fedelho, recém-nascido supera o sétimo dia, diz-se que “vingou” ou “escapou”, se não, a pobre e incansável mãe, inicia todo o processo “gozado” de perpetuar a espécie, por lá, com muito maior afinco e intensidade para que haja a devida compensação decorrente do elevado índice de mortalidade infantil.
No período de 1960 a 1973, o meu velho e estimado pai, “chefe da família”, analfabeto, segundo a compreensão mais moderna convencionada no nosso sistema de ensino, contudo, um verdadeiro sábio no que diz respeito às empíricas observações naturais do meio circundante. Levava a sua “vidinha”, polarizada em dois momentos distintos, ou seja, durante o período das águas era agricultor e plantava o que os limites da pequena propriedade permitia para o sustento da família, e, no período da seca tornava-se garimpeiro, cujo sonho era o de “enricar” e quem sabe poder estudar os oito filhos. Só que a cada ano a água se tornava mais escassa e conseqüentemente o alimento menos acessível. Quanto ao artesanal garimpo, bem, esse nunca passou de “um sonho que se sonha só”.
Já a minha mãe, embora semi-analfabeta, uma guerreira na arte de arrancar dos órgãos estatais o suprimento dos seus direitos e garantias fundamentais e foi assim que “a duras penas” conseguiu assistência à saúde para a prole, de tal sorte que, dos nove herdeiros, “vingaram-se oito” média elevadíssima para a realidade local, e, o mais surpreendente é que eu e o varão mais velho conseguimos enganar a fome e mesmo marchando todos os dias pelos 6 KM de trilhas que, ainda hoje, serpenteiam sobre serras, pedregulhos, montanhas e desfiladeiros do vale, que transpõe ainda, três traiçoeiros rios, responsáveis pelo óbito de alguns coleguinhas, conseguimos a façanha de concluirmos a 4ª série do então 1º grau, hoje ensino fundamental.
Foi assim que no ano de 1973, uma numerosa família de retirantes camponeses, fugindo da fome e da seca embarcava para destino incerto, em uma velha jardineira, na estação rodoviária de Sêrro Frio, cidade histórica de Minas, fincada na cavidade de um vulcão em milenar inatividade, dista 30 KM de nossa base rural.
De 1973 a 1979, na cidade mineira de Araguari, além de dedicar-me a noite para os estudos em escola da rede pública, fui, durante o dia: beneficiador de arroz, torrador de café, entregador de condimentos, servente de pedreiro e “picareteiro”, não no sentido pejorativo da palavra, mas de quem vira o dia “de sol a sol”, com a “escadeira” ardendo, curvada a furar valetas pelas ruas a fim de sanear a cidade.
No dia 02 de fevereiro de 1979, “assentei praça”, ou seja, inclui-me nas fileiras da Polícia Militar de Minas Gerais, onde, pude continuar os estudos, tendo concluído o ensino médio em 1994, o que possibilitou a minha inscrição, ainda naquele ano, ao concorrido vestibular para o Curso de Formação de Oficiais da respeitada Polícia Mineira. Concorrendo com 76 (setenta e seis) bem preparados candidatos por vaga, fui felicitado com a aprovação em primeira chamada, tendo iniciado o sonhado curso no ano de 1985, na Academia da Polícia Militar, na Capital do Estado, de onde saí formado, tornando, por conseguinte, oficial de primeira patente em 1989.
Como se vê, 1989 faz parte do início dessa narrativa, quando falamos de um dia de neblina, “obnubilado”, se lembra? Pois bem, devidamente reavivada a memória, podemos, acredito que desta vez, sem delongas, retomar a nossa história, que, a rigor, reporta ao dia 1º de outubro/89 quando, na Capela do Rosário de Milho Verde, em meio a mais tradicional festa cabocla, me tornei um homem conjuminado.
Antes, porém, vamos dar um “pulinho” atrás, no mês de maio daquele ano, quando eu e esposa, na ocasião apenas namorados, fomos premiados com um exame de gravidez positivo, fato este que contribuiu para acelerar a nossa decisão de compartilhar o mesmo “teto” e comer a mesma “saca de sal”. Todavia, como nunca fomos muito afeiçoados àquelas chatices que as recomendações sociais protocolares exigem quando do casamento, desde a escolha das mensagens pedantes, grafadas nos quase sempre vistosos convites, à recepção de convidados, muitos dos quais, insatisfeitos por haver presenteado os nubentes com algo mais pomposo e de maior valia do que a festa lhes ofertadas. Resolvemos então poupar as pessoas desse emblemático episódio. Para tanto, decidimos nos casar na Capela do Rosário de Milho Verde, a 740 KM de onde nos conhecemos, e a época, morávamos. O ponto forte da cerimônia deveria ser a simplicidade, não convidaríamos nem mesmo os parentes mais próximos, apenas, por deferência, anunciaríamos o casamento e aqueles que por ventura comparecessem, seriam, esperávamos nós, acolhidos pelos parentes remanescentes do vilarejo.
Ocorre que, seguindo as tradições e o conservadorismo, da família da companheira, fui forçado, como manda o “figurino” a pedí-la em casamento, o que deveria acontecer durante um almoço oferecido pelo genitor da pressuposta futura virgem noiva, porém, já grávida. São aquelas ficções operadas pelos reacionários de carteirinha, não sabe? Na oportunidade, para não dificultar o que ainda estava por vir, achei conveniente não polemizar as coisas, aceitando todas as condições estranhas daquela refeição diferenciada por via do clima solene e formal que tomava conta dos preparativos que antecedia ao evento, tão bem arquitetado por meu simpático sogro. Durante a degustação das guloseimas, tudo corria muito bem, não obstante, nenhuma manifestação da minha parte consoante à formalização do tão esperado pedido, razão principal, acredito que única mesmo, daquela conturbada reunião familiar. Minha inércia, começou a incomodar, provocando sussurros entre os que ladeavam os acuados e constrangidos noivos, de tal sorte que, a delicada noiva se levantou abruptamente e bradou: O Adélito tem algo muito sério a falar, em função do nosso relacionamento. Todos se silenciaram, e, com um hipócrita exclamativo coro familiar indagaram: o que vocês andaram aprontando? Foi aí que, muito a “contragosto” levantei e disse: ‘Eu e a Celina queremos nos casar, mas dispensamos toda e qualquer opinião a respeito desse fato, porquanto, temos razões para acreditar que as interferências familiares contribuem para a desagregação do casal. Assim sendo, se querem de fato o nosso bem, se verdadeiramente nos gostam, nunca interfiram em nosso relacionamento. Por certo, em nossas vidas, iremos criar situações adversas em nosso relacionamento, todavia, caberá somente a nós, superarmos as dificuldades vindouras, para que possamos sair mais fortalecidos delas’.
Não precisa nem dizer que apesar de aceitar o pouco ortodoxo pedido, nenhum absolutamente, nenhum dos familiares de minha esposa compareceu ao casamento. De igual modo, poucos foram os meus que se fizeram presentes a pitoresca e inusitada cerimônia.
Antecedendo ao casamento, procurei me asseverar de haver providenciado todos os documentos oficiais pertinentes ao evento. Todavia, em respeito a cerimônia religiosa, como sou militar, tive de pegar uma autorização do pároco militar (Capelão) da Capelania militar de Uberlândia/MG, delegando poderes ao pároco da Igreja do Sêrro, município de circunscrição religiosa sobre Milho Verde, para que este, pudesse efetivamente celebrar o matrimonio, e, dado a proximidade do dia 1º de outubro, tive que submeter-me a um “aligeirado” curso de noivo, quase um suborno ao capelão a fim de habilitar de vez para a cerimônia religiosa.
Quatro dias antes do matrimônio, desloquei-me de ônibus para Milho Verde, a fim de proceder aos ajustes finais na oficialização da união. Entretanto, a pobre noiva, “prenha” de 6 meses, que nunca estivera por aquelas “bandas”, se municiou dos remédios contra enjôo, e, devidamente acompanhada por minha irmã, Dirce, embarcaram no terminal rodoviário de Uberlândia, dois dias antes do enlace matrimonial, com destino a tão comentada vila de Milho Verde. Tudo ia muito bem, enfim, chegara o momento mais esperado. No mais perfeito clima festivo, procederam a primeira baldeação 10 horas depois em Belo Horizonte e a segunda, em Diamantina após 16 intermináveis horas de sacolejos e solavancos. Mais a grande surpresa estava mesmo reservada para os derradeiros 44 KM, da mais pura, esburacada e acima de tudo, emocionante estrada rústica, construída na época do Império, por força, sangue, suor e sacrifício dos escravos, que, a cada chibatada, voluptuosamente golpeavam o sólido torrão das gerais, esculpindo nas entranhas das serras tijucanas, o caminho por onde, nos lombos dos burros a riqueza mineira escoava, a famosa estrada real.
Reproduzir o trecho do translado entre Diamantina e Milho Verde, confesso que não será tarefa fácil. Porém, só para “matutar” um pouco a respeito, eu diria que até hoje, a jardineira é um dos poucos meios de transporte por onde flui a produção da localidade, e que também retorna abarrotada com todo o material e suprimentos indispensáveis a sobrevivência da Vila. Logo é compreensível que o veículo de painel amarrado por corda de “embira” tenha poucas cadeiras para acomodar as pessoas, pois o conforto delas, invariavelmente implicaria no sacrifício dos objetos inanimados que também e junto aos passageiros viajam, tais como: Sacos de cimento, peneiras de garimpo, enxadas, pneus, marretas, carombés, latas de querosene, botijões de gás, baldes, bacias, selas, caixas, caixotes, sacas de alimentos, de pregos, ornamentos funerários, incluído urnas (derradeiros leitos) e ainda, alguns semoventes tais como: porcos, galinhas e cabras além de outras bugigangas mais. Em meio a essa emocionante aventura, minha querida noiva grávida, permanecia romanticamente a expurgar, por via oral, o muito do pouco que havia alimentado. E foi mais ou menos assim, a cada Quilometro uma parada, duas descidas e três embarques, que, 22 horas depois de despedir dos pais em Uberlândia, minha amada noiva pisou em solo milhoverdense.
Nos ares puros de Milho Verde, dormiu 14 horas ininterruptas, não comigo! é claro. Minha tia, aquela com a qual compartilhei o momento mais sublime da vida, nada mais nada menos do que o primeiro choro, não aceitou a desfeita de dois ainda solteiros dormirem, naquelas condições só dormirem mesmo juntos, no aconchego do seu respeitado, quase sagrado lar.
Atento que és, percebes que estamos no propalado dia 1º de outubro, não é? Engano, estamos mesmo, diferentemente do vindouro domingo de outubro, um belo sábado festivo, 30 de setembro de 1989, a propósito, dia em que os humanos normais costumam escolher para sacramentar as núpcias, fato este que seguramente contribuiu para que também nós optássemos pelo sábado, seguindo naturalmente as tradições impostas pelas convenções sociais, a final de contas não costuma ser muito elegante fugir às regras protocolares.
Como todos os detalhes estavam preparados para a celebração de logo mais, decidimos tomar um banho de cachoeira com o propósito de, em alto estilo nos despedirmos da vida “apartada” dos solteiros. E foi ali, no primeiro olho d’água, do poético rio Jequitinhonha, a duas horas do casamento que recebi a notícia de que o padre precisava falar comigo com urgência, pois, em derradeira supervisão técnica, havia encontrado uma falha nos documentos que o impedia de celebrar a cerimônia.
Faltando cerca de uma hora e meia para o ato oficial, o velho e decadente padre aposentado a mais de 30 anos, com semblante visivelmente abatido pela presente decepção, abordou-me dizendo da sua agonia e profundo sofrimento, pelo fato de não poder concretizar o casamento, uma vez que, em sendo aposentado, não podia obviamente ser o pároco da localidade, de modo que não era do ponto de vista eclesiástico competente para presidir a solenidade, a não ser que o padre titular, da vizinha cidade do Serro, substabelecesse a autorização do Capelão Militar outorgando-lhe competência. Nesse ínterim, um turista que costumava praticar cróss nas montanhas de Milho Verde, sensibilizado com o ocorrido, ofereceu-me a sua potente máquina de duas rodas, para que fosse ao Serro, atrás do tal pároco da Capela do Rosário.
Como ainda faltavam cerca de 80 minutos para que eu transpusesse a fronteira que marca o “aparteith” das categorias, solteiros/casados, confirmei a cerimônia tal qual havia programado. Arrebatei o processo das tremulas mãos daquele cadavérico ancião religioso e a partir daí entreguei-me por completo aos excessos caprichos burocráticos da “Santa Madre Igreja Católica”. As 18:15 horas, totalmente revestido pela textura artística pintada pela natureza e o magnífico efeito teórico da ação e reação bem como da gravidade, onde todo pó que sobe tende a descer e ainda com um capacete de gladiadores extra-terrenos, adentrei “atabalhoadamente” à Igreja bem em meio a uma cerimônia de casamento, justamente no momento em que o padre apontava o dedo em riste e indagava se havia dentre os presentes alguém que sabia de algo que pudesse impedir àquela realização. Como não tinha tempo a perder, do contrário comprometeria, não aquele mas o meu casamento, rompi as normas educacionais e protocolares anunciando em alto e bom tom que gostaria de falar em particular com o Padre, logo, como era de se esperar, todos os presentes se mostraram espantados com a petulância, e ao perceberem que o meu “apoquento” nada se relacionava com um eventual impedimento daquele ato temporariamente interrompido, mostraram-se indignados pelo aviltamento a tão nobre momento. De forma que, para evitar um linchamento, que deixaria a minha pobre esposa viúva sem se casar, assumi com alguma dificuldade o microfone do padre e, me justifiquei de público o momento angustiante por que passava. O padre, agora sensível ao drama, assinou imediatamente a autorização e sai correndo corredor afora, no que fui acompanhado por muitos que se posicionaram do alto da pedreira da Catedral, onde batiam palmas e se diziam torcendo para que eu chegasse a tempo do casório.
Cinco minutos depois, já fora do perímetro urbano, as adutoras do céu se romperam e uma verdadeira cachoeira desaguou, um novo “dilúvio” se estabeleceu naquele canto do planeta água, mas como ainda tinha uns trinta minutos e o firme propósito de realizar o intento, não me contive segui viagem, só que ao chegar no rio do peixe, aquele não mais se continha nos limites de sua “caixa”, abraçava toda a periferia de sua orla, invadindo espaço alheio e não se via nem sinal da ponte por onde o jovem nubente necessariamente deveria passar.
Desse modo, o insistente movimento de translação e rotação da terra, acobertado pela singularidade cósmica, fez com que o tempo continuasse o seu curso natural e impassivo diante do meu sofrimento, atropelando por conseguinte as pretensões do noivo, sem se quer parar para prestar o socorro. Assim, passaram-se as 19:00 horas do casamento, foram-se as 20:00 horas do que seria pós casamento, as 21:00 horas da festa ficaram para trás e as 03:00 horas da “lua de mel” seguiram o mesmo caminho. Só que foi justamente nesse horário sem “lua de mel” ou lua “astro” que o autoritário e pouco casamenteiro rio do peixe, liberou o meu alvará de soltura, quando então pude seguir viagem, chegando a Milho Verde por volta das 03:30 Horas, ocasião em que encontrei a todos rezando por minha sorte, já que a possibilidade de haver sido devorado pelas bravas águas do rio eram grandes.
Ao chegar e deparar com toda aquela gente, alguns até chorando, emocionei-me, foi então que procurei pelo padre, afinal de contas ainda havia “coro” para a realização. Então veio a informação de que o pobre decrépito havia com muito pesar se recolhido às 23:00 horas, não sem antes liderar uma corrente de oração por mim. Imediatamente desloquei-me até a hospedaria e o contatei dizendo que todos estavam prontos para a esperada cerimônia e ele muito simpático disse que àquelas horas não tinha condições físicas de celebrar o evento, mas que pela manhã, às 07:00 horas, estivéssemos na Capela, quando então o evento se realizaria.
Embora, o leitor esteja atento à cronologia, é sempre bom lembrar que estamos na madrugada do dia 1º de outubro de 1989 e como não me pareceu compensador e nem prudente, dormir as 04:00 horas para levantar logo em seguida, reuni com uns amigos ligados ao grupo de congado, se lembra que estamos em plena festa do rosário cujo congado tem efetiva participação? Bem mas isto não importa muito agora, o certo é que com estes amigos, saí homenageando algumas famílias com uma animada serenata, e com o “turvar” do dia despedi do grupo, não sem antes os convidar para tocar na cerimônia que se aproximava, considerando que àquelas alturas o relógio já transpunha os limites das 06:20 horas e o astro rei denunciava, não ter mais condições de se esconder atrás da montanha, os seus primeiros raios escapavam por sobre o crepúsculo de uma densa camada de névoa atingindo a “várzea” orvalhada, coberta por aquele gigantesco manto branco, dando a entender que ali também o sol celebrava um casamento entre a “várzea” e o “lajeado”.
Ao chegar à casa da tia, não mais encontrei a noiva, uma vez que havia saído cedinho para, juntamente com minha irmã, além de testemunhar o abstrato casamento do “lajeado” e a “várzea”, colher algumas flores do campo a fim de enfeitar o arranjo para o seu, mais real e concreto casamento. Foi então que vesti o uniforme de gala dos oficiais e desloquei-me para a Capela, onde já encontrei com os colegas do congado e por ali ficamos tocando os seus rústicos instrumentos. Na seqüência chegaram alguns parentes, meus pais, o padre e alguns sonolentos turistas que deixavam suas barracas armadas em volta da igreja. O relógio anunciou 07:15 horas e a noiva não chegou, 07:30 horas e a noiva nada, 08:00 horas e tia Santa, se lembra dela? Entra como doida Capela adentro dizendo que a noiva e minha irmã haviam sumido, foi quando, nos divididos em grupos e todos os presentes saíram numa verdadeira expedição de varredura a procura das duas, tendo um primo a felicidade e sorte de as encontrar acuadas em cima de uma árvore de jequitibá a “espiar” um boi que pastava bem abaixo, tocando-o, ou melhor ofendendo-o, considerando que gritavam como se toca galinhas, isto é: xô... xô... xô..., e como se sabe, boi se toca assim: Héeiá boi... Héeiá boi... Heia boi...
Portanto, às 09:15 horas de Domingo, do dia 1º de outubro de 1989 foi que consegui recrutar três amigos, Tenente Paulo Dias, Tenente Sales e Sargento Duarte, alguns parentes e outros nunca vistos turistas a fim de serem meus padrinhos de casamento e só então iniciar a cerimônia, que para completar foi, como tudo que a antecedeu uma verdadeira loucura. Primeiro o padre, sem que eu soubesse, tratou de expulsar o grupo de congado em razão da “latumia”, ou seja, do barulho ensurdecedor que promovia. Segundo, em função das caduquices, decrepitude e forte limitação visual do pároco, tive que pessoalmente assumir quase que todas as leituras que envolveram a cerimônia religiosa. Em virtude das diversas interrupções e o conseqüente esquecimento do pároco sobre o ponto onde havia parado, por excesso de zelo e prudência, iniciava ele todo o ritual do casamento desde o início. O compromisso de ser fiel na vida, doença, etc..., me lembro havê-lo feito três vezes. Teve um momento, onde o religioso se lembrou de que fora ele quem fizera o batizado e o casamento do meu pai, então cuidou de chamá-lo para o altar onde o casamento foi deixado de lado e falou-se de tudo que antigos amigos distantes, que não se vêem há muito costumam falar, menos obviamente de casamento.
Deixo de estender mais consoante ao ato em si, uma vez que, aquilo que o filmador, a propósito, pessoa esta nunca antes vista por mim, mas que ao receber o convite para o apadrinhamento resolveu, “de per si” proceder a filmagem, fato idêntico ocorreu com o fotografo, não fosse isso, não haveria registro já que não houve contratação específica para essa finalidade. Bem, o que quero dizer é que quanto ao ato o que não foi cortado pela habilidade amadora do filmador está registrado e pode ser comprovado, constitui prova material do alegado acima.
Se lembre que a primeira noite em milho verde não foi possível dormir com a noiva, por expressa ordem imperativa da tia Santa, a segunda, passei esperando a vazante do rio, pois é, e a do matutino casamento dominical também não, porquanto, depois da festança no boteco do finado primo “Fio”, lá pelas tantas quando nos recolhemos encontramos o sonhado leito dos nubentes, ocupado pelo Quelé, um negrão de 1,80 m, criado desde menino por minha tia, amante fervoroso do “aperitivo” (cachaça) em larga escala, que, em avançado estágio etílico, prostrou-se na cama do jovem casal... Pode? Dá ou quer mais?